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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Prova provada



A reportagem aí de cima é a prova das virtudes do câmbio flutuante.
Concedo que é besteira dizer que o consumidor tem ciência de todos os fatos econômicos e pode decidir racionalmente em todas as ocasiões, como dizem os economistas neoclássicos, mas é evidente que ele consegue captar variações grandes de preços relativos.
O fato é, por mais que me doa admitir isso, que estou com o governo quanto o diagnóstico da crise, até o momento. Nossa demanda interna foi afetada não pela súbita mudança de humor dos consumidores, mas pela mudança de comportamento dos fornecedores, principalmente de crédito. E o medo destes está contaminado aqueles, receosos por seus empregos.
O brasileiro continua sendo um indivíduo as voltascom o subconsumo, na média, pronto para sustentar a demanda interna. É só deixar que ele faça a parte dele.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Voltando à economia

Muitos dos desenvolvimentistas estão animados nos últimos três meses. Mais felizes do pinto no lixo. O dólar subiu, Keynes está na moda novamente. Em resumo, tudo que eles sempre esperaram parece realidade.
Pena, para eles, que há grande possibilidade deste momento desmanchar no ar, como sói dos sonhos fazerem.
Se não houver uma política deliberada de depreciação cambial, não há como o dólar permanecer neste patamar. Regredimos três anos na valorização da mão-de-obra brasileira, mas esse momento é transitório. O Brasil era uma nação estruturalmente exportadora quando o dólar valia 1,6 reais e continua sendo com esse a 2,5.
As últimas informações sobre o fluxo cambial demonstram que a fase de desconfiança com relação as mercados brasileiros de capitais e de ações está se desvanecendo. Aqueles que ganharam com a boa e velha arbitragem devem estar se perguntando: aquela economia funcionou bem com níveis cambiais mais baixos durante um tempão, por que eu não ganharia apostando na valorização de sua moeda?
E, quanto ao crescimento da economia, não me alinho aos pessimistas que prevêem tempos difíceis. A freada ocorrida no último semestre do ano foi totalmente artificial. As linhas de crédito foram retiradas por razões externas à economia nacional, mas o empoçamento de liquidez não poderá ser mantido por muito tempo, como já dizia Ricardo, e o crédito ao consumidor deverá seguir crescendo.
Já estávamos na contra-mão do mundo em matéria de crescimento econômico antes do acirramento da crise com a quebra do Lehman Brothers. Nada de muito relevante ocorreu aqui para que a tendência reverta-se.
2009 pode não ser tão bom quanto 2008, mas não será o inferno que estão dizendo por aí.

terça-feira, 18 de março de 2008

Por quê?

Duas postagens abaixo disse que o Brasil está pouco exposto à contaminação do pesadelo econômico que a queda dos títulos "sub-prime" desencadeou.
Vou aqui disser porque acho que estamos seguros, caso nenhuma besteira seja feita.
O Brasil é pouco aberto ao comércio externo, a corrente de comércio exterior é de pouco mais de 15% do PIB, resultando que nosso crescimento econômico é decidido pelo que acontece aqui dentro. Fatores que no passado resultaram no chamado estrangulamento externo (crises da dívida, cambial, etc) não terão como atuar devido a uma montanha de divisas que permitir-nos-ia pagar dois anos de importações mesmo que não vendêssemos um único centavo, e isso em um momento em que temos algumas das empresas mais competitivas do mundo em setores-chave e câmbio flutuante.
Dependemos, portanto, de fatores intrínsecos para regular o quanto avançaremos. Dado o subconsumo histórico do povo brasileiro, nenhum motivo que não envolva restrições compulsórias fará com que as famílias pare de comprar. Daí as vendas no varejo estarem se acelerando; o número de empregos e os salários, expandindo-se, tudo ao contrário do que está ocorrendo nos Estados Unidos. Deste modo, no que depender do mercado interno, estamos bem.
Mas os alarmistas podem sempre dizer que, apesar de relativamente pequeno, há sempre o comércio exterior para ser contagiado. Há aí, porém, um atenuante muito importante. O país é um grande exportador de alimentos e, por mais que a situação fique ruim nos nossos parceiros comerciais, deixar de comer eles não vão. Principalmente a China, que, como toda a ditadura, precisa da ilusão de bem-estar para manter uma certa paz social, não deixará de comprar os alimentos que podemos oferecer, além de outras commodities.
Basta que nenhuma daquelas inovações que nossos governos são pródigos em apresentar ocorra, e atravessaremos bem por essa turbulência que se avizinha. Só fico com uma pulga atrás da orelha devido ao nosso governo, que, como sabem, não me passa nenhuma confiança.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Como previsto

