O assassinato do azarado brasileiro em Londres (azarado por não ter “cara” de inglês) mostra que as forças ocidentais na tal guerra das civilizações acabam de perder uma batalha a mais.
Aos ingleses não é permitido fazer o que os norte-americanos pretendem, se isolar do mundo para manter a pureza do “American Way of Life”. Os terroristas que provocaram a carnificina em Londres não eram apenas visitantes indesejados; eram legalmente ingleses, apesar de não terem a pele e os olhos claros, com todas as vantagens e desvantagens do fato.
Já que não podem manter os terroristas fora, vão matá-los, e não apenas aos de fato. Qualquer que pareça um será um alvo humano.
A civilizada terra da rainha acaba de imputar novamente a pena de morte, com o agravante de que o julgamento será feito por pessoas sob o calor das emoções, e já por isso, com os dedos nervosos.
Existe alguma explicação lógica para que alguém seja alvejado sete vezes na cabeça? Creio que não, ainda mais quando se pensa que deveriam ter sido oito os projéteis (o policial errou um deles atingindo o ombro de Jean de Menezes). Quando algo semelhante acontece aqui, o veredicto está dado: foi acerto de contas, provavelmente por divida de drogas ou casos extraconjugais. Só ocorrem quando o agressor tem extrema raiva do agredido, é movido pela paixão avassaladora ou pretende dar um recado direto para possíveis transgressores. Ou uma combinação de todas as alternativas.
O mais assustador de tudo isso, é que os policiais que empreenderam a ação foram até elogiados pela eficiência, antes de ser mostrada ao mundo a lambança. E mesmo depois dela os seus patrões, políticos de todas as esferas públicas dizem que a política de atirar na cabeça para matar ser mantida sem alterações.
Estão formalmente igualados os dois lados, inocentes mortos são apenas contingências da vida e não escandalizam os dirigentes de ambos os lados da cruzada. Só faltou que Blair e companhia dissessem que não há inocentes entre os não anglo-saxões.
Então, o que você acha?
Jean Charles de Menezes recebeu oito disparos a queima-roupa para:
a) servir de exemplo a outros possíveis terroristas;
b) expiar a vergonha de toda a corporação policial londrina por não ter conseguido deter as mais que anunciadas séries de atentados;
c) descontar a raiva da mesma corporação perante a impotência acima citada;
d) mostrar que ela está trabalhando (mesmo que mal) ou,
e) todas as anteriores.
Apenas alguns pensamentos sobre as coisas que acho que sei ou sobre as quais não tenho a mínima idéia
terça-feira, 26 de julho de 2005
domingo, 24 de julho de 2005
Assustador
É o nível de “ingenuidade” que nossos empresários e homens públicos demonstram nesta crise política que estamos vivendo.
Após os empréstimos no fio do bigode, o dinheiro caindo do céu como o maná divino - e ninguém estranhando -, agora são os pacotes insuspeitos.
Vocês devem se lembrar do nome Pizzolato. Se não vou relembrá-los, ele é o recém aposentado ex-diretor de marketing do Banco do Brasil e membro do conselho gestor da Previ que é suspeito de ter recebido um pouco mais de 300 mil reais dos milhões sacados em dinheiro das contas das empresas sobre controle de Marcos Valério, vulgo Carequinha.
Não é que ele não é culpado de nada. Em entrevista divulgada hoje em um grande jornal paulistano ele se explica “plenamente”.
Tudo não passou de um grande mal-entendido. Ele não tomou posse do dinheiro sacado pelo moto-boy terceirizado que lhe entregou um pacote de verdinhas (das verde-água, aquelas quase azuis e que têm grandes peixes em um dos seus lados, bem entendido) e amarelinhas. Alias, ele nem sabia que havia dinheiro no pacote.
Só pediu que o moto-boy fosse pegar o pacote e o entregasse pois receberá um telefonema dizendo que o tal pacote de documentos deveria ser retirado impreterivelmente naquele dia e entregue a uma outra pessoa. Ele não poderia deixar que as coisas fossem resolvidas pelo destinatário final do pacote, vocês sabem como são as coisas por aqui, sempre urgentes. Nosso país não tolera atrasos e perdas de prazos.
Agora sim, tudo explicado, até a casa comprada um mês depois. Eram dólares que tinha guardado.
Mas péra aí, dólares guardados? Uso de mensageiros pagos com dinheiro público (ou de autarquias sobre controle público) para serviços particulares? Essas não são ações, digamos, à margem da lei?
Não importa, o mais importante é que estas pessoas precisam reavaliar seus atos. Já pensou se o pacote fosse uma bomba? Poderia ter estragado a vida de muita gente.
Ficar transportando pacotinhos sobre os quais não se sabe o conteúdo é uma temeridade, nestes tempos de terrorismo.
Após os empréstimos no fio do bigode, o dinheiro caindo do céu como o maná divino - e ninguém estranhando -, agora são os pacotes insuspeitos.
Vocês devem se lembrar do nome Pizzolato. Se não vou relembrá-los, ele é o recém aposentado ex-diretor de marketing do Banco do Brasil e membro do conselho gestor da Previ que é suspeito de ter recebido um pouco mais de 300 mil reais dos milhões sacados em dinheiro das contas das empresas sobre controle de Marcos Valério, vulgo Carequinha.
Não é que ele não é culpado de nada. Em entrevista divulgada hoje em um grande jornal paulistano ele se explica “plenamente”.
Tudo não passou de um grande mal-entendido. Ele não tomou posse do dinheiro sacado pelo moto-boy terceirizado que lhe entregou um pacote de verdinhas (das verde-água, aquelas quase azuis e que têm grandes peixes em um dos seus lados, bem entendido) e amarelinhas. Alias, ele nem sabia que havia dinheiro no pacote.
Só pediu que o moto-boy fosse pegar o pacote e o entregasse pois receberá um telefonema dizendo que o tal pacote de documentos deveria ser retirado impreterivelmente naquele dia e entregue a uma outra pessoa. Ele não poderia deixar que as coisas fossem resolvidas pelo destinatário final do pacote, vocês sabem como são as coisas por aqui, sempre urgentes. Nosso país não tolera atrasos e perdas de prazos.
Agora sim, tudo explicado, até a casa comprada um mês depois. Eram dólares que tinha guardado.
Mas péra aí, dólares guardados? Uso de mensageiros pagos com dinheiro público (ou de autarquias sobre controle público) para serviços particulares? Essas não são ações, digamos, à margem da lei?
Não importa, o mais importante é que estas pessoas precisam reavaliar seus atos. Já pensou se o pacote fosse uma bomba? Poderia ter estragado a vida de muita gente.
Ficar transportando pacotinhos sobre os quais não se sabe o conteúdo é uma temeridade, nestes tempos de terrorismo.
sábado, 23 de julho de 2005
Bem, amigos, ...
Me desculpem, mas vocês não estão com nada.
Do peito mesmo são o Marcos Valério e o tal sócio da empreiteira GDK.
Quem não quereria amigos como aqueles?
Do peito mesmo são o Marcos Valério e o tal sócio da empreiteira GDK.
Quem não quereria amigos como aqueles?
Legitimidade 2
Caso seja provada a existência deste mensalão, e indícios há, não seria o caso de apagar todas as decisões desta legislatura que hora está manchada?
