sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Nada a ver com isso

A quem interessar possa e para que não paire dúvidas informo que; nas duas vezes que passei pela imigração inglesa meu visto foi concedido por funcionárias femininas e não houve teste do sofá.

sábado, 10 de dezembro de 2005

Informalidade

Em duas semanas seguidas a revista Veja recheou suas página internas com matérias que dizem, em suma, uma coisa: a informalidade é o motor (freio-motor, é claro) da falta de crescimento da economia brasileira.
É claro que cada momento é um momento, mas, eu me pergunto, como era a formalização da economia há 30 anos?
Será realmente que nossa economia está se tornando mais e mais informal ou ela se mantêm da maneira que sempre foi?
Sinceramente não tenho a resposta. Mas desconfio que as coisas são mais ou menos da maneira que sempre foram. Só estamos recebendo mais notícias a respeito da informalidade.
Vejam meu ponto de vista.
Quando se deu o milagre brasileiro a grande maioria da população vivia no campo, e grande parte das relações de troca eram exatamente isso, troca (ou escambo, a forma mais precisa e incomum de se dizer); mais informal impossível.
Um diferencial importante hoje em dia é que se faz muito mais espuma sobre o assunto com a universalização da previdência social, com as pressões externas pelos direitos a propriedade intelectual, etc...
Não estou querendo dizer com isso que sou a favor da informalidade, que em alguns casos não passa de crime mesmo, só estou tentando dizer que o buraco é muito mais embaixo.
Creio até que o maior problema não é a informalidade de uma parte da nação e sim o excesso de formalismo da outra parte.
É a inexplicável via-sacra que temos que percorrer quando tentamos abrir uma empresa; é o caminho para o purgatório quando devido a uma obscura mudança de norma nos joga na irregularidade; é a dificuldade de acesso à justiça e todos os outros suplícios que um empreendedor sofre no exercício da função.
Em resumo, o que nos atrasa é o setor público e a sua falta de competência.
Tentar jogar a culpa em outra instância é muito cômodo, porém não é verdadeiro. A informalidade da nossa economia é um processo histórico que começou em um ponto indeterminado e talvez nunca terminará. A patinada econômica se iniciou há 25 anos.
Algo mais tem que explicá-la.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Pergunta:

Não é espantoso como tantos declaram que a nossa moeda deve ser desvalorizada e outros tantos, por vezes até os mesmos tantos, declaram que se deve combater a inflação, pois ela deteriora o poder de compra desta mesma moeda?

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

A cara da crise (você, eu e todos que nada fazemos para que os "responsáveis" o sejam)

Só o que se ouve atualmente é que a crise disto, crise daquilo e, talvez, até uma crise institucional entre os poderes da República.
Porém, se há uma crise de fato, é a crise de responsabilidade das autoridades constituídas.
A estas não se cobra a responsabilidade pelos seus atos; como se imagina que eles próprios se sentirão responsáveis por estes? Só a fé na raça humana mesmo poderia nos fazer crer nisto, e ela está desacreditada não apenas nestas paragens.
Tomemos como parâmetro o notório caso do juiz de Contagem que anda soltando condenados. Se aos possíveis, na verdade prováveis, delitos destes ex-detentos fosse imputada co-autoria ao excelentíssimo juiz, nenhum deles estaria nas ruas. Estariam todos muito mal-confinados em Contagem, de modo que os crimes seriam de outros.
E quem seriam estes outros. Em última instância de nosso presidente, Lula, e do governador do estado de Minas Gerais, Aécio Neves – mas podemos dizer o mesmo de todos os governadores do Brasil, uma vez que não existe nenhum estado no qual este problema está equacionado. Se as cadeias e prisões estão neste estado lastimável, é por que os administradores públicos não dão a mínima para o problema da população encarcerada deste país.
Todos os administradores deveriam, já há muito, ter resolvido estes problemas. Mas quem liga para os presos? Boas condições destes dão votos para quem? Aqueles que morrem ou ficam doentes quando internos destas instituições podem cobrar de quem?
No máximo pinta um processo contra o Estado, este eterno provedor.
O diretor da prisão pode eventualmente ser trocado, o juiz corregedor pode eventualmente ter uma noite mal dormida para se defender das acusações. O Secretário de Segurança Pública nem ao menos fica sabendo, imaginem o Governador ou o Presidente.
Só que esta situação não ocorre apenas neste quesito da administração pública. Está em todos os aspectos de nossa administração.
Está na lei mal escrita, na decisão mal tomada, na estrada mal construída e na investigação mal conduzida. Em tudo então.
No dia em que as ações ou omissões irresponsáveis começarem a trazer conseqüências aos hímens públicos desta nação este país estará automaticamente consertado. Tudo funcionará como em uma orquestra de virtuoses e todos poderemos dormir tranqüilos.
Até lá, estaremos no Brasil.