O câmbio virou para a imprensa o Judas da vez, eliminando o Cristo que é a indústria nacional e condenando-nos ao inferno do desemprego e da baixa renda.
Não acredito em nada disso.
Façamos um exercício de imaginação: digamos que acordemos amanhã com o real valendo uma libra esterlina e que a massa salarial - contada em real - esteja imutável.
Isso equivaleria a um incremento de renda de mais de 4 vezes e faria com que alguns setores intensivos em mão-de-obra sofressem muito devido à concorrência dos produtos importados, mas será que haveria uma influência negativa no emprego? Obviamente não.
A tendência é que o setor de serviços abriria vagas suficientes para fazer com que a balança fosse altamente favorável.
Peguemos o setor automobilístico, que é apontado como daqueles onde o câmbio valorizado trás o apocalipse. Se assumirmos que para cada emprego associado à produção (montagem, produção de peças, limpeza e administração das fábricas, etc) houver um associado aos serviços (venda de automóveis, corretagem de seguros, mecânica, funilaria, etc), o que não é verdade já que o setor de serviços envolve mais pessoal, e verificarmos o resultado no emprego geral de câmbio e renda iguais ao da hipótese, veremos que o resultado é amplamente positivo.
A renda aumentada por quatro abriria a um enorme contingente a possibilidade de ter veículo próprio (automóveis são totalmente intercambiáveis e, portanto, o preço do mesmo não subiria conforme a renda e sim conforme os preços internacionais mais impostos) assim como diminuiria o ônus de mantê-lo (o custo das peças de reposição e dos combustíveis seguem a mesma lógica e o dos seguros é feito em relação ao preço de venda do veículo). Com tudo isso, o aumento de vendas destes não se daria pela simples multiplicação por quatro e sim por uma função maior, tendo em vista as necessidades represadas de nossa população.
Mesmo que toda a indústria automobilística brasileira fosse varrida do mapa – e razões logística impediriam isso -, o número de empregos gerados pelo setor de serviços ao automóvel seria muito grande e haveria um aumento da massa salarial, com reflexos positivos para a nação.
O mesmo aconteceria com uma enorme gama de setores onde possíveis perdas no número de empregos industriais seriam sobrepujadas pelo incremento no número de empregos advindos dos novos serviços consumidos pelo aumento de renda relativo do brasileiro em comparação às nações circundantes.
Seriam particularmente visíveis o aumento do consumo nas rubricas turismo e lazer, dois setores quase indigentes no Brasil do momento, mas que estão experimentando forte aumento com a recuperação do valor da nossa moeda.
É claro que o real em paridade com a libra esterlina seria um caso extremo e teríamos que ter muitas mudanças estruturais e econômicas para mantê-lo assim, mas este exemplo é só para mostrar que uma moeda forte não é um empecilho para o desenvolvimento econômico de uma economia moderna de serviços e geradora de empregos, é antes de tudo um pré-requisito. A Inglaterra é uma prova viva disso.
Querer o Brasil um eterno exportador que é um atraso desmedido. A única função econômica de se exportar é poder importar o que outros têm de bom, assim como a única função econômica de trabalhar é consumir o que se quer.
O resto é fetiche moralista.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