Ou vamos fingir que nada aconteceu e seguir o jogo “democrático”?
Ou vamos fingir que nada aconteceu e seguir o jogo “democrático”?
Legitimidade
Em poucas palavras, como acreditar em uma CPI(ou MI, como queiram) que é presidida por um membro do partido do governo (corruptor?) e relatada por um da base aliada (corrompido?)? Este é o caso da CPMI dos Correios.
Ou em uma na qual os dois cargos são exercidos por membros da base aliada (o caso da que trata da compra de votos, vulgarmente conhecida como a do Mensalão)?
Até o momento não dá pra dizer que há favorecimento ou apaziguamento, mas responda honestamente: você acredita nesta historinha de “doa a quem doer” ou “cortar na própria carne”?Parece-me que estamos vendo um caso clássico de entrega do galinheiro à raposa. Resta torcer para que esta seja das raras vegetarianas.
Ou em uma na qual os dois cargos são exercidos por membros da base aliada (o caso da que trata da compra de votos, vulgarmente conhecida como a do Mensalão)?
Até o momento não dá pra dizer que há favorecimento ou apaziguamento, mas responda honestamente: você acredita nesta historinha de “doa a quem doer” ou “cortar na própria carne”?Parece-me que estamos vendo um caso clássico de entrega do galinheiro à raposa. Resta torcer para que esta seja das raras vegetarianas.
sexta-feira, 22 de julho de 2005
Pensando bem
Havia decidido parar de escrever um pouco, esperando a crise esfriar um pouco. Desisti de esperar.
Como parece que o poço não tem fundo, vou ser obrigado a voltar.Que me desculpem os que por azar caiam nesta página.
A vida é curta não dá pra esperar a vida inteira, como se por aquele cara da peça, como é mesmo o nome; Godot?
Como parece que o poço não tem fundo, vou ser obrigado a voltar.Que me desculpem os que por azar caiam nesta página.
A vida é curta não dá pra esperar a vida inteira, como se por aquele cara da peça, como é mesmo o nome; Godot?
quinta-feira, 7 de julho de 2005
As vidas têm valor?
Dependendo de quem falamos, é lógico que há um valor, mas é de fato um axioma que a vida é o bem mais valioso à humanidade?
Para mim, minha vida é o bem mais valioso, e é assim para a grande maioria das pessoas, mas será que quando falamos da vida alheia isto é verdade?
Até hoje de manhã, este texto iria ser escrito com bases em valores realmente mensuráveis, dinheiro mesmo, mas as trágicas cenas que nos chegam de Londres, mostram que o mais aterrador de tudo é que não existe nenhum valor para a vida do outro no mundo.
Que aos fanáticos fundamentalistas que praticam atentados como os de hoje não há valor para a vida alheia, além da comoção política que elas podem causar, está mais do que provado, não importando, cor, raça ou credo dos que podem perdê-las. Não importa se estas vidas estão em Tókio, Oklahoma, Bagdá ou Madri.
Mas aos ditos donos do mundo, as vidas alheias também pouco ou nada importam. Basta ver quantas vidas foram perdidas no século passado e no começo deste em conflitos que poderiam muito bem ter sido evitados pelo bom-senso e pelo diálogo. Em todos eles, as vidas dos líderes eram preservadas, enquanto os recrutas são, ou foram, usados como bucha-de-canhão.
E o que falar então das guerras cirúrgicas tão na moda. Preserva os filhos de alguns eleitores, enquanto bombardeia a cabeça de um desavisado que não tem a sorte de eleger ninguém.
Só que o descaso pela vida não acaba por aí. A civilizada União Européia, rica como ela só, deu seu parecer sobre quanto uma vida não pode custar, para ser mantida no caso. Em nota do “O Estado de S. Paulo” descobrimos que um plano de ajuste da economia para padrões ecologicamente mais aceitáveis foi engavetado porque custava demais. Quinze bilhões de euros anuais, que poderiam salvar 350 mil vidas anualmente. Então o teto da união deles é de quarenta e dois mil, oitocentos e cinqüenta e sete euros e catorze centavos (de euro). Nem quero imaginar quanto seria o teto aqui.
E de volta a nossa terrinha, quanto vale para a pessoas que desviam bilhões de reais da administração pública, mesmo recebendo gordos salários para bem administrar a coisa pública, a vida das pessoas que ainda hoje morrem de fome?
Com vista nisto, da pra realmente dizer que a pela vida é a opção fundamental das democracias ocidentais ou do resto da humanidade?
Para mim, minha vida é o bem mais valioso, e é assim para a grande maioria das pessoas, mas será que quando falamos da vida alheia isto é verdade?
Até hoje de manhã, este texto iria ser escrito com bases em valores realmente mensuráveis, dinheiro mesmo, mas as trágicas cenas que nos chegam de Londres, mostram que o mais aterrador de tudo é que não existe nenhum valor para a vida do outro no mundo.
Que aos fanáticos fundamentalistas que praticam atentados como os de hoje não há valor para a vida alheia, além da comoção política que elas podem causar, está mais do que provado, não importando, cor, raça ou credo dos que podem perdê-las. Não importa se estas vidas estão em Tókio, Oklahoma, Bagdá ou Madri.
Mas aos ditos donos do mundo, as vidas alheias também pouco ou nada importam. Basta ver quantas vidas foram perdidas no século passado e no começo deste em conflitos que poderiam muito bem ter sido evitados pelo bom-senso e pelo diálogo. Em todos eles, as vidas dos líderes eram preservadas, enquanto os recrutas são, ou foram, usados como bucha-de-canhão.
E o que falar então das guerras cirúrgicas tão na moda. Preserva os filhos de alguns eleitores, enquanto bombardeia a cabeça de um desavisado que não tem a sorte de eleger ninguém.
Só que o descaso pela vida não acaba por aí. A civilizada União Européia, rica como ela só, deu seu parecer sobre quanto uma vida não pode custar, para ser mantida no caso. Em nota do “O Estado de S. Paulo” descobrimos que um plano de ajuste da economia para padrões ecologicamente mais aceitáveis foi engavetado porque custava demais. Quinze bilhões de euros anuais, que poderiam salvar 350 mil vidas anualmente. Então o teto da união deles é de quarenta e dois mil, oitocentos e cinqüenta e sete euros e catorze centavos (de euro). Nem quero imaginar quanto seria o teto aqui.
E de volta a nossa terrinha, quanto vale para a pessoas que desviam bilhões de reais da administração pública, mesmo recebendo gordos salários para bem administrar a coisa pública, a vida das pessoas que ainda hoje morrem de fome?
Com vista nisto, da pra realmente dizer que a pela vida é a opção fundamental das democracias ocidentais ou do resto da humanidade?
terça-feira, 5 de julho de 2005
Mais uma chance
Por mais que digam que não, PT e PSDB têm visões de mundo muito, muito mesmo, parecidas.
Não estou falando de radicais de um e de outro, mais de um ao bem da verdade, mas da ideologia dominante em seus quadros dirigentes. Muitos até prevêem que mais cedo ou mais tarde os dois partidos se unirão; fechando um ciclo que poderia ter se encerrado muitos anos atrás, pela entrada dos dissidentes do PMDB no PT ao invés da criação de uma partido inteiramente novo.
