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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Juros

Muito já falei dos juros, e acho que nada de novo posso acrescentar. Apenas sublinho um trecho encontrado na The Economist de 2 semanas atrás, sobre as empresas de mercados emergentes: "Profit margins of 10% are common, double the average in in the West". Ou seja, o lucro médio das empresas em mercados desenvolvidos é por volta de 5%, algo como a taxa de juros reais paga pelo governo em nossa economia.
Então, reforço a proposição feita há quase 4 anos: manicômio para os que investem em produção no Brasil.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Grandes empresas, péssimos negócios

O Hopi Hari é tudo que poderíamos querer de uma empresa. Está localizado em um mercado de mais de vinte milhões de pessoas, gera milhares de empregos, produz pouca poluição ambiental e trouxe novas tecnologias, já consagradas no exterior, para aplacar a carência de brasileiros por parques de diversões modernos.
Em dez anos de atividades, atraiu quinze milhões de visitantes, o que lhe garante uma margem operacional folgada, de cerca de 20%. Esses atributos deveriam fazer feliz qualquer proprietário, entretanto, como informa Vanessa Adachi, no Valor Econômico de hoje, os fundadores de parque - GP Investimentos e os fundos de pensão Previ, Funcef, Petros e Atlântico - estão se desfazendo do negócio, passados às mãos da consultoria Íntegra, sem receber um centavo em troca.
Essa aparente contradição acontece porque o Brasil é campeão mundial indiscutível de juros reais. Sendo operacionalmente compensador, o Hopi Hari foi sempre um sorvedouro de recursos no front financeiro, acumulando, da sua criação até setembro do ano passado, 654 milhões de reais em prejuízos.
Tal desastre empresarial é emblemático das condições nacionais para a manutenção e criação de negócios saudáveis. Qualquer empreendedor que queira aplicar capital próprio deve ter sua sanidade mental investigada, pois há poucos negócios capazes de remunerar melhor do que a Selic, e quem pedir empréstimo para abrir uma empresa deve ser internado na psiquiatria sumariamente.
Mudar esse quadro deveria ser a missão precípua de todos os governantes brasileiros. Os passados e, sobretudo, os atuais, no entanto, preferem se concentrar em aumentar os gastos, solapando a queda da dívida pública e, consequentemente, dos juros. Não há milagre que desenvolva um país assim. Mesmo porque já tivemos o nosso, e os santos e sua obra mostraram-se do pau oco.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Juros

Quando comentam a ligação dos juros altos com a falta de investimentos não-financeiros, os analistas geralmente ligam esta a falta de linhas de crédito barato.
Não acho que resida aí o problema, mesmo porque elas existem.
O fator principal para a falta de investimento não-financeiro ao meu ver é que os investimentos financeiros, puxados pelo piso da taxa Selic, rendem mais e de maneira mais segura do que os demais.
Tomemos como exemplo um sujeito com 100 mil para aplicar e que pode optar entre emprestar para o governo a juros e comprar um apartamento. Supondo que o indivíduo esteja precisando de uma residência.
Supondo que escolha a compra, deverá separar no mínimo 10% para os custos de corretagem e transferência da escritura; ou seja, só poderá comprar um apartamento com valor máximo de 90 mil.
Depois de ficar dono, ganharia uma desvalorização de, digamos, 5% ao ano pela depreciação do capital. E se fosse previdente, faria um seguro contra sinistros pagando algo como 0,5% do valor do seu lar.
Ao final de um ano teria um apartamento no valor de 85,500 reais e teria gastado 450 em seguro.
Se optasse pelo empréstimo ao governo teria ao final de um ano 113250 reais, que descontada a depreciação da inflação, valeriam algo como 109 mil.
Contando-se que o sujeito tivesse alugado um imóvel semelhante ao que compraria, pagando a média de 0,5% de aluguel (450 reais), arcaria com um total de 9,9 mil, ficando no final com pouca coisa menos do que o poder de compra inicial.
Eu sei que um economista ou contador pode afirmar que estas contas que fiz são toscas, imprecisas e cobrem uma situação muito específica. É verdade, mas o quadro geral não é muito diferente.
Qualquer um que invista em algo não-financeiro no Brasil ou é dotado de uma fé imensa no negócio que está fazendo, ou está tentando se manter no negócio para evitar perdas maiores ou é insano.
Como insanos são poucos e está difícil ter fé em algo no Brasil, o investimento produtivo é praticamente todo em reposição.
Não é assim que caminha a humanidade, mas aqui – onde se plantando tudo dá – é assim que fazemos.
E viva o povo brasileiro.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Acabemos com o medo de fantasmas