É inacreditável

Mas parece que a mídia está acordando para a verdade dos fatos.
No artigo de domingo do Estadão; Celso Ming finalmente explicitou o que é óbvio, porém negado; o caso não é de fortaleza do real e sim de fraqueza do dólar.
Portanto não adianta o choro dos exportadores pela equiparação da taxa de câmbio a valores de 3 ou 4 anos atrás. Caso isso fosse tentado, o governo apenas jogaria muito, muito mesmo, dinheiro fora para valorizar o dólar e veria as exportações explodirem e a inflação também, resultando em recessão interna.
Isso é totalmente ilógico e, digo mais, é mesmo impossível em uma democracia de fato em que não se está vivendo uma crise.
Já disse isso em artigos anteriores, mas na custa repetir: a única maneira de se conseguir uma reversão cambial em favor dos exportadores seria pela mudança dos padrões de consumo da população que a levasse a comprar produtos cada vez mais sofisticados que a indústria interna não tivesse capacidade de suprir. E isso só teria uma chance mínima de ocorrer caso, à população, a renda aumentasse absurdamente. Em outras palavras, pode esquecer.
A tendência é justamente contrária. Com o país sendo um exportador de combustíveis cada vez mais atuante e com o alinhamento dos preços de imóveis aos padrões internacionais, mais e mais dólares entrarão para impulsionar a nossa balança de pagamentos para as alturas e o valor da moeda norte-americana em trocas dos nossos caraminguás para o rodapé.

terça-feira, 25 de abril de 2006

Ou sou burro ou estou errado

Dizia o famoso dramaturgo que toda a unanimidade é burra. Digo eu mesmo que a administração petista é burra.
Estou em uma encruzilhada, talvez até um entroncamento, no qual só perco. Não sei se sou burro, estou errado ou os dois.
O tema é o câmbio, sempre ele.
Mais e mais, os analistas econômicos estão nos alertando que a taxa está distorcida, são unânimes nisto.
Eu e administração petista achamos que não; se é de livre flutuação, que flutue livremente.
Se mudar de lado, passarei ao da unanimidade, burrice. Se continuar do lado, permanecerei do lado da incompetência, erro, e, persistindo, burrice.
Eu tenho dificuldade de assumir-me burro, como todo o restante da humanidade, e passarei a ficar em cima do muro, do jeito que cabe a um bom tucano que me acusam de ser.
Só pedirei que alguém me explique ou, melhor, me convença da sobrevalorização do Real.
É claro que não aceitarei que uma câmara setorial qualquer, amparada na, digamos, cadeia de produção da bolinha de gude, diga que deveríamos ter um câmbio por volta dos sete reais por dólar para que possamos ter uma indústria competitiva. Para cada caso específico altista haverá outro que suporta mais desvalorização.
O câmbio é sistêmico e deve-se levar em conta a balança de pagamentos quando se está as voltas com o livre mercado.
Note-se que há tempos a balança de pagamentos está azulada, apesar de intervenções maciças do governo tentando mandar dólares para o exterior através da antecipação da quitação de dúvidas, mas isso é só um detalhe para sábios de plantão.
Apontar a perda de competitividade de setores inteiros neófitos em exportação como uma prova inquestionável é o que se pode chamar de auto-engano. Este setores não estão deixando de ser competitivos, apenas estão voltando ao normal depois do “doping” causado pelo repique cambial da crise de (des)confiança no petismo-lulismo.
Competitividade sustentável ganha-se resolvendo os problemas internos como infra-estrutura deficiente, leis anacrônicas e mão-de-obra desqualificada; a muleta do câmbio é apenas exploração disfarçada do trabalhador.
Bem; quem viver verá se sou burro, estou errado ou os dois. Como tive a chance a chance de viver no Brasil desde o advento do plano Real, vi os que advogavam o câmbio livre se converterem nos pregadores da intervenção.
Já que acham que o câmbio está distorcido que alguém intervenha nele, e rápido. Esta é a visão dos livre-mercadistas à brasileira.