Segundo estes que advogam esta fusão, isto não ocorreu ainda simplesmente pelo fato de ambos serem muito fortes no estado que é o sonho de qualquer administrador, São Paulo. A luta pela hegemonia aí é, provinciana em todos os sentidos possíveis, a força que impede entendimento por propostas comuns e semeiam bravatas de parte a parte.
Se este era o problema, não existe mais nenhum empecilho. Espero que nenhum petista que leia isto venha ofender minha mãe, mas o PT paulista morreu.
Não estou dizendo isto na esteira de Vinicius Torres Freire, que em sua coluna de ontem da “Folha de S. Paulo” fez uma nota de falecimento do petismo-lulismo, mas do que se apreende da crise e das últimas eleições que aconteceram no estado.
Mas do que o PT como um todo, é o PT de São Paulo que saí enfraquecido. Especula-se se Dirceu será cassado, Genoíno acaba de entregar seu cargo e a próxima a assumir a presidência do partido, Marta(xa, como querem alguns), está sobre a sombra de processos de inegibilidade. Em resumo, os caciques do “Campo Majoritário”, não só perderam eleição após eleição, como perderam o comando do partido e, pior de tudo para eles, a confiança das parcelas mais esclarecidas da população, os chamados formadores de opinião.
Parece-me que o PT, como o conhecemos hoje, não sobreviverá às próximas eleições do partido. Ou a ala mais a esquerda expulsará o chamado os hoje majoritários ou será expulsa por eles, engrossando o P-Sol de Heloisa Helena.
Caso ocorra a primeira, é muito provável que esta se aninhe entre os tucanos. Caso o segundo caso seja o que aconteça, ainda assim os majoritários estarão muito enfraquecidos e dependentes das façanhas do governo Lula. No momento eu não apostaria um níquel, como diziam nos antigos faroestes, pelas façanhas.
Sendo assim, corremos o risco, e ainda bem que temos este risco, de ver PSDB e grande parte do PT juntos em um futuro próximo. Juntos possuem qualidades para trazer muitos avanços para o Brasil. Separados estes avanços estão ocorrendo, é verdade, só que estamos patinando bastante.
Ainda é cedo para lançarmos foguetes pela fusão, mas ela está mais próxima agora do que nunca.
Não estou falando de radicais de um e de outro, mais de um ao bem da verdade, mas da ideologia dominante em seus quadros dirigentes. Muitos até prevêem que mais cedo ou mais tarde os dois partidos se unirão; fechando um ciclo que poderia ter se encerrado muitos anos atrás, pela entrada dos dissidentes do PMDB no PT ao invés da criação de uma partido inteiramente novo.
Segundo estes que advogam esta fusão, isto não ocorreu ainda simplesmente pelo fato de ambos serem muito fortes no estado que é o sonho de qualquer administrador, São Paulo. A luta pela hegemonia aí é, provinciana em todos os sentidos possíveis, a força que impede entendimento por propostas comuns e semeiam bravatas de parte a parte.
Se este era o problema, não existe mais nenhum empecilho. Espero que nenhum petista que leia isto venha ofender minha mãe, mas o PT paulista morreu.
Não estou dizendo isto na esteira de Vinicius Torres Freire, que em sua coluna de ontem da “Folha de S. Paulo” fez uma nota de falecimento do petismo-lulismo, mas do que se apreende da crise e das últimas eleições que aconteceram no estado.
Mas do que o PT como um todo, é o PT de São Paulo que saí enfraquecido. Especula-se se Dirceu será cassado, Genoíno acaba de entregar seu cargo e a próxima a assumir a presidência do partido, Marta(xa, como querem alguns), está sobre a sombra de processos de inegibilidade. Em resumo, os caciques do “Campo Majoritário”, não só perderam eleição após eleição, como perderam o comando do partido e, pior de tudo para eles, a confiança das parcelas mais esclarecidas da população, os chamados formadores de opinião.
Parece-me que o PT, como o conhecemos hoje, não sobreviverá às próximas eleições do partido. Ou a ala mais a esquerda expulsará o chamado os hoje majoritários ou será expulsa por eles, engrossando o P-Sol de Heloisa Helena.
Caso ocorra a primeira, é muito provável que esta se aninhe entre os tucanos. Caso o segundo caso seja o que aconteça, ainda assim os majoritários estarão muito enfraquecidos e dependentes das façanhas do governo Lula. No momento eu não apostaria um níquel, como diziam nos antigos faroestes, pelas façanhas.
Sendo assim, corremos o risco, e ainda bem que temos este risco, de ver PSDB e grande parte do PT juntos em um futuro próximo. Juntos possuem qualidades para trazer muitos avanços para o Brasil. Separados estes avanços estão ocorrendo, é verdade, só que estamos patinando bastante.
Ainda é cedo para lançarmos foguetes pela fusão, mas ela está mais próxima agora do que nunca.
segunda-feira, 4 de julho de 2005
Elementar meus caros, Watsons
A se esse Jefferson tivesse tomado aulas com o Sherlock, que detetive teríamos. Ou seria sua vocação maior para Mãe Dinah (desculpem-me se o bidu da vez for outro, posso estar desatualizado)?
Não sei lê indícios ou tem visões, mas o fato é que o que ele fala tem peso. Provas de irregularidades em contratos ou supostos crimes eleitorais não conseguiram derrubar outros ministros (ou pessoas com status de), porém um apelo de “Bob” sim.
E cada apontada de dedo tem o poder de fazer aparecer irregularidades das mais estapafúrdias. Já fomos apresentados ao mensalão, à fazenda de dois andares, à bondade de publicitários – diga-se de passagem, injustificada, já que os ingratos do PT nem lembravam que ele havia pagado uma parcela da dívida do partido da qual era avalista -, à cofres, malas, pacotes e todas e quaisquer unidades de medidas oficiosas de medida de dinheiro.
A sorte parece ser que Jefferson não vê ligações de Lula com nenhuma das operações ilegais que surgiram ou que ainda vão surgir.
Porém não há motivo para comemorar, não sei qual é pior. Roubar os cofres públicos ou permitir que estes sejam dilapidados continuamente sem perceber nada. Para um governo que se orgulhava de “ que não rouba e nem deixa roubar”, é uma falha de qualquer jeito. Principalmente porque os que mais diziam isso são os que hoje estão mais cercados de suspeitas.
Sempre achei que este governo atual agia como um amador. Assim como o profissional, o amador está sujeito aos acertos (e estes ocorreram aos montes neste que aqui está), sendo alguns destes acertos até espetaculares, só que está muito mais perto do erro do que aquele.
Esta crise está provando isso, é erro atrás de erro. E o encaminhamento dela não parece melhorar as coisas.
Se as comissões que estão formadas seguirem a risca o que o governo quer, as investigações irão seguir durante um longo período ainda, com uma começando após o encerramento da outra.
Será um longo processo de fervura, bem ao gosto de Lula. Afinal, se processo de troca de ministros pode se arrastar por mais de um ano, porque fazer a crise ser aguda e resolvida brevemente?
Nesta novela já apareceram os a estrelas principais e a cada dia um novo coadjuvante surge, só que ela é muito ruim e nem há uma Ana Paula Arósio para nos refrescar as vistas. Já está consagrada como um fenômeno de púbico, só que a crítica certamente não será favorável.