Não tem o menor cabimento este medo generalizado dos produtos importados, já que o Brasil tem condições absolutamente tranqüilas para enfrentá-los.
Em primeiro lugar há dificuldades logísticas para a importação. Os grandes exportadores de produtos manufaturados só têm acesso aos nossos mercados através de portos e aeroportos, dois gargalos mais do que consagrados.
Depois porque nossas indústrias são bem equipadas, dispõe de fartura das principais matérias-primas e estão pouco endividadas pelos padrões internacionais; ou seja, estão aptas a competir com as indústrias do leste europeu e do sudoeste asiático, sendo inclusive uma nação com características intermediárias às que compõem as duas grandes regiões que ameaçariam nosso país no que compete às manufaturas.
No quesito energia, apesar da crise que se está desenhando no país pela absoluta falta de investimentos (causada pela visão intervencionista do governo), o Brasil ainda se encontra em melhor posição do que qualquer um de seus oponentes. As condições geográficas permitem geração por diversas fontes e uma matriz limpa, o que poderá ser brevemente um fator de aumento de competitividade industrial.
Por último, e não menos importante, temos uma população jovem e com escolarização crescente e na qual estão ausentes grandes conflitos étnicos, como os que travam ou dividem países das regiões supracitadas.
O calcanhar de Aquiles de nosso país é o ambiente legal e governamental desfavorável aos negócios. Isso resulta em uma política de juros (que eu espero esteja com os dias contados) que torna o investimento produtivo médio menos lucrativo do que as aplicações financeiras e, o que é o absurdo maior, mais inseguro.
Como se vê, no que tange às condições estruturais, estamos bem preparados para concorrer com qualquer um que seja. Basta que nossos dirigentes acordem para ajustes que precisam ser feitos e passaremos de caça à caçador nos mercados globais.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Quem não sabe, não sabe.

Como vimos os juros caíram mais um pouquinho; mas nem sei a razão.
Se nesta mesma semana o presidente do banco central afirmou na Austrália que a política de juros do país estava correta e que o aumento do consumo mostrava isso.
Então há algo de esquizofrênico na nossa direção econômica; está correta, porém mudamos.
A verdade é que não está correta, e por isso mudamos, mas em uma velocidade tão baixa, que nem percebemos.
Os juros não estão altos porque impedem o consumo, o consumo aqui é tão baixo e tão represado que a população aproveita todas as formas de satisfazer suas necessidades, seja através dos trocados recebidos pela assistência oficial seja pagando juros abusivos dos crediários pessoais que tantos estão prosperando nestes dias.
Eles estão altos porque impedem o investimento produtivo.
Qualquer pessoa que entenda um pouco de matemática não pedirá dinheiro aos juros brasileiros para investir em qualquer coisa produtiva que não renda mais do que os 10% livre de risco que o governo paga anualmente. Como são poucas as atividades que oferecem esta remuneração, o investimento produtivo fica travado.
E o pior de tudo é que isso provocará inflação futura certamente, se não pela escassez de produtos nacionais, pelo excesso de produtos importados, que influenciarão negativamente no câmbio.
Enquanto isso o governo faz pose de competente, enquanto o mundo desaba em volta dele.
Depois vai dizer que não sabia.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Por uma reestruturação da dívida