Obs: aparentemente o juiz de Contagem (o nome é muito complicado para que eu atreva a tentar escrevê-lo) está coberto de razão, perante a lei. Se a sociedade não tem condições de manter os detentos em situação ao menos decente, como podemos querer que ela os mantenha detidos?

quinta-feira, 24 de novembro de 2005

E o cínico sou eu?

Nada mais desagradável do que assistir aos depoimentos destes deputados acusados de receber verbas “não-contabilizadas” das contas de Marcos Valério ou, como preferem alguns, do Valerioduto.
Hoje, João Paulo Cunha teve a cara de pau de dizer que não havia nada de errado em com o que havia feito. Recebeu sim, os recursos, e daí?; disse.
A culpa tinha toda sido do tesoureiro, aquele demoníaco ser que faz brotar dinheiro, não se sabe de onde, para toda e qualquer necessidade.
O deputado do partido amigo está sendo ameaçado de perder o cargo; chama o tesoureiro.
Precisamos de uma pesquisa eleitoral, chama o tesoureiro.
Queremos um álibi, tesoureiro.
Assinei sem ler, o culpado é o mordomo, quer dizer, o tesoureiro.
O partido está metido em um atoleiro financeiro, é claro que o culpado é o tesoureiro.
Culpado, não, desculpe, me expressei mal. O responsável é o tesoureiro.
Nesta crise toda não há culpados, além de Roberto Jefferson.
Os outros são apenas vítimas da situação. Todos têm bom coração, querem o melhor para o povo.
Se andam recebendo caixas de conteúdo suspeito, é para melhorar as relações com os países amigos.
Obras suspeitas financiadas pelo BNDS mundo afora? Oras, são países amigos.
Carros de presentes? Mas quanta desconfiança, são primeiros-secretários amigos.
Centrais de negócios em Brasília? São apenas ex-amigos.
E os indícios de irregularidade? Todos baseados em denuncismo irresponsável, todas as denúncias são vazias, nada ficou provado, mesmo quando as provas estão aí aos olhos de todos.
Quem não acredita nas desculpas; esfarrapadas, diga-se de passagem? Um bando de militantes da elite, desgostosa com os lucros crescentes de suas aplicações financeiras. Ou não era este o raciocínio de Joãozinho Trinta, que quem gosta de luxo é o pobre. Nossas elites devem estar fartas de verem o seu aumentando.
Já fui acusado muitas vezes de ser cínico, mas se quero mesmo aprender a sê-lo, terei que fazer um estágio em Brasília. É lá que estão os mestres.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Volta das férias

Após dois meses de ócio e preguiça, estou de volta.
Como não tenho que me preocupar com os leitores, que ainda não tenho, começo amanhã, ou depois, ou depois ainda....

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Voltando aos juros

É mais do que certo que o país não pode manter estas taxas de juros indeterminadamente. Se pagamos pelos empréstimos juros mais altos do que o crescimento do PIB, é óbvio que em algum momento nossa capacidade de saldar estes empréstimos será ultrapassada. E quanto mais alta for esta diferença, mais rápida será alcançado este limite de solvência. Portanto, estamos jogando fora a capacidade de endividamento e estamos conseguindo com isto apenas mais dívidas.
Há apenas duas possibilidades em que torna moral e economicamente possível aceitar o endividamento de um poder público. Quando estes empréstimos possibilitam que um serviço essencial seja exercido ou quando eles fazem com que a infra-estrutura fornecida pelo estado possibilite um crescimento econômico maior do que as taxas de juros, tornando a sociedade como um todo mais rica, e - por tabela - aumentando a capacidade de estes empréstimos serem saldados.
Estas duas possibilidades lógicas não estão sendo cumpridas, então as taxas de juros que nosso estado está pagando, voluntariamente, estão empobrecendo toda a sociedade, em benefício de uns poucos que possuem capacidade para aplicar em títulos públicos, tanto aplicadores estrangeiros quanto brasileiros.
Esta política de juros altos é até o momento subsidiada pelo aumento de tributação da sociedade, e será assim até que a sociedade impeça que esta expropriação continue.
Uma expropriação que começa hoje através de impostos e continuará no futuro pela divida crescente ou pela moratória que certamente virá pela incapacidade de pagamento caso este processo persista.
Isto não é uma questão de pensamento de esquerda, que certamente não tenho, mas de pura lógica.
Tentar assassinar a lógica com base em falsas premissas de combate a inflação é um crime de responsabilidade, que o atual governo está cometendo com todo o “fervor revolucionário”.