Não sei lê indícios ou tem visões, mas o fato é que o que ele fala tem peso. Provas de irregularidades em contratos ou supostos crimes eleitorais não conseguiram derrubar outros ministros (ou pessoas com status de), porém um apelo de “Bob” sim.
E cada apontada de dedo tem o poder de fazer aparecer irregularidades das mais estapafúrdias. Já fomos apresentados ao mensalão, à fazenda de dois andares, à bondade de publicitários – diga-se de passagem, injustificada, já que os ingratos do PT nem lembravam que ele havia pagado uma parcela da dívida do partido da qual era avalista -, à cofres, malas, pacotes e todas e quaisquer unidades de medidas oficiosas de medida de dinheiro.
A sorte parece ser que Jefferson não vê ligações de Lula com nenhuma das operações ilegais que surgiram ou que ainda vão surgir.
Porém não há motivo para comemorar, não sei qual é pior. Roubar os cofres públicos ou permitir que estes sejam dilapidados continuamente sem perceber nada. Para um governo que se orgulhava de “ que não rouba e nem deixa roubar”, é uma falha de qualquer jeito. Principalmente porque os que mais diziam isso são os que hoje estão mais cercados de suspeitas.
Sempre achei que este governo atual agia como um amador. Assim como o profissional, o amador está sujeito aos acertos (e estes ocorreram aos montes neste que aqui está), sendo alguns destes acertos até espetaculares, só que está muito mais perto do erro do que aquele.
Esta crise está provando isso, é erro atrás de erro. E o encaminhamento dela não parece melhorar as coisas.
Se as comissões que estão formadas seguirem a risca o que o governo quer, as investigações irão seguir durante um longo período ainda, com uma começando após o encerramento da outra.
Será um longo processo de fervura, bem ao gosto de Lula. Afinal, se processo de troca de ministros pode se arrastar por mais de um ano, porque fazer a crise ser aguda e resolvida brevemente?
Nesta novela já apareceram os a estrelas principais e a cada dia um novo coadjuvante surge, só que ela é muito ruim e nem há uma Ana Paula Arósio para nos refrescar as vistas. Já está consagrada como um fenômeno de púbico, só que a crítica certamente não será favorável.
sábado, 2 de julho de 2005
Deflação: e eu com isso?
Anos e anos com meda da inflação e quando ela está aparentemente controlada surge um perigo, dizem, ainda maior.
E por que ele seria ainda maior? Simplesmente porque os primeiros afetados pela deflação são os detentores dos meios de produção. E é claro que estes ameaçam mandar a conta para o resto da população.
Vamos à lógica por trás disto. A tendência natural dos preços de qualquer produto, respeitadas condições constantes na produção do mesmo, é a Ueda de seu valor. Isto não e considerado deflação, mais depreciação dos meios de produção. É a amortização do capital empregado para o início da produção de qualquer empreitada e a razão pelo caráter expansionista do capitalismo que a tantas guerras nos levou.
Já a deflação seria uma anomalia, na ótica do capitalismo, pois é uma redução dos preços, devido a falta de demanda, além desta depreciação natural que achata a margem de lucros.
Com uma margem de lucros menor, o capitalista não investe e não gera mais empregos, o que impede a recuperação da demanda e dos preços. Em casos extremos, o capitalista se veria obrigado a cessar sua produção por falta de demanda, desempregando pessoas, deixando de utilizar matérias-primas e alimentando o novo monstro.
Então devemos nos preocupar com mis este fantasma? É mais uma ameaça? Claro que não.
Nós não vivemos no Japão ou na Europa Ocidental, onde a demanda tem que ser mantida artificialmente através de ações agressivas de marketing, uma vez que as necessidades básicas estão supridas e o contingente populacional em baixa.
No Brasil existe justamente o contrário. Há um subconsumo evidente e a redução de preços pode até beneficiar os produtores, apesar do achatamento dos lucros, pela inclusão de novos consumidores no mercado.
Não será apenas a redução de alguns itens da cesta de consumo, como as tarifas de energia elétrica e os combustíveis, que provocará esta inclusão imediatamente, mas já é um início, principalmente porque estes são insumos que afetam todos os elos de qualquer cadeia de produção.
Mais de dez anos após o início das privatizações, ainda estamos a meio caminho de uma real economia de mercado e de uma livre concorrência em elos vitais das cadeias. Porém começamos a nos deparar com desafios de economias maduras.
Essa nossa “adolescência” econômica é um passo adiante. Como em toda a fase de mudança acelerada; algumas ameaças podem aparecer, assim como algumas dores. Não podemos ignorá-las, mas, sobretudo, não podemos valorizá-las excessivamente.
A vida continua; a economia também.
E por que ele seria ainda maior? Simplesmente porque os primeiros afetados pela deflação são os detentores dos meios de produção. E é claro que estes ameaçam mandar a conta para o resto da população.
Vamos à lógica por trás disto. A tendência natural dos preços de qualquer produto, respeitadas condições constantes na produção do mesmo, é a Ueda de seu valor. Isto não e considerado deflação, mais depreciação dos meios de produção. É a amortização do capital empregado para o início da produção de qualquer empreitada e a razão pelo caráter expansionista do capitalismo que a tantas guerras nos levou.
Já a deflação seria uma anomalia, na ótica do capitalismo, pois é uma redução dos preços, devido a falta de demanda, além desta depreciação natural que achata a margem de lucros.
Com uma margem de lucros menor, o capitalista não investe e não gera mais empregos, o que impede a recuperação da demanda e dos preços. Em casos extremos, o capitalista se veria obrigado a cessar sua produção por falta de demanda, desempregando pessoas, deixando de utilizar matérias-primas e alimentando o novo monstro.
Então devemos nos preocupar com mis este fantasma? É mais uma ameaça? Claro que não.
Nós não vivemos no Japão ou na Europa Ocidental, onde a demanda tem que ser mantida artificialmente através de ações agressivas de marketing, uma vez que as necessidades básicas estão supridas e o contingente populacional em baixa.
No Brasil existe justamente o contrário. Há um subconsumo evidente e a redução de preços pode até beneficiar os produtores, apesar do achatamento dos lucros, pela inclusão de novos consumidores no mercado.
Não será apenas a redução de alguns itens da cesta de consumo, como as tarifas de energia elétrica e os combustíveis, que provocará esta inclusão imediatamente, mas já é um início, principalmente porque estes são insumos que afetam todos os elos de qualquer cadeia de produção.
Mais de dez anos após o início das privatizações, ainda estamos a meio caminho de uma real economia de mercado e de uma livre concorrência em elos vitais das cadeias. Porém começamos a nos deparar com desafios de economias maduras.
Essa nossa “adolescência” econômica é um passo adiante. Como em toda a fase de mudança acelerada; algumas ameaças podem aparecer, assim como algumas dores. Não podemos ignorá-las, mas, sobretudo, não podemos valorizá-las excessivamente.
A vida continua; a economia também.
Os custos médicos
Entra dia, sai dia, governo e empresas de planos de saúde e seguro-saúde dizem que os custos médicos estão aumentando devido ao custo de novas tecnologias empregadas.
Isto me revolta. Porquê raios, se a tecnologia os diminui em todos os outros campos, ela aumentaria os custos justamente na medicina?