Muito já foi escrito neste blog sobre Selic e outras facetas dos juros, mas hoje será diferente. Irei radicalizar.
O radicalismo dos ignorantes, já que não sou economista, e dos irresponsáveis, não tenho um nome a zelar ou emprego a manter.
Portanto a partir deste momento: a baixo com a dívida.
Não que eu defenda que o Brasil deixe de pagar; só defendo um “q” de voluntarismo na condução da política de juros, ao molde do defendido por Heloisa Helena (meu deus, veja onde estou me metendo).
Não há lógica alguma na atual política, e procuro me pautar sempre pela lógica, então ela deve mudar já, para o bem da nação.
Veja o porque da ilógica. Tomemos o PIB como base 100.
A dívida pública é de cerca de 50% do PIB e o pagamento total de juros é de 6,8% e o superávit primário esperado é de 4,25%, o que faz com eu o déficit fiscal projetado é de 1,55% do PIB.
Do modo que está a dívida não será paga nunca e, mais cedo ou mais tarde, a reestruturação virá. Que seja mais cedo, agora, enquanto não é necessário um calote.
Com base nos números apresentados, percebe-se que pagamos uma taxa de juros sobre o total da dívida de 13,60% que, desconta a inflação, implica em juros reais de mais de 9%. Com um mundo aplicando taxas que são menores que 3%, vê-se que há muito de onde se retirar.
Como o déficit equivale a 2,9% da dívida total, observa-se que se poderia eliminar o déficit sem que ocorresse nem ao menos a equiparação da taxa de juros ao da média mundial.
Mas a diminuição da taxa de juros em toda a dívida em uma canetada seria uma quebra de contratos, não seria?
Sim, seria, a menos que ela ocorresse de forma desigual. Se deixaria os contratos pré-fixados inalterados e se concentraria a redução da taxa de juros nos contratos pós-fixados atrelados à Selic.
Como estes representam cerca de 45% do total da dívida, bastaria que se reduzisse a taxa em cerca de 6 pontos percentuais para que o déficit evaporasse e a dívida estabilizasse. E a taxa de juros reais ainda estaria acima da média mundial.
Todos os contratos seriam cumpridos e não penhoraríamos o nosso futuro.
Pensando bem isso não parece assim tão radical, então por que será que ninguém faz?

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Dois mais dois

Você tem um troquinho, algo assim como 270 bilhões de dólares, para investir e fica em dúvida com o que fazer.
Aí pega uma parcela de 150 bilhões e aplica nos títulos do governo e recebe no final do ano, praticamente sem riscos e sem nenhum trabalho, a módica quantia de 30 bilhões de dólares para fazer o que bem entender e sem prestar contas a ninguém. E se tiver a fim de sair da mamata, é só falar e pegar seus 150 de volta.
O resto você aplica na atividade produtiva, torce para fabricar algo que as pessoas estejam precisando ou querendo, contrata pessoas e constrói fábricas. Se der sorte, e tiver escolhido muito bem onde aplicou, pega no final do período uns 5 bilhões. E tem um monte de gente pendurada na sua empresa, com os contratos trabalhistas e outros quetais.
E tem mais; se quiser pegar os seus 120 bilhões de volta não pode, já que estes se transformaram no capital social de uma empresa. Só recupera se vendê-la.
E tem gente que pergunta porquê os empresários não investem na produção e o Brasil não cresce. E tem gente que pergunta porquê dois e dois são quatro.
E mais ainda; tem gente que não entende as razões que levam nosso país a patinar no crescimento nominal desde que a inflação foi debelada. Será que é a falta da mágica contábil que ocorria antes? E os juros reais mais altos do mundo? E a maior carga tributária da categoria? E a legislação trabalhista mais anti-empregador do mundo?
Não, não pode ser nada disso. Deve ser falta de vontade política.
Só pode ser isso.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Há males que vem para o bem