sexta-feira, 17 de março de 2006

E vai ficar pior

Para quem acha que o câmbio está ruim agora, pode ter certeza que vai ficar muito pior.
Se há uma verdade na questão do câmbio livre é o de que ele procura se equilibrar entre a demanda e a oferta de dólares e outras moedas.
O porém é que isso não se dá de maneira automática, é um processo que sofre uma certa defasagem, em muito devido ao passado de intervencionismo.
No caso brasileiro há uma série de “esqueletos no armário” do câmbio real. Quem pensa que uma chegada a juros civilizados conterá a taxa nos atuais ou um pouco maiores tem muito que se decepcionar ainda.
Em primeiro lugar o país é um exportador líquido e muito pouco pode ser feito a respeito disto; a não ser que se mude o padrão de consumo do nosso povo, fazendo com que ele passe e comprar produtos e serviços mais refinados que nossas empresas não podem suprir, por falta de escala ou de tecnologia. Como para isso seria necessário mudar radicalmente a estrutura de renda do país em período muito curto, não passa de utopia.
Inclusive o país deve até aumentar seus superávits comerciais com as exportações de biocombustíveis e com os excedentes de petróleo.
Outro e mais importante ponto é que os ativos são muito baratos no Brasil. Imóveis, ações, empresas, licenças e concessões têm preços irrisórios se comparados a seus equivalentes mundo afora. Estes não eram sequer imaginados como fonte de lucro quando nossa economia era fechada, mas agora que estamos nos integrando ao mundo passam a ser uma possibilidade.
Taxas de juros civilizadas poderiam fazer com que os aplicadores deixassem nossos títulos públicos, mas fariam com que estes ativos brilhassem muito mais. Os que atualmente reclamam da onda de investimentos estrangeiros vão sentir saudades quando o tsunami de procura por ativos chegar.
Portanto, se não houver um forte intervencionismo no câmbio, ele tende a ter uma perspectiva descendente por um período muito longo.
A hipótese de intervenção pode ser a opção mais atraente para a parcela ligada à indústria exportadora, só que é a opção errada.
O melhor e mais difícil é enfrentar os gargalos estruturais que retiram a competitividade de nossa economia. Uma gambiarra cambial apenas fará com que nosso desenvolvimento seja postergado.
De novo.

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Tecnologia: só ela salva; do câmbio e outras mazelas

Dia após dia, comentaristas econômicos, certamente apoiados pelas empresas exportadoras, dizem que o dólar capenga permite apenas aos produtos de baixo conteúdo tecnológico a competição internacional.
E são dois os exemplos que dão para isso:
1)a derrocada das indústrias têxteis e calçadistas, que estão perdendo mercados aqui e no exterior, demitindo e fechando fábricas e,
2)o grande percentual de commodities de nossa pauta de exportações.
Seria ridículo, se não fora trágico. Dar a as indústrias acima citadas como exemplo de empresas de alto conteúdo tecnológico é o mesmo que dizer o mais moderno em matéria de geração de energia é a lenha. E retirar o conteúdo tecnológico de nossas commodities é querer tapar o sol com peneiras.
A verdade é que quanto mais alto é o conteúdo tecnológico, menor é o impacto que um produto sofre da taxa de câmbio.
Alta-tecnologia implica em produtos livres de, ou menos afetados pela, concorrência - por qualidade superior, falta de similares ou menor custo produtivo – e por si só faz com que o valor local de uma moeda passe a ser um fator menos relevante.
O que anda salvando nossas exportações é o efeito da tecnologia, e não a falta dela. É o emprego da tecnologia em caminhões mais potentes e resistentes, que podem trafegar no mar de buracos. O é na reconstrução e reestruturação da malha ferroviária. Também no desenvolvimento de sementes mais produtivas e mais resistentes. Nas novas formas de cultivar o antes desprezado cerrado.
É claro que se quiser manter a competitividade a nação brasileira terá que se tornar ainda mais tecnológica e, principalmente, jogar no campo dos adversários do dito primeiro mundo. Teremos que começar a vender cultura, design, estilo de vida, etc... tudo que é extremamente caro mas não têm nada palpável para que o governante esfregue na cara dos adversários.
Este será o jogo mais difícil, mas o que se há de fazer, teremos de jogá-lo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