A única explicação que me veio a cabeça foi, além de simples má fé, o aumento de volume de atendimentos.
Explico; as prestadoras de serviços médicos reportam que os avanços tecnológicos encarecem o atendimento pois as máquinas e insumos modernos são mais custosos do que as alternativas mais antigas.
Só que há um detalhe muito importante, isto só é verdade se encararmos a nova tecnologia como obrigatória. E isso ela não é, definitivamente.
Uma nova tecnologia só é válida se tornar a ação na qual é empregada mais eficiente ou eficaz. E sempre que isto acontece há uma redução implícita de custos.
Se esta se tornar tão custosa a ponto de ser impraticável o seu uso, isto a torna totalmente ineficaz. Esta casta de inovações tecnológicas é simplesmente varrida de qualquer uso e é raríssima.
Tomemos como exemplo as formas de diagnóstico por imagens. Entre a antiga abreugrafia e as modernas tomografias coloridas há uma ampla variedade de usos e de preços para cada imagem que se pode obter, porém cada boa imagem conseguida pode fazer com que o tratamento seja mais eficiente e mais eficaz, reduzindo o tempo de tratamento e os custos do mesmo. Um único dia a menos de internação pode compensar a mais cara destas formas de diagnóstico.
Agora, dito isto, por que as empresas que exploram o ramo da saúde reclamam do emprego de tecnologia? Porque o oposto dele é o não-atendimento, a maneira mais barata de prestar qualquer serviço.
Melhores exames tornam mais fácil o diagnóstico e fazem compulsório o tratamento. Deste modo, não há maneira de empresas de saúde gostarem do emprego de tecnologia. Ela faz com que as picaretas sejam processadas mais facilmente e obriga as não-picaretas a um aprimoramento constante.
Já o governo... bem, o governo. Dizer que a tecnologia aumenta os custos deste soa como uma piada. Não há o emprego de tecnologia no serviço público de saúde, pelo menos não a de última geração. Se existem hospitais que estão ligados a rede pública e utilizam tecnologia de ponta, na maioria hospitais-escola, estes têm um peso relativo muito pequeno no total de atendimento.
Dada a precariedade geral do atendimento público no sistema de saúde, até o uso de algodão encarece o sistema, já que a regra é o não-atendimento das demandas e a postergação de todos os serviços, cronificando os casos, quando não levando o candidato a paciente à morte.
A tecnologia pode ser culpada de muitas coisas, mais querer usá-la como mais uma maneira de tungar os brasileiros que precisam de atendimento médico é verdadeiramente imoral.
Isto me revolta. Porquê raios, se a tecnologia os diminui em todos os outros campos, ela aumentaria os custos justamente na medicina?
A única explicação que me veio a cabeça foi, além de simples má fé, o aumento de volume de atendimentos.
Explico; as prestadoras de serviços médicos reportam que os avanços tecnológicos encarecem o atendimento pois as máquinas e insumos modernos são mais custosos do que as alternativas mais antigas.
Só que há um detalhe muito importante, isto só é verdade se encararmos a nova tecnologia como obrigatória. E isso ela não é, definitivamente.
Uma nova tecnologia só é válida se tornar a ação na qual é empregada mais eficiente ou eficaz. E sempre que isto acontece há uma redução implícita de custos.
Se esta se tornar tão custosa a ponto de ser impraticável o seu uso, isto a torna totalmente ineficaz. Esta casta de inovações tecnológicas é simplesmente varrida de qualquer uso e é raríssima.
Tomemos como exemplo as formas de diagnóstico por imagens. Entre a antiga abreugrafia e as modernas tomografias coloridas há uma ampla variedade de usos e de preços para cada imagem que se pode obter, porém cada boa imagem conseguida pode fazer com que o tratamento seja mais eficiente e mais eficaz, reduzindo o tempo de tratamento e os custos do mesmo. Um único dia a menos de internação pode compensar a mais cara destas formas de diagnóstico.
Agora, dito isto, por que as empresas que exploram o ramo da saúde reclamam do emprego de tecnologia? Porque o oposto dele é o não-atendimento, a maneira mais barata de prestar qualquer serviço.
Melhores exames tornam mais fácil o diagnóstico e fazem compulsório o tratamento. Deste modo, não há maneira de empresas de saúde gostarem do emprego de tecnologia. Ela faz com que as picaretas sejam processadas mais facilmente e obriga as não-picaretas a um aprimoramento constante.
Já o governo... bem, o governo. Dizer que a tecnologia aumenta os custos deste soa como uma piada. Não há o emprego de tecnologia no serviço público de saúde, pelo menos não a de última geração. Se existem hospitais que estão ligados a rede pública e utilizam tecnologia de ponta, na maioria hospitais-escola, estes têm um peso relativo muito pequeno no total de atendimento.
Dada a precariedade geral do atendimento público no sistema de saúde, até o uso de algodão encarece o sistema, já que a regra é o não-atendimento das demandas e a postergação de todos os serviços, cronificando os casos, quando não levando o candidato a paciente à morte.
A tecnologia pode ser culpada de muitas coisas, mais querer usá-la como mais uma maneira de tungar os brasileiros que precisam de atendimento médico é verdadeiramente imoral.
quinta-feira, 30 de junho de 2005
Invencionices
Após o jogo de ontem, que foi uma vitória maravilhosa, soa até anti-patriótico que eu diga aqui que a seleção brasileira e o seu técnico não são perfeitos. Então vou pegar leve, mas ...
Houve uma época que gostava de jogar bola. Isto foi antes de ser apresentado à função tática.
Houve um tempo em que era divertido ver a seleção jogar. Isto foi antes desta ser dirigida por Carlos Alberto Parreira.
Tática e Parreira são quase sinônimos para uma boa parcela dos comentaristas esportivos nacionais. Acho que está aí o problema. Ambos me tiraram o prazer do futebol e, na personificação da tática, Parreira sofre com o ônus de ser o rei da tática. E precisa provar-nos, e provar-se, essa realeza a todo o instante.
A tática passou a ser encarada neste país como um outro nome para covardia. O defender-se antes e, quem sabe, fazer um golzinho e levar o resultado para casa. Ou não seria o gol um mero detalhe? Neste sentido, espera-se de Parreira que ele seja um retranqueiro, pois é tático, ao invés do ofensivo Luxemburgo, motivador.
É também vista, a tática, como algo rígido, com os jogadores se comportando como botões no jogo. E o técnico leva a culpa e a fama por tudo que acontece nas partidas.
E mais, como todo técnico tem que impor sua parcela de inovação. Parreira aparece com Zé Roberto.
Fica sobre a cabeça de Parreira sempre a espada do carrasco que a todos os “selecionadores” persegue, e mais ainda os “táticos”: o descrédito.
Para escapar da espada, ele necessita não apenas vencer, precisa fazê-lo a sua maneira. Não bastará ser campeão mundial, isto só será válido se conseguir o caneco com o Zé Roberto de volante.
Já desejei Zé Roberto na seleção. Isso foi na época em que ele e Zé Maria, cada um uma lateral da Portuguesa, eram responsáveis por pesadelos nas defesas e técnicos adversários na noite anterior aos jogos.