Gigante desnaturado

Os dias vão passando e continuamos a ter a maior taxa de juros reais do mundo.
Por quê?
Todos os defensores afirmam que é devido ao combate a inflação, mas será verdade?
Juros altos combatem a inflação com características brasileiras? Tenho minhas dúvidas.
Juros são eficazes em situações em que há uma grande demanda reprimida e facilidades de crédito para que as pessoas possam atender esta demanda, o que poderia fazer com que a oferta ficasse desequilibrada.
No Brasil certamente existe uma grande demanda reprimida, sem dúvida, mas o crédito é tão restrito que chega a ser ridículo que tenhamos que tentar dificultá-lo ainda mais.
Outro detalhe é que o crédito é dificultado indistintamente. Mesmo o aumento de produção, que certamente faria a oferta maior, combatendo possíveis surtos inflacionários, tem taxas altamente desencorajadoras.
Ainda mais se calculamos as taxas de retorno das empresas, na média menor do que 10% ao ano, com as taxas de retorno dos investimentos em títulos públicos, atualmente maiores do que 14% no mesmo período. Que capitalista quereria arriscar seu capital e ainda trabalhar se pode emprestar seu dinheiro para o governo, viver de juros e com riscos muito menores; concordo com vocês, só um capitalista louco.
Desta maneira, ao invés de diminuirmos as condições para que tenhamos inflação baixa, estamos criando uma bomba que poderá ter um efeito inflacionário no futuro, quando esta demanda for liberada.
O pior de tudo é que estamos utilizando este instrumento contraditório como se nossa economia fosse totalmente submetida às compras no crédito, quando estas estão presentes apenas em uma pequena parcela da economia formal.
Como esta economia formal é responsável por perto da metade da economia real, estamos utilizando o remédio com doses exageradas em uma parcela para tentar conter os preços de todo o sistema.
E todas as medidas que poderiam fazer com que a realidade se aproxime da oficialidade são deixadas para lá, pois é mais fácil descontentar a uma grande e amorfa parcela de brasileiros que tentar mudar as regras atuais do jogo, que têm vencedores ativos e que se aproveitam do gigantismo do Estado em relação à nossa economia.
Não precisamos de choques de gestão, de capitalismo, de eletricidade; precisamos apenas acordar para o óbvio, que os agentes públicos devem pensar no público e restringir-se isso.
Esta já seria a grande revolução, e problemas como este do gigantismo do Estado e de sua dívida seriam coisas do passado.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Golaço?

Admito que o gol do Robinho cause admiração pois passou por todos os "mágicos" do quarteto, só que não vamos fingir que aquilo foi combinado.
Depois do lançamento açucarado de Robinho para o Adriano, e do eficiente drible que o centravante deu para se desmarcar, este deu uma engrossada fenomenal.
O cruzamento que o Adriano deu foi digna de zagueiro de roça. Temos que exaltar a recuperação do Kaká, que conseguiu do jeito que deu, que deixou a bola em condições boas para que Ronaldinho pudesse presentear Robinho com o gol.
Se tudo somado foi plasticamente bonito, foi um acidente.

sábado, 3 de setembro de 2005

A maior nação da terra

Esta é a expressão mais ouvida em qualquer reunião de norte-americanos falando de seu próprio umbigo.
Como qualquer um que fala, pensa e vive olhando para seu próprio umbigo, não conseguem ver um palmo adiante dos narizes, talvez devido à protuberância adiposa em meio ao qual este umbigo está.
Se conseguissem olhar um pouco ao redor de si próprios, os norte-americanos teriam percebido que há muito não há nada que os possa por em posição que justifique esta expressão.
Primeiro por que não existe esta grande nação americana. Como podemos ver claramente nos vídeos sobre a catástrofe, há pelos menos duas nações bem distintas e não comunicantes. A afro-americana e a dos outros; particularmente acredito que há muitas outras naquele país.
Estas duas não se comunicam, não se misturam e não se gostam. Vivem se afrontando mutuamente e consideram a outra culpada pelas mazelas de sua sociedade.
O segundo ponto que não tem nenhuma conexão com a expressão é o de ser a mais avançada tecnologicamente. De fato houve uma época em que eles primavam pela mais avançada tecnologia na face da Terra, só que isto foi a muito, muito tempo atrás; talvez nos primórdios da revolução digital.
Hoje, a tecnologia está bastante disseminada, e todas as novas “maravilhas” apresentadas dia após dia parecem ter em seu coração dna europeu ou asiático. Para não dizer que os norte-americanos não contribuem com nada, está aí o marketing dos quais eles ainda são os reis.
Só que como são os reis do assunto, eles devem saber que marketeirismo necessita de um substrato, por menor que seja, para prosperar.
Esta aí a razão da forma pela qual a popularidade de George W. Bush está fazendo água tão rápido quanto a cidade de Nova Orleans. Em tudo, tudo - repito, tudo - que se propôs, o governo Bush fracassou.
Como querer que os outros creiam que um fracasso atrás do outro demonstre que uma nação é a maior.
A população dos Estados Unidos deveria pegar o exemplo de seu presidente e derrubar o líder de uma nação que atrapalha seus planos e bem-estar.
O derrubado seria certamente um tal de W. Bush.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