Não sou um entusiasta do endividamento a que boa parte da população brasileira está se submetendo, mas algo de bom pode vir daí.
E não digo que é o consumo que fortalece o comércio e sim o aumento do número de endividados e o conseqüente acréscimo de votantes nesta situação.
Isto pode fazer com que o maior problema de curto prazo do país atualmente venha a ser combatido com firmeza.
Este problema é a taxa de juros com que convivemos.
Não há nenhuma razão prática para que um país superavitário (primariamente) pague as maiores taxas de juros reais do mundo.
A desculpa esfarrapada que os defensores desta política pública é a de que é necessário conter o ímpeto gastador dos brasileiros - que só existe na cabeça de alguns economistas teóricos. Os investimentos estão muito baixos aqui e o consumo das famílias de um modo geral se resume ao essencial, para o que o preço do dinheiro acaba sendo pouco importante nas decisões de consumo.
Mesmo que houvesse este ímpeto; desconfio que a estratégia não funcionaria, tanto as pessoas físicas quanto as jurídicas são muito pouco endividadas no país.
Mas mesmo não cumprindo a sua função teórica, a taxa de juros ameaça a economia alimentando a inflação futura e deteriorando as contas públicas.
A inflação é alimentada pela falta de investimentos, o que faz com que a oferta futura de bens e serviços não acompanhe a demanda e criando pressão sobre os preços.
As contas públicas são atingidas pela diferença entre o dinheiro economizado primariamente e os juros pagos pela amortização da dívida, invariavelmente negativa.
Só que estas conseqüências não despertam a ira das massas que serão prejudicadas no futuro – que nem se dão conta do problema – e como os beneficiários do presente são muito poderosos (vide o lucro dos bancos e dos investidores financeiros) ninguém ataca o problema de frente.
Cada endividado a mais é um defensor em potencial da queda da taxa Selic, que funciona como uma espécie de piso para os demais, e eles estão entrando na ciranda financeira aos milhares; pelas portas do crédito consignado, dos cartões de crédito e das financeiras.
Se devemos atacar um problema de cada vez, este é um que merece estar entre os primeiros a ser enfrentado. Só espero que poucos percam seus bens no processo.
O país já está perdendo, e não é de hoje.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Voltando aos juros

É mais do que certo que o país não pode manter estas taxas de juros indeterminadamente. Se pagamos pelos empréstimos juros mais altos do que o crescimento do PIB, é óbvio que em algum momento nossa capacidade de saldar estes empréstimos será ultrapassada. E quanto mais alta for esta diferença, mais rápida será alcançado este limite de solvência. Portanto, estamos jogando fora a capacidade de endividamento e estamos conseguindo com isto apenas mais dívidas.
Há apenas duas possibilidades em que torna moral e economicamente possível aceitar o endividamento de um poder público. Quando estes empréstimos possibilitam que um serviço essencial seja exercido ou quando eles fazem com que a infra-estrutura fornecida pelo estado possibilite um crescimento econômico maior do que as taxas de juros, tornando a sociedade como um todo mais rica, e - por tabela - aumentando a capacidade de estes empréstimos serem saldados.
Estas duas possibilidades lógicas não estão sendo cumpridas, então as taxas de juros que nosso estado está pagando, voluntariamente, estão empobrecendo toda a sociedade, em benefício de uns poucos que possuem capacidade para aplicar em títulos públicos, tanto aplicadores estrangeiros quanto brasileiros.
Esta política de juros altos é até o momento subsidiada pelo aumento de tributação da sociedade, e será assim até que a sociedade impeça que esta expropriação continue.
Uma expropriação que começa hoje através de impostos e continuará no futuro pela divida crescente ou pela moratória que certamente virá pela incapacidade de pagamento caso este processo persista.
Isto não é uma questão de pensamento de esquerda, que certamente não tenho, mas de pura lógica.
Tentar assassinar a lógica com base em falsas premissas de combate a inflação é um crime de responsabilidade, que o atual governo está cometendo com todo o “fervor revolucionário”.