Toleraria o mesmo como meia ofensivo - nesta posição foi o melhor jogador do campeonato alemão durante algumas temporadas; o que não prova muito, é verdade, já que o campeonato alemão não é esta força toda – só que de volante não dá, é invencionice.
O Zé Roberto pode até cumprir a função, mas fica no meio termo, nem é um volante para auxiliar a defesa nem um meia para apoiar o ataque.
Essas invencionices subvertem um pouco a função do técnico de seleções. A invenção deveria ser feita por técnicos de clubes, aqueles que têm parcos recursos humanos, nos quais em certos momentos se tem dois meias e nenhum lateral, por exemplo.
Na seleção, o técnico pode pinçar jogadores das mais variadas “tendências”. Há o técnico, o raçudo, o indisciplinado, o craque, etc... pra que inventar?
Já sei, esta coluna está inconstante, meio sem pé nem cabeça. A seleção também está assim, espero que em um ano, a coluna esteja azeitada, assim como nosso time.
Houve uma época que gostava de jogar bola. Isto foi antes de ser apresentado à função tática.
Houve um tempo em que era divertido ver a seleção jogar. Isto foi antes desta ser dirigida por Carlos Alberto Parreira.
Tática e Parreira são quase sinônimos para uma boa parcela dos comentaristas esportivos nacionais. Acho que está aí o problema. Ambos me tiraram o prazer do futebol e, na personificação da tática, Parreira sofre com o ônus de ser o rei da tática. E precisa provar-nos, e provar-se, essa realeza a todo o instante.
A tática passou a ser encarada neste país como um outro nome para covardia. O defender-se antes e, quem sabe, fazer um golzinho e levar o resultado para casa. Ou não seria o gol um mero detalhe? Neste sentido, espera-se de Parreira que ele seja um retranqueiro, pois é tático, ao invés do ofensivo Luxemburgo, motivador.
É também vista, a tática, como algo rígido, com os jogadores se comportando como botões no jogo. E o técnico leva a culpa e a fama por tudo que acontece nas partidas.
E mais, como todo técnico tem que impor sua parcela de inovação. Parreira aparece com Zé Roberto.
Fica sobre a cabeça de Parreira sempre a espada do carrasco que a todos os “selecionadores” persegue, e mais ainda os “táticos”: o descrédito.
Para escapar da espada, ele necessita não apenas vencer, precisa fazê-lo a sua maneira. Não bastará ser campeão mundial, isto só será válido se conseguir o caneco com o Zé Roberto de volante.
Já desejei Zé Roberto na seleção. Isso foi na época em que ele e Zé Maria, cada um uma lateral da Portuguesa, eram responsáveis por pesadelos nas defesas e técnicos adversários na noite anterior aos jogos.
Toleraria o mesmo como meia ofensivo - nesta posição foi o melhor jogador do campeonato alemão durante algumas temporadas; o que não prova muito, é verdade, já que o campeonato alemão não é esta força toda – só que de volante não dá, é invencionice.
O Zé Roberto pode até cumprir a função, mas fica no meio termo, nem é um volante para auxiliar a defesa nem um meia para apoiar o ataque.
Essas invencionices subvertem um pouco a função do técnico de seleções. A invenção deveria ser feita por técnicos de clubes, aqueles que têm parcos recursos humanos, nos quais em certos momentos se tem dois meias e nenhum lateral, por exemplo.
Na seleção, o técnico pode pinçar jogadores das mais variadas “tendências”. Há o técnico, o raçudo, o indisciplinado, o craque, etc... pra que inventar?
Já sei, esta coluna está inconstante, meio sem pé nem cabeça. A seleção também está assim, espero que em um ano, a coluna esteja azeitada, assim como nosso time.
terça-feira, 28 de junho de 2005
Escorrendo pelos dedos
Em continuação ao texto anterior, tentarei explicar as razões pelas quais, na minha opinião, como areia, a o controle do processo de globalização está escorrendo por entre os dedos dos países ricos.
Este controle corre riscos, primeiramente, por razões demográficas. A população dos países ricos é de aproximadamente um sétimo da população global, com tendência decrescente de importância, e a medida que vão se acrescentando mais elos nas correntes de cada agente de globalização (empresas, organismos internacionais, etc) mais os interesses de outrem devem ser avaliados.
Com peso demográfico crescente, e também todos os ônus e bônus que isto traz, os países pobres aumentam sua importância tanto como consumidores como produtores, deslocando outros como mercado e ganhando espaço nos aclamados corações e mentes de quem decide realmente, os dirigentes corporativos.
Outro fator é o de custos. Os padrões exigidos das empresas nos países de primeiro mundo: ambientais, salariais e quaisquer outros ais que possamos procurar; tornam a produção muito mais barata em outras localidades. Apesar destes custos tenderem a se equiparar com o passar do tempo, tanto por pressões internas quanto internas, a simples existência destas diferenças provoca um aumento de importância dos países detentores de custos menores. Tanto econômica quanto política.
Um outro fator, e talvez o mais importante e incompreendido deles, é que a globalização acaba com velhas estruturas clientelistas entre países, e não os reforça – como costumam dizer os partidos de esquerda -, em alguns casos invertendo as relações de dependência que ocorrem a séculos.
Países de renda aumentada pela globalização (os imensos exemplos são Índia e China) tornam-se concorrentes dos países de primeiro mundo pelas reservas naturais Terra afora. Isto fortalece os exportadores líquidos de produtos primários (países da Opep, Brasil, entre outros) e enfraquece os importadores (adivinhe quem).
Apesar de ainda terem meios de contra-atacar, principalmente diminuindo a demanda pelos mesmos, os países de primeiro mundo vêem sua influência se esvair. Pelo menos por algum tempo não poderão ser os clientes cheios de razão.
Estes fatores acabarão por gerar mudanças radicais na geopolítica mundial, cabe a cada governante se adiantar a elas e tentar prosperar nelas.
Quanto aos nossos, creio que estão no caminho correto. Estão ao menos lendo, aparentemente, o quadro conjuntural da mesma maneira que eu. Se estamos certos? O futuro irá mostrar, mas a diversificação de mercados, diminuindo o peso dos países ricos, em nada nos atrapalhou até agora.
Este controle corre riscos, primeiramente, por razões demográficas. A população dos países ricos é de aproximadamente um sétimo da população global, com tendência decrescente de importância, e a medida que vão se acrescentando mais elos nas correntes de cada agente de globalização (empresas, organismos internacionais, etc) mais os interesses de outrem devem ser avaliados.
Com peso demográfico crescente, e também todos os ônus e bônus que isto traz, os países pobres aumentam sua importância tanto como consumidores como produtores, deslocando outros como mercado e ganhando espaço nos aclamados corações e mentes de quem decide realmente, os dirigentes corporativos.
Outro fator é o de custos. Os padrões exigidos das empresas nos países de primeiro mundo: ambientais, salariais e quaisquer outros ais que possamos procurar; tornam a produção muito mais barata em outras localidades. Apesar destes custos tenderem a se equiparar com o passar do tempo, tanto por pressões internas quanto internas, a simples existência destas diferenças provoca um aumento de importância dos países detentores de custos menores. Tanto econômica quanto política.
Um outro fator, e talvez o mais importante e incompreendido deles, é que a globalização acaba com velhas estruturas clientelistas entre países, e não os reforça – como costumam dizer os partidos de esquerda -, em alguns casos invertendo as relações de dependência que ocorrem a séculos.