A força do terrorismo

Enquanto os ocidentais ficam se lamentando de sua sorte por ter que lidar como terrorismo islâmico, os iraquianos são forçados a carregar um fardo muito mais pesado.
Este é uma combinação de guerra civil pelo poder, revanchismo étnico, ocupação estrangeira, luta contra esta ocupação e terrorismo puro e simples.
Este caldo trágico mostrou sua força assassina ontem, com a tragédia que vitimou mais de mil pessoas, durante procissão xiita.
O pânico foi tão grande que provocou estas mortes e ferimentos baseados unicamente nos gritos de que haveria um homem-bomba no meio do cortejo, de existência não comprovada.
Esta é a verdadeira vitória do terrorismo. Desde a mais famosa ação deste conflito, aquela de 11 de setembro, ocorreram mudanças de regimes, de governos e de políticas; tudo motivado por atos e contra-atos terroristas.
Embora algumas destas ações tenham sido menos motivadas pelo terrorismo, e sim utilizado esta bandeira anti-terrorismo como diversionismo, tudo agora passa a formar uma enorme corrente de transmissão que passa a levar frustrações e problemas locais para um nível local.
Tomemos um caso isolado, o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes. Aquele foi claramente um caso terrorista, no sentido de dizer para os possíveis “atentadores”: olhem o que faremos com vocês; nós não importamos com os da sua laia; vocês não são nada.
O maior problema para os policiais que o executaram foi que estes foram de uma incompetência a toda prova. Além de matarem um inocente, perderam todas as chances de neutralizar aquele que poderia ser um terrorista – lembrando que ele esteve em um ônibus e em um vagão de metrô, no qual foi executado, e, caso fosse esta sua intenção, poderia ter explodido um dos dois. Sem contar com a tentativa má-sucedida da Scotland Yard de fraudar as investigações independentes sobre o caso.
O próprio Iraque se converteu de um Estado autoritário, mas estável, em um território em balbúrdia. Sem segurança, sem governo e em colapso econômico. E com milhares de terroristas circulando livremente.
Em resumo; os estados democráticos pioraram, os autoritários pioraram, as perspectivas de vida pioraram. Portanto os objetivos dos terroristas islâmicos estão mais próximos, eles estão vencendo.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Corporação: você ainda vai fazer parte de uma