Gigante desnaturado

Os dias vão passando e continuamos a ter a maior taxa de juros reais do mundo.
Por quê?
Todos os defensores afirmam que é devido ao combate a inflação, mas será verdade?
Juros altos combatem a inflação com características brasileiras? Tenho minhas dúvidas.
Juros são eficazes em situações em que há uma grande demanda reprimida e facilidades de crédito para que as pessoas possam atender esta demanda, o que poderia fazer com que a oferta ficasse desequilibrada.
No Brasil certamente existe uma grande demanda reprimida, sem dúvida, mas o crédito é tão restrito que chega a ser ridículo que tenhamos que tentar dificultá-lo ainda mais.
Outro detalhe é que o crédito é dificultado indistintamente. Mesmo o aumento de produção, que certamente faria a oferta maior, combatendo possíveis surtos inflacionários, tem taxas altamente desencorajadoras.
Ainda mais se calculamos as taxas de retorno das empresas, na média menor do que 10% ao ano, com as taxas de retorno dos investimentos em títulos públicos, atualmente maiores do que 14% no mesmo período. Que capitalista quereria arriscar seu capital e ainda trabalhar se pode emprestar seu dinheiro para o governo, viver de juros e com riscos muito menores; concordo com vocês, só um capitalista louco.
Desta maneira, ao invés de diminuirmos as condições para que tenhamos inflação baixa, estamos criando uma bomba que poderá ter um efeito inflacionário no futuro, quando esta demanda for liberada.
O pior de tudo é que estamos utilizando este instrumento contraditório como se nossa economia fosse totalmente submetida às compras no crédito, quando estas estão presentes apenas em uma pequena parcela da economia formal.
Como esta economia formal é responsável por perto da metade da economia real, estamos utilizando o remédio com doses exageradas em uma parcela para tentar conter os preços de todo o sistema.
E todas as medidas que poderiam fazer com que a realidade se aproxime da oficialidade são deixadas para lá, pois é mais fácil descontentar a uma grande e amorfa parcela de brasileiros que tentar mudar as regras atuais do jogo, que têm vencedores ativos e que se aproveitam do gigantismo do Estado em relação à nossa economia.
Não precisamos de choques de gestão, de capitalismo, de eletricidade; precisamos apenas acordar para o óbvio, que os agentes públicos devem pensar no público e restringir-se isso.
Esta já seria a grande revolução, e problemas como este do gigantismo do Estado e de sua dívida seriam coisas do passado.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

A política de juros e a realidade

Nos sonhos dos diretores do Banco Central, os juros altos da taxa Selic são capazes de arrefecer o furor consumista dos brasileiros, ávidos por produtos de consumo e altamente endividamos, desta bolha inflacionária que os varejistas estão impondo aos mercados.
Pena que isso ocorra apenas no sonho dos diretores do BC.
Isto não ocorre por dois motivos muito simples, não há no momento inflação de demanda e o consumidor médio brasileiro não liga a mínima para a taxa Selic, na verdade nem ao menos sabe o que é isso.
Mesmo porque saber se a taxa Selic é de 10 ou 20% ao ano não parece de fato muito importante quando se paga taxas de até 6% ao mês na loja de eletrodomésticos.
Pois bem, o aumento da taxa de juros para baixar a inflação funciona apenas se isto conseguir diminuir a base monetária, ou seja, a quantidade de dinheiro em circulação na economia. Com menos recursos os consumidores deixariam de fazer compras supérfluas e os vendedores teriam que baixar os preços, ao menos deixar de aumentá-los, para tentar atraí-los.
É necessário também que estejamos em regime de mercado perfeito, no qual a demanda é em sua totalidade coberta pela oferta e ocorra concorrência real entre os ofertantes.
Tudo muito bonito não fosse o fato que não há sobre-oferta monetária no país e sim inflação de custos, na qual os fatores que determinam os preços do produto final (trabalho, lucro do investidor, matérias-primas, etc) sofrem reajuste, puxados pela demanda internacional.
Também não temos consumidores endividados com seu passivo atrelado à variação da Selic e, portanto, suscetíveis ao aperto financeiro do seu aumento e conseqüente diminuição de consumo.
Pior do que isto, aparentemente, a taxa de juros nem é um fator importante na decisão de compra de consumidores brasileiros. Eles parecem ser importar mais com o valor da prestação do que com os custo final do bem.
Agravando ainda mais o quadro temos o fato de que as compras atuais, reprimidas por anos de arrocho no poder de compra da população, é de produtos de alta necessidade ou de substituição itens (como a compra de uma geladeira par repor uma que deixou de funcionar).
Desta forma temos um quadro no qual a taxa Selic se torna mais uma forma de estimular aqueles que já são rentistas a manter ou aumentar suas aplicações do que de controle inflacionário, e a persistência do Brasil como país que paga os mais altos juros reais o mundo não se justificam, tanto pela ótica da credibilidade da nação quanto pela de controle fiscal.
De que adianta manter grandes superávits primários se eles são todos corroídos pelo pagamento de juros injustificáveis, que resultam em aumento nominal da dívida pública?
Esta é uma questão que os técnicos do BC deverão responder na próxima semana.