E que aumente a valorização

Está mais do que cristalizado, para os comentaristas econômicos, o fato de que o real está sobre-valorizado.
Não é apenas por enxergar um contra-senso entre isto e os superávits seguidos da balança comercial e os aumentos muito maiores das taxas de crescimento das exportações do que as das importações ou do PIB que discordo disto, apesar de que estes números têm grande peso nas minhas impressões.
Mas o que tem mais peso nelas é o fato de que as coisas aqui são muito mais baratas do que lá (tomando-se lá como os países ditos desenvolvidos). Com a honrosa exceção dos produtos cujos preços são influenciados pelo governo; transporte público, telecomunicações, ensino de qualidade, produtos eletrônicos (que têm alto índice de componentes importados) etc, etc ...
Como explicar que, com os mesmos euros ou dólares, eles comprem mais aqui do que em seus países de origem? Ao meu ver só pode significar que os preços aqui estão distorcidos por moeda corrente sub-valorizada.
Já sei o que estes críticos irão dizer, que os salários aviltantes que nós recebemos é a real causa da distorção. Pode até ser que eles influam fortemente, só que ainda creio que o real não está sobre-valorizado. E não vai ser a opinião dos exportadores de soja ou dos industriais da Fiesp que me fará mudar de idéia.
Se estes fossem para se levar a sério, a intervenção cambial por parte do governo deveria ter se iniciado quando este estava nas módicas taxas de 3,6 reais, que poderiam levar a superávits sustentados. Lembram? E alguns deles, mais pessimistas, diziam que 3,1 era o piso suportável que impediria a quebradeira.
Hoje estamos a 2 e pouco, muito pouco, e permanecemos exportadores.
Houve muita choradeira com relação ao câmbio e muito pouco com relação a melhora normativa da economia brasileira, que aumentaria a produtividade, e a competitividade entre as empresas.Posso até ser uma reedição dos entreguistas do passado, um démodé, mas prefiro o câmbio assim. Se entre o “super-valorizado” como está e o “equilibrado” 3,6 que concentra mais renda do que a política de juros do BC consegue ao menos imaginar, prefiro o trilho que estamos seguindo agora.