Para ser médico é necessário estudar medicina, para ser engenheiro é necessário estudar engenharia, para ser motorista é necessário freqüentar auto-escola. Tudo faz sentido, não? Não.
A princípio para exercer qualquer função seria necessário apenas saber conhecer o ofício, mas as corporações conseguiram encutir no inconsciente de nossa sociedade que para toda a função existe um diploma equivalente que permite ao portador que a exerça. Seria uma forma de proteger a sociedade de má-prática, só que acaba sendo uma forma de reserva de mercado; em suma, um meio de beneficiar economicamente uns escolhidos.
Tomemos, por exemplo, a função de motorista; para não entrar no jardim de corporações poderosas, porém para as quais o raciocínio é o mesmo.
Exige-se de alguém eu queira dirigir veículos automotores terrestres, quando em via pública, a posse de uma licença de motorista. Para consegui-la é necessário um número x de aulas, teóricas e práticas, em instituições especializadas de ensino e a realização de provas em um órgão público específico.
Qual é a justificativa? Proteger a sociedade de maus motoristas, assegurando que só se habilitem ao exercício da função os que passarem por um rigoroso processo de treinamento e de testes de capacidade.
Além do ridículo de ser inabilitado quem não está de posse de sua CNH (carteira nacional de habilitação) – é o mesmo que dizer um médico que não está carregando sua carteira do CRM (Conselho Regional de Medicina) não pode salvar vidas, isto é uma justificativa claramente falsa.
Os dados da violência no trânsito brasileiro demonstram que esta forma de capacitação não está funcionando. Seria muito mais eficiente se a educação para o trânsito fosse ensinada desde a primeira infância durante a educação obrigatória a que todas as crianças do país precisam se submeter. Se fosse feita de maneira correta, esta educação precoce e continuada formaria um exército de pessoas mais capacitadas do que as que hoje estão aos volantes e guidões Brasil afora.
Por não confiar no discernimento da população a legislação cria uma indústria da “instrução” de motoristas. Por não confiar na educação que dá ao povo a sociedade exige provas de habilitação.
E é assim em todas as funções tradicionais que já conseguiram atiçar a sede das corporações.
A existência desta infinidade de corporações e de especificações de profissões é apenas mais uma das engrenagens da máquina de atraso brasileira; uma das mais importantes, aliás. Basta verificar que o auge deste tipo de sociedade de escolhidos foi na antiga idade média, pela qual nossa sociedade nem passou diretamente, se bem que, principalmente, manufatureiras, ao contrário da nossa que é focada nas profissões de prestação de serviços.
Uma justiça crível e rápida poderia dar cabo deste atraso; responsabilizando aqueles que cometessem má-prática profissional ou pessoal, atentando contra a vida ou patrimonial – de todo tipo, do financeiro ao moral – de outrem.
Como esta justiça não existe, as corporações vicejam.

terça-feira, 23 de agosto de 2005

Alhos, bugalhos e outros semelhantes

Virou moda ficar comparando Brasil com China, Coréia e Irlanda. Será que isso faz sentido?
É óbvio que não, são países com nada em comum, tanto na cultura, como na geografia, quanto em qualquer outra coisa que se tentar comparar.
A China é um país que está passando por uma “revolução” na economia, está passando de uma economia marcadamente agrária para uma economia industrial sustentando-se nos pilares de financiamento externo e tecnologia estrangeira. É surpresa que seja o país que mais cresce no mundo?
No início do século passado houve um país que fez exatamente isso e durante as sete primeiras décadas daquele século foi a economia que mais cresceu no mundo. Esse país era o Brasil. Como podemos sentir na própria carne, este receituário não nos transformou em uma potência, pois claramente tem seus limitantes. Talvez a China tenha descoberto uma maneira de romper estas limitações, eu francamente duvido.
A única maneira de perpetuar-se como uma potência econômica madura é incluindo a maioria da população no mercado de consumo, e isso a China não parece estar fazendo. Depender de compradores externos é sempre uma receita para o litígio, como já vem ocorrendo, ou para a catástrofe, já que estes compradores sempre podem sumir de uma hora para a outra.
Um mercado interno forte é um seguro quanto a esta possível perda de clientes estrangeiros e um grande meio de se alcançar escala para tentar o mercado externo.
Este é o desafio da China, transformar seu imenso mercado interno potencial em um mercado real, mesmo porque o resto do mundo não conseguirá arcar com uma China produtora nos moldes da atual. Imagine 1 bilhão e meio de pessoas produzindo artigos industriais baratos, quem vai comprar esta avalanche de bugingangas?
A Coréia do Sul é um exemplo parecido com o da China, só que em uma escala muito menor, o que permitiu que ela se desenvolvesse mais. Agora já produz tecnologia própria e pode concorrer de igual para igual com os grandões.
E a Irlanda, é um país minúsculo quando comparado com os outros três (menos de 5 milhões de habitantes), com um mercado interno imenso (a própria União Européia) e investimentos externos diretos e subsídios gigantescos. Seria necessária muita incompetência para que o país não crescesse a taxas gigantescas e se não equiparasse aos seus demais parceiros. Eles não tiveram, talvez a tivéssemos, mas quem sabe?
Cada país é um país, podemos ficar procurando similaridades e tentar adaptar casos de sucessos de outros países onde estas similaridades se encontram, mas tentar pegar índices de crescimento e falar; vamos seguir o que aqueles caras fazem, simples assim, não funciona. E não tem como funcionar algum dia.