Países de renda aumentada pela globalização (os imensos exemplos são Índia e China) tornam-se concorrentes dos países de primeiro mundo pelas reservas naturais Terra afora. Isto fortalece os exportadores líquidos de produtos primários (países da Opep, Brasil, entre outros) e enfraquece os importadores (adivinhe quem).
Apesar de ainda terem meios de contra-atacar, principalmente diminuindo a demanda pelos mesmos, os países de primeiro mundo vêem sua influência se esvair. Pelo menos por algum tempo não poderão ser os clientes cheios de razão.
Estes fatores acabarão por gerar mudanças radicais na geopolítica mundial, cabe a cada governante se adiantar a elas e tentar prosperar nelas.
Quanto aos nossos, creio que estão no caminho correto. Estão ao menos lendo, aparentemente, o quadro conjuntural da mesma maneira que eu. Se estamos certos? O futuro irá mostrar, mas a diversificação de mercados, diminuindo o peso dos países ricos, em nada nos atrapalhou até agora.
segunda-feira, 27 de junho de 2005
Preservem meus calos
A globalização foi evoluindo aos poucos, desde a II Segunda Guerra Mundial (momento em ela esteve em seu mais baixo nível na história) e muito lentamente, mas nos encontramos agora em um ponto muito importante da jornada.
Ela está afetando a uma parcela significativa, e sensível, das pessoas do mundo.
Talvez pela primeira vez na história, até as massas trabalhadoras perceberam que estão interligadas e que as conexões são mais fortes do que elas desejariam, para o bem e para o mal.
Não estou falando de discussões pontuais, como foi o medo dos peões de fábrica norte-americanos de perder seus empregos para um japonês a cerca de 20 anos. Agora é algo muito mais sistêmico.
Isto pode representar um grande risco para a globalização.
O certo é que, até o momento, os grandes vencedores do processo de globalização foram as populações dos países do dito primeiro mundo. Não por acaso, foram estes países que desenvolveram todo o arcabouço legal e comandaram todo o processo.
Só que do modo como as coisas estão se encaminhando, vai ser-lhes arrancado das mãos o controle proximamente. E eles ameaçam com retrocessos.
Os fatores que estão fazendo pender a balança do poder da globalização serão, por falta de espaço neste texto, apresentadas na coluna de amanhã, mas os que poderiam ser responsáveis pelo estancamento do processo globalizante estão relacionados a percepção do mesmo pelos eleitores dos ricos países democráticos.
Como foi dito à repórter Patrícia Campos Mello pelo pesquisador Jean-Pierre Lehmann em reportagem veiculada ontem pelo jornal O Estado de S. Paulo, “Hoje, o europeu tem três pesadelos: perder o emprego para o encanador polonês, para o operário chinês ou para o criador de frango brasileiro”. Estes são também, com uma ou outra diferença na profissão ou no adjetivo pátrio, os pesadelos dos norte-americanos e japoneses.
Na mesma edição há um texto de Gilles Lapouge discutindo a PAC (Política agrícola comum) européia, que distorce totalmente o mercado agrícola mundial, dando, a título de exemplo, três dólares diários de subsídio para cada vaca francesa. Esta PAC, mais dia menos dia, terá que ser revogada, expondo os agricultores europeus a concorrência de outros nações com custos menores, como terão que ser revogados também os equivalentes norte-americanos e japoneses.
Coisas que os eleitores destes países não querem fazer.
A lógica então é: após dançar durante seis décadas a música da globalização, os países que mais se beneficiaram do baile pressionam pelo encerramento da festa agora que alguns novos dançarinos que acabaram de chegar, menos experientes e que podem responder por alguns pisões nos pés delicados - e também nos calos escondidos - daqueles.
Medidas demagógicas que em nada beneficiariam o mundo, porém agradariam em cheio os já citados eleitores, estão agora esperando por assinaturas nos países “civilizados”. Num contexto de civilização que significa, se eu me dou bem, a danação para o resto.
Ela está afetando a uma parcela significativa, e sensível, das pessoas do mundo.
Talvez pela primeira vez na história, até as massas trabalhadoras perceberam que estão interligadas e que as conexões são mais fortes do que elas desejariam, para o bem e para o mal.
Não estou falando de discussões pontuais, como foi o medo dos peões de fábrica norte-americanos de perder seus empregos para um japonês a cerca de 20 anos. Agora é algo muito mais sistêmico.
Isto pode representar um grande risco para a globalização.
O certo é que, até o momento, os grandes vencedores do processo de globalização foram as populações dos países do dito primeiro mundo. Não por acaso, foram estes países que desenvolveram todo o arcabouço legal e comandaram todo o processo.
Só que do modo como as coisas estão se encaminhando, vai ser-lhes arrancado das mãos o controle proximamente. E eles ameaçam com retrocessos.
Os fatores que estão fazendo pender a balança do poder da globalização serão, por falta de espaço neste texto, apresentadas na coluna de amanhã, mas os que poderiam ser responsáveis pelo estancamento do processo globalizante estão relacionados a percepção do mesmo pelos eleitores dos ricos países democráticos.
Como foi dito à repórter Patrícia Campos Mello pelo pesquisador Jean-Pierre Lehmann em reportagem veiculada ontem pelo jornal O Estado de S. Paulo, “Hoje, o europeu tem três pesadelos: perder o emprego para o encanador polonês, para o operário chinês ou para o criador de frango brasileiro”. Estes são também, com uma ou outra diferença na profissão ou no adjetivo pátrio, os pesadelos dos norte-americanos e japoneses.
Na mesma edição há um texto de Gilles Lapouge discutindo a PAC (Política agrícola comum) européia, que distorce totalmente o mercado agrícola mundial, dando, a título de exemplo, três dólares diários de subsídio para cada vaca francesa. Esta PAC, mais dia menos dia, terá que ser revogada, expondo os agricultores europeus a concorrência de outros nações com custos menores, como terão que ser revogados também os equivalentes norte-americanos e japoneses.
Coisas que os eleitores destes países não querem fazer.
A lógica então é: após dançar durante seis décadas a música da globalização, os países que mais se beneficiaram do baile pressionam pelo encerramento da festa agora que alguns novos dançarinos que acabaram de chegar, menos experientes e que podem responder por alguns pisões nos pés delicados - e também nos calos escondidos - daqueles.
Medidas demagógicas que em nada beneficiariam o mundo, porém agradariam em cheio os já citados eleitores, estão agora esperando por assinaturas nos países “civilizados”. Num contexto de civilização que significa, se eu me dou bem, a danação para o resto.
sexta-feira, 24 de junho de 2005
Desenvolvimento: que bicho é este?
Tornar-se um país desenvolvido é o que move o Brasil. Todos nós queremos que sejamos desenvolvidos. Só que há uma questão: o que é um país desenvolvido?
Pergunte ao seu vizinho o que é um país desenvolvido. Provavelmente a resposta será variação a respeito da riqueza. Apontar-se-ão muitos países como exemplo de desenvolvimento e o critério mais apontado será provavelmente o de renda per capita.