domingo, 14 de agosto de 2005

Faz todo o sentido

Moramos em um país esquizofrênico, não há dúvida, mas o grau parece estar se acentuando.
Sempre que dou uma olhada nos periódicos, seja em qual meio seja, me espanto com as discrepâncias entre a realidade e o discurso.
Não quero nem citar o nosso autista do planalto – é bom que ele fique com as barbas de molho - mas quero me ater a coisas mais simples, prosaicas; como a economia, por exemplo.
Mais precisamente o nosso súbito impulso exportador. Se tudo está errado, como dizem analistas e jornalistas especializados que resolvem opinar sobre o assunto, como podem mês após mês nossas exportações quebrarem recordes, assim como nosso saldo comercial.
Eu, como não sou nem analista nem especializado – e, portanto, não tenho um nome a zelar – posso dar meus pitacos.
Vamos por partes.
Primeiro, o câmbio. Será que ele está realmente tão desvalorizado assim? Pra quem se lembra dos 4 reais que um dólar comprava três anos atrás, estes 2,3 são realmente muito caros, só que não contam toda a história.
Dizem os especialistas que se levarmos em conta a inflação acumulada no período o dólar está mais valorizado do que em 1995, mais do que no século passado então.Mas pergunto aos especialistas, estamos levando em conta que grande parte desta já citada inflação ocorreu devido a valorização do já citado dólar em relação ao real?
Estamos, eu pergunto também, computando o fato de que faz três anos eram necessários 1,2 euros para comprar 1 dólar e hoje a relação se inverteu?
E pergunto ainda mais, seriam propaganda enganosa os dois estudos que foram lançados este ano e mostraram que Rio de Janeiro e São Paulo são das cidades grandes mais baratas para se morar no mundo? Só pode, já que nelas circula a super-ultra-hiper-valorizada moeda chamada real.
Quanto a infra-estrutura.
Há duas coisas a serem ditas sobre ela.
Que influencia o lucro do exportador não há dúvida. Só que também o faz com o importador. Os portos são os mesmos para ambas as partes, as estradas também, como qualquer outra forma de transporte dentro do nosso território.
Poderemos melhorá-los, e acredito que devemos, só que isto não significará necessariamente que nosso saldo comercial aumentará. Minha aposta é que aconteceria justamente o contrário. Nossa carga tributária passaria a ter um papel mais preponderante nos custos caso a infra-estrutura melhorasse. Quem vocês acham que sairia ganhando?
Ainda sobre a infra-estrutura, quero dizer que o dinheiro que é gasto devido a falta deste não é, digamos, “vaporizado”. Mas é isso que as análises fazem parecer, por exemplo, quando dizem que os produtores de soja norte-americanos ou argentinos são mais competitivos por terem um frete médio mais barato que os brasileiros. Primeiro porque este não é o único custo e segundo porque o dinheiro não desaparece, simplesmente.
Todo o dinheiro gasto a mais com transporte rodoviário em detrimento a tão sonhada matriz sobre trilhos ou sobre barcaças alimenta uma grande cadeia que vai dos caminhoneiros e passa pelos frentistas de posto de beira-de-estrada, passando por concessionárias, mecânicos, indústrias de auto-peças, etc. Muitas das engrenagens desta cadeia inclusive ganharam escala que as credenciaram a competir pelo mercado externo devida a grande escala destes negócios no Brasil.
Desta forma, a mudança da matriz de transporte poderá trazer grandes vantagens ao exportador - e ao importador – só que não significará também uma grande perda para toda esta cadeia.
Dizer que o país sairá ganhando é uma generalização que não me atrevo a fazer de sopetão.
É certo que os analistas devem tentar antecipar os acontecimentos, só que as análises parecem deslocadas d realidade. Em um país esquizofrênico faz todo o sentido.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Doença holandesa

Está sendo brandida uma nova ameaça por aqueles que querem um câmbio rígido e controlado: a doença holandesa.
Esta consiste da supervalorização da moeda local, devido a uma predominância avassaladora das exportações sobre as importações, em decorrência de super-oferta de recursos naturais; levaria a desindustrialização pelo encarecimento relativo dos produtos nacionais em relação aos possíveis produtos industrializados de outros países. Tem este nome porque foi verificada primeiramente naquele país, com o “boom” exportador provocado pela descoberta e exploração das reservas de gás natural do Mar do Norte.
Acredito que está ameaça é mais um daqueles pontos no qual se vê um paradoxo onde não existe nenhum.
Primeiramente, porque o Brasil, apesar de exportar uma grande gama de produtos primários, não está vivendo um “boom” na exploração destes recursos. Ele está exportando-os mais por escassez de mercado interno e pela fraqueza da moeda interna. Neste cenário, não estaria havendo uma supervalorização, mas apenas uma adequação da nossa moeda ao cenário externo.
Outro ponto que deve ser levado em conta é que nosso país é muito pouco aberto comercialmente. Apesar do crescimento acelerado do nosso comércio exterior, ele tem um peso relativo muito pequeno em nossa economia, se nos compararmos a economias de porte e grau de desenvolvimento semelhantes. Crescimento acelerado tende a trazer desequilíbrios momentâneos; não será a rigidez cambial que reequilibrará a balança cambial, mesmo porque nós precisamos de mais importações também, por mais que os industriais brasileiros digam o contrário.
E mais importante de tudo, a taxa de câmbio é apenas um dos fatores de competitividade de uma nação, e seguramente não é a mais importante. De nada adianta termos um câmbio ultra-competitivo se não acabarmos com os demais fatores limitantes que diminuem nossa competitividade. E o detalhe é que estes outros fatores são, ao contrário do cambial, oriundos de decisões internas e não da conjuntura internacional. São eles, entre outros, a qualidades de nossa educação, de nossa infra-estrutura, de nosso regime legal.
Enquanto se taxar a produção nacional com valores próximos de 50% e os produtos importados com algo em torno de 20%, será impossível fazer com que a industria nacional seja mais competitiva do que a estrangeira (e o erro obviamente não é na taxação do produto importado).
Se a única solução concebível é a demagógica desvalorização cambial, algo muito errado há com nossa economia com vistas as perspectivas para o futuro, mesmo porque desvalorização cambial rima com arrocho salarial, disfarçado, e faz dobradinha com concentração de renda.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