quarta-feira, 17 de agosto de 2005

Na dúvida, pró ataque

“Falar em impeachment é flertar com o desastre”, escreveu Celso Ming em sua coluna de ontem no Estadão. Pode até ser, mas e não falar?
Não falar é casar com ele. É aceitar que as ações do governo Lula estão em concordância com o esperado. É o pior dos mundos.
Ming não é o único que não quer nem ouvir falar disso, tanto na mídia quanto nos partidos políticos.
Dizer que Lula não pode sofrer o impeachment (a partir deste momento procurarei me referir como impedimento), principalmente, devido a má qualidade de seus suplentes é simplesmente ridículo. O entendimento de que o impedimento por não ser conveniente para certos caciques (notadamente do PSDB) é mais do que ridículo.
Não estou defendendo o impedimento - nem ao menos sei se há elementos para isso – mas, se queremos conviver com a democracia e a legalidade, temos que aprender a respeitar a lei como está escrita.
Se na legislação vigente está escrito X, cumpra-se. Se achamos que X está errado, procuremos mudá-lo, só que depois de cumpri-lo enquanto está vigente.
Leis são feitas para regular as relações sociais e o poder executivo para, convenhamos, executá-las. Um governo que nem ao menos as cumpre é um estorvo. Se ser este estorvo não é uma “questão” de responsabilidade, não sei o que é; se é crime, não sei.
Pois então, não vamos tentar por fogo no circo. Daí a virar o rosto para não ver as chamas é outra muito diferente. Quero crer que não o faremos, mas aqui; quem vai saber?
Lulisticamente falando, vamos nos utilizar de uma figura de linguagem.
No futebol, na dúvida, deve se favorecer ao ataque e mandar a jogada seguir. No contencioso legal, na dúvida, pró réu.
Lula espera que na dúvida, pró ele. Só que política não é futebol e muito menos justiça. Se houver dúvida, ele já está perdendo, se certeza, é impedimento.

domingo, 14 de agosto de 2005

Faz todo o sentido

Moramos em um país esquizofrênico, não há dúvida, mas o grau parece estar se acentuando.
Sempre que dou uma olhada nos periódicos, seja em qual meio seja, me espanto com as discrepâncias entre a realidade e o discurso.
Não quero nem citar o nosso autista do planalto – é bom que ele fique com as barbas de molho - mas quero me ater a coisas mais simples, prosaicas; como a economia, por exemplo.
Mais precisamente o nosso súbito impulso exportador. Se tudo está errado, como dizem analistas e jornalistas especializados que resolvem opinar sobre o assunto, como podem mês após mês nossas exportações quebrarem recordes, assim como nosso saldo comercial.
Eu, como não sou nem analista nem especializado – e, portanto, não tenho um nome a zelar – posso dar meus pitacos.
Vamos por partes.
Primeiro, o câmbio. Será que ele está realmente tão desvalorizado assim? Pra quem se lembra dos 4 reais que um dólar comprava três anos atrás, estes 2,3 são realmente muito caros, só que não contam toda a história.
Dizem os especialistas que se levarmos em conta a inflação acumulada no período o dólar está mais valorizado do que em 1995, mais do que no século passado então.Mas pergunto aos especialistas, estamos levando em conta que grande parte desta já citada inflação ocorreu devido a valorização do já citado dólar em relação ao real?
Estamos, eu pergunto também, computando o fato de que faz três anos eram necessários 1,2 euros para comprar 1 dólar e hoje a relação se inverteu?
E pergunto ainda mais, seriam propaganda enganosa os dois estudos que foram lançados este ano e mostraram que Rio de Janeiro e São Paulo são das cidades grandes mais baratas para se morar no mundo? Só pode, já que nelas circula a super-ultra-hiper-valorizada moeda chamada real.
Quanto a infra-estrutura.
Há duas coisas a serem ditas sobre ela.
Que influencia o lucro do exportador não há dúvida. Só que também o faz com o importador. Os portos são os mesmos para ambas as partes, as estradas também, como qualquer outra forma de transporte dentro do nosso território.
Poderemos melhorá-los, e acredito que devemos, só que isto não significará necessariamente que nosso saldo comercial aumentará. Minha aposta é que aconteceria justamente o contrário. Nossa carga tributária passaria a ter um papel mais preponderante nos custos caso a infra-estrutura melhorasse. Quem vocês acham que sairia ganhando?
Ainda sobre a infra-estrutura, quero dizer que o dinheiro que é gasto devido a falta deste não é, digamos, “vaporizado”. Mas é isso que as análises fazem parecer, por exemplo, quando dizem que os produtores de soja norte-americanos ou argentinos são mais competitivos por terem um frete médio mais barato que os brasileiros. Primeiro porque este não é o único custo e segundo porque o dinheiro não desaparece, simplesmente.
Todo o dinheiro gasto a mais com transporte rodoviário em detrimento a tão sonhada matriz sobre trilhos ou sobre barcaças alimenta uma grande cadeia que vai dos caminhoneiros e passa pelos frentistas de posto de beira-de-estrada, passando por concessionárias, mecânicos, indústrias de auto-peças, etc. Muitas das engrenagens desta cadeia inclusive ganharam escala que as credenciaram a competir pelo mercado externo devida a grande escala destes negócios no Brasil.
Desta forma, a mudança da matriz de transporte poderá trazer grandes vantagens ao exportador - e ao importador – só que não significará também uma grande perda para toda esta cadeia.
Dizer que o país sairá ganhando é uma generalização que não me atrevo a fazer de sopetão.
É certo que os analistas devem tentar antecipar os acontecimentos, só que as análises parecem deslocadas d realidade. Em um país esquizofrênico faz todo o sentido.

sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Desculpe qualquer coisa

Enquanto muitos analistas e políticos acharam o pronunciamento de Lula no encontro ministerial desta manhã positivo, eu o achei extremamente negativo.
Lula deixou o palanque para fazer um pedido de desculpas à nação, mas; pelo quê?
Apresentou-se como vítima de uma traição, mas; por parte de quem?
Nem esmo a acusação textual por parte de Valdemar Costa Neto de que Lula sabia do acordo de 10 milhões de reais, pelo apoio dado pelo PL ao então candidato a Presidência da República, foi citada.
Ou seja, nem em um pedido de desculpas Lula demonstra estar ciente de algo. Continua usando o figurino “Jatobá”.
Nada vê, nada viu e, aparentemente, nada verá.
Tudo está acontecendo a sua revelia. O que é bom e o que é ruim acontece a despeito de Lula.
O que mais indigna é isso. O Brasil não tem governo.
Pobres de nós.
Ou, como pude inferir do discurso de Lula: desculpa qualquer coisa.

Os elementais

No universo dos quadrinhos de heróis há uma grande gama de tipos: os justiceiros (Batman é o mais famoso desta classe); os alienígenas (Superman); os mutantes (X-man); os mitológicos (Thor); os místicos (John Constantine) e etc. Muitas vezes estas classes se mesclam em uma única personagem.
Uma classe não muito explorada é a dos chamados elementais. Estes seriam personagens que personificam os elementos da natureza e a eles controlam. Como exemplos poderíamos citar Ororo Tempestade dos X-man e Monstro do Pântano, de cujas histórias retirei esta denominação de elemental. São sempre, nos quadrinhos, seres extremamente poderosos e, no mais das vezes, torturados justamente por este excesso de poder, que os afasta dos humanos, como a deuses de seus devotos.
Mas algo que foi pouco explorado é o de que hoje, no ano da graça de 2005, somos todos parte de uma grande entidade elemental, a raça humana. Estamos manipulando a natureza em ritmo de cataclismo e colherá as conseqüências, boas e ruins.
Para todos os lados que se olham há sinais da mão humana. Há na mudança de características fenotípicas de espécies animais, como relata a revista Veja desta semana ou em características geográficas como na seguinte reportagem da Folha Online, no link a seguir: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13576.shtml .
O certo é que não há como negar o chamado Efeito Borboleta.
Esta denominação, retirada de um conto de ficção científica de H. G. Wells - se não me engano -, significaria que qualquer ato, por mais insignificante que pareça, tem repercussões que podem vir a ser desastrosas.
Dito todo este prelúdio, onde quero chegar?
Bem, talvez a abordagem dos preservacionistas não seja a mais adequada. As espécies (animais, vegetais ou quais mais houverem) se modificam continuamente e a sua capacidade de se adaptar é diretamente proporcional a velocidade com que se reproduz.
Portanto pretender manter os habitats intocadas é verdadeiramente antinatural. Espécies morrem e nascem todos os dias. Não há como manter redomas entre estas espécies, seus habitats e o mundo habitado pelos humanos.
A força das espécies consiste em conseguir se adaptar aos desastres e cataclismos naturais. O homem (como espécie) é um cataclismo que está se desenhando nos últimos milhares de anos e não há como reverter o que já fizemos.
É verdade que simplesmente devastar áreas sem pensar nas conseqüências é uma atitude burra, mas tentar mantê-las intocadas não é a contrapartida inteligente.
A proibição de acesso e exploração econômica de uma área muitas vezes faz com que o processo de degradação se acelere
Talvez alguma espécie de primata pereça, ou talvez um belo pássaro canoro. Não serão os primeiros pecados humanos e não serão os últimos.
Pode parecer fatalismo – eu chamo de realismo – mas a maioria das espécies ameaçadas de extinção está fadada a isto. Não será salvando uma pequena faixa de terra que as salvaremos.
Serão no máximo fantasmas confinados em imensos zoológicos.
A chave agora é mais tentar salvar o conjunto, mesmo que empobrecido, mudando nossa forma de inserção no meio.
Acredito sinceramente que estamos chegando ao ponto de inflexão e nossa capacidade de não lesar o meio-ambiente vai crescer exponencialmente a partir de agora.
Espero estar correto.