Só que este não é um indicador de desenvolvimento, apesar de haver uma imensa correlação. Tomando emprestado da biologia os significados: desenvolvimento é a mudança estrutural que muda a função que certo elemento exerce enquanto que crescimento é simplesmente o aumento das dimensões. Definições estas que perante o senso comum são sinônimos perfeitos.
Países com alta renda per capita tiveram no passado um grande crescimento econômico, não necessariamente desenvolvimento. Este seria uma mudança da predominância dos setores da economia perante o total do PIB de cada país. Do primário (extrativismo e agricultura) para o terciário (comércio e serviços).
Desta forma, o Brasil não é na realidade um país subdesenvolvido e sim um país pobre. Barbados e Emirados Árabes Unidos estariam entre os mais desenvolvidos do mundo, apesar de nunca serem colocados nesta lista, enquanto os nórdicos Finlândia e Noruega seriam menos desenvolvidos por retirarem uma grande fatia do seu PIB através do extrativismo, e eles são constantemente apontados como exemplos a serem seguidos.
A verdade é que o Brasil é um país extremamente desigual, em todos os quesitos. Existem bolsões desenvolvidos e áreas onde se pratica o extrativismo mais arcaico. Do ponto de vista de renda, há a Daslu e as favelas. Nossa economia é muito baseada em serviços e comércio, se pegarmos a foto panorâmica, porém está a neste momento passando por um processo de diminuição da importância destes setores no PIB.
O crescimento dos setores agropecuário e industrial poderia ser encarado como um processo de reversão de desenvolvimento, mas está sendo encarado como uma vitória.
É justo que queiramos um país mais desenvolvido, uma vez que, de um modo geral, podemos dizer que os que já o são têm taxas de bem-estar social melhores, porém não nos iludamos que teremos assim um país mais justo.
Justiças social e econômica não se alcançam automaticamente à medida que trafegamos na estrada do desenvolvimento. Tenho cá pra mim que é justamente o contrário, a justiça social traz mais demanda por serviços e ao conseqüente desenvolvimento.
Pergunte ao seu vizinho o que é um país desenvolvido. Provavelmente a resposta será variação a respeito da riqueza. Apontar-se-ão muitos países como exemplo de desenvolvimento e o critério mais apontado será provavelmente o de renda per capita.
Só que este não é um indicador de desenvolvimento, apesar de haver uma imensa correlação. Tomando emprestado da biologia os significados: desenvolvimento é a mudança estrutural que muda a função que certo elemento exerce enquanto que crescimento é simplesmente o aumento das dimensões. Definições estas que perante o senso comum são sinônimos perfeitos.
Países com alta renda per capita tiveram no passado um grande crescimento econômico, não necessariamente desenvolvimento. Este seria uma mudança da predominância dos setores da economia perante o total do PIB de cada país. Do primário (extrativismo e agricultura) para o terciário (comércio e serviços).
Desta forma, o Brasil não é na realidade um país subdesenvolvido e sim um país pobre. Barbados e Emirados Árabes Unidos estariam entre os mais desenvolvidos do mundo, apesar de nunca serem colocados nesta lista, enquanto os nórdicos Finlândia e Noruega seriam menos desenvolvidos por retirarem uma grande fatia do seu PIB através do extrativismo, e eles são constantemente apontados como exemplos a serem seguidos.
A verdade é que o Brasil é um país extremamente desigual, em todos os quesitos. Existem bolsões desenvolvidos e áreas onde se pratica o extrativismo mais arcaico. Do ponto de vista de renda, há a Daslu e as favelas. Nossa economia é muito baseada em serviços e comércio, se pegarmos a foto panorâmica, porém está a neste momento passando por um processo de diminuição da importância destes setores no PIB.
O crescimento dos setores agropecuário e industrial poderia ser encarado como um processo de reversão de desenvolvimento, mas está sendo encarado como uma vitória.
É justo que queiramos um país mais desenvolvido, uma vez que, de um modo geral, podemos dizer que os que já o são têm taxas de bem-estar social melhores, porém não nos iludamos que teremos assim um país mais justo.
Justiças social e econômica não se alcançam automaticamente à medida que trafegamos na estrada do desenvolvimento. Tenho cá pra mim que é justamente o contrário, a justiça social traz mais demanda por serviços e ao conseqüente desenvolvimento.
quarta-feira, 22 de junho de 2005
Pois é
No maior país da América do Sul, nós temos um presidente da ética, que tudo faz para mantê-la e que não rouba ou deixa roubar.
No segundo maior país da América do Norte, nós temos um presidente que é o campeão da segurança mundial, combatente do terrorismo e grande artífice de uma nova ordem de paz e prosperidade, sem esta “irrelevante” Organização das Nações Unidas.
Não sei dizer qual é o maioral, primeiro porque são cruzadas diferentes e o do segundo tem uma escala maior para atuar, mas tenho um palpite: Bush é o maioral da incompetência.
Enquanto não há prova nenhuma de que o a ética do Planalto Central tenha decaído, apenas indícios, é mais do que documentado que a atividade terrorista mundo afora tornou-se muito mais fervilhante após a posse do nosso amigo do norte.
Claro, daremos o desconto para o marco zero do Presidente da guerra. Ele ainda não era preocupado com a segurança do “mundo” antes dos atentados de 11 setembro de 2001, sua cruzada era para cortar impostos. Mas desde aquela data, tudo para o qual se comprometeu deu errado.
Se propôs a prender aquele que consideraram o maior responsável pela série de atentados, Osama bin Laden, e para tanto não se furtou a mandar invadir o Afeganistão e mudar-lhe o regime político – o que até que não foi uma má idéia para um grande contingente de afegãos-, só que até onde se sabe bin Laden permanece livre, leve e solto.
Depois de feito o estrago no Afeganistão, e sem a cabeça de bin Laden, mudou-se o objetivo da empreitada; para a mudança do regime “terrorista” talebã para um outro mais “democrático”. E gostou-se tanto da idéia que Bush resolveu mudar um outro regime incomodo, o iraquiano.
Qual foi o resultado? Ontem a CIA soltou um comunicado dizendo que o território iraquiano tornou-se um centro de treinamento de terroristas. A instituição também vem relatando que, com o avanço da sofisticação dos insurgentes, corre-se o risco de que o possível fim da guerra seja um cenário ainda pior; com terroristas bem treinados nas artes do combate e de fabricação de bombas espalhados pelo mundo.
Em resumo, é outro presidente que pega um limão e planta um limoeiro.
Quem será o cruzado mais incompetente do momento? Tenho meu palpite, qual é o seu? Será o rei das bravatas do sul ou o príncipe das gafes do norte?
No segundo maior país da América do Norte, nós temos um presidente que é o campeão da segurança mundial, combatente do terrorismo e grande artífice de uma nova ordem de paz e prosperidade, sem esta “irrelevante” Organização das Nações Unidas.
Não sei dizer qual é o maioral, primeiro porque são cruzadas diferentes e o do segundo tem uma escala maior para atuar, mas tenho um palpite: Bush é o maioral da incompetência.
Enquanto não há prova nenhuma de que o a ética do Planalto Central tenha decaído, apenas indícios, é mais do que documentado que a atividade terrorista mundo afora tornou-se muito mais fervilhante após a posse do nosso amigo do norte.
Claro, daremos o desconto para o marco zero do Presidente da guerra. Ele ainda não era preocupado com a segurança do