O valor do dólar americano

Em comentários, reportagens, entrevistas, sinais de fumaça ou onde mais possam expressar sua opinião; os exportadores estão dizendo que o dólar está muito desvalorizado frente ao Real, mas a realidade não está muito condizente com isso; pois por mais que o Banco Central intervenha, a moeda só cai, cai e cai aqui no Brasil.
Para fazermos uma pequena retrospectiva histórica, lembremos que o valor do Real foi arbitrado por convenção, quando da criação do plano, com um valor muito próximo ao da moeda americana e este não tinha por que ser discutido, uma vez que refletia apenas uma referência para a qual o resto da economia deveria convergir.
Como apontar o valor justo de uma moeda é uma arte que poucos no mundo estão aptos a fazer, se não ninguém, vamos avaliar alguns dos fatores que podem afetar as taxas de câmbio e tentar encontrar os argumentos pelos quais a moeda brasileira estaria hoje mais cara do que deveria.
O primeiro fator que deveria ser investigado seria a posição relativa frente a um “pacote de moedas”, ou seja, se o dólar está tão valorizado atualmente quanto esteve a algum tempo atrás. Em seguida deveríamos partir para os demais fatores.
Um fator que pode influenciar muito na taxa de câmbio entre duas moedas é a inflação relativa entre as duas (diferença entre as inflações dos dois países). A título de exemplo, caso esta tivesse sido de 200% entre Brasil e Estados Unidos e descontados os demais fatores, o dólar deveria valer hoje cerca de 3 reais.
Outro fator seria a movimentação de divisas. Neste ponto o Real dos últimos tempos goleia os americanos e seus déficits gêmeos, que substituíram as torres do WCT como símbolo da globalização naquele país.
Outro seria o aumento de eficiência econômica de um país em relação ao outro. Como todos sabemos a eficiência é o fator que permite gerar mais valor, ou produtividade, com a mesma quantidade de recursos.
Geralmente se anuncia que o índice de produtividade americano está aumentando cerca de 1% ao ano enquanto o do Brasil está em queda no momento. Este índice é expresso como sendo dólares por trabalhador, ou seja, o valor per capta que alguém consegue agregar com seu trabalho. Não acredito na qualidade destes índices, pois eles são expressos em dólares e não levam em conta diferenças relativas dos valores de produtos e serviços de cada economia.
Estes fatores são os que são apontados mais freqüentemente como influenciador do câmbio pelos textos que tratam do assunto. Para ser sincero não sei qual deveria ser o valor do real perante o dólar, porém desconfio que os exportadores estão batendo na tecla errada quando culpam este valor pela perda da competitividade da nossa economia exportadora.
Não acredito que há fortalecimento agora, mas que ocorreu enfraquecimento excessivo outrora.