quarta-feira, 10 de agosto de 2005

Português claro

No meio da brigaiada das CPIs parece que muitas perguntas estão ficando sem resposta.
Vou dar um exemplo, a motivação que Marcos Valério afirma para ter se envolvido neste imbróglio.
Isto teria ocorrido devido a certas pressões sobre os contratos que as agências do “publicitário” tinha com o Banco do Brasil. Caso Valério não “ajudasse” o PT, este poderia vir a romper com os contratos, insinuou o “empresário”.
Mas vamos tentar depurar as coisas.
Aparentemente, segundo o sócio Cristiano Paz, o primeiro empréstimo foi de 12 milhões de reais. Com juros camaradas de, digamos, de 1 por cento, teríamos que a SMPeB arcaria com encargos financeiros, sem contar as taxas, de 120 mil reais mensais.
Levando-se em conta que os lucros da agência com o contrato fossem de 20 por cento, precisaria de um contrato que, apenas para pagamento de juros, de 600 mil reais mensais.
Agora vamos extrapolar na imaginação. Caso o contrato de empréstimo fosse para ser saldado em dois anos.
Para que o contrato apenas empatasse o jogo, e não remunerasse a empresa, seria necessário que o banco do Brasil tivesse contratado serviços de 75 milhões de reais no período.
Isto seria mais do que o faturamento isolado da empresa antes do seu envolvimento com o PT.
Então, você financiaria um partido, colocando sua empresa em risco, a troco de nada?
Usando as palavras de Marcos Valério: “vamos falar o português claro”. No mínimo é estranho, e pode muito bem ser irregular.

terça-feira, 9 de agosto de 2005

É incrível

O fato de a imprensa não explorar o fato de que todos os parlamentares que receberam remessas de dinheiro, fossem quais fossem os motivos, cometeram crimes.
Digamos que realmente, e em todos os casos, os “recursos não contabilizados” eram para saldar dívidas de campanha. Crime eleitoral é crime continua sendo crime, não é por estar na esfera da política que se transforma em outra coisa.
E há os crimes comuns também. Não sou advogado – portanto não entendo nada de legislação –mas tudo leva a crer que haveria pelo menos um delito, contra a ordem fiscal, pois dinheiro não contabilizado supõe-se não tributado também. Há também grande chance de haver falsidade ideológica e formação de quadrilha. Isso sem contar que, se houver dinheiro público envolvido, peculato, prevaricação e um monte de outros nomes esquisitos desta estirpe.
Então é de causar especial indignação a reação dos deputado que confessam os “pecadinhos” e completam, com a maior cara-de-pau, que todo mundo faz, portanto ele pode fazer.
Só isso já seria motivação para cassação. Um deputado dizendo que está quebrando a lei é mais do que um incentivo para que a população comum também o faça. Confessando isso em rede nacional, e bradando aos quatro ventos estar certo, é mais do que quebra de decoro parlamentar. Podem cessar as investigações e punir.

sábado, 6 de agosto de 2005

E algo a celebrar

O artigo de Thomas Friedman “Nova lei de energia dos EUA não pode ser séria”, publicado hoje na “Folha de S. Paulo”, traduzido do original do “New York Times”, é digno de regozijo, pois além de pedir enfaticamente por uma nova política de energia nos Estados Unidos, inclusive diminuindo a presença do petróleo “alimentador de terroristas” do Oriente Médio, definição dele, por matrizes verdes, como o nosso, citado no texto, etanol.
O texto não só mostrou-se favorável a adoção mais efetiva de biocombustíveis no território norte-americano como contrário às barreiras contra a importação de produtos derivados de cana do Brasil.
Que nós já vencemos todos os desafios técnicos para a utilização de etanol como combustível, tornando-nos por tabela nos mais capazes e confiáveis produtores deste recurso renovável, não é nenhuma novidade. Para vencermos as barreiras alfandegárias que nos impede de fornecê-lo a outros mercados teremos muitos outros desafios, políticos na sua maioria.
Contar com a ajuda do mais influente jornal norte-americano para minar as forças dos “lobbies” que nos atrapalham é uma forcinha que não estava no roteiro, mas que deve ser comemorada sempre.
A opinião pública do possível mercado a ser conquistado é sempre o melhor aliado a se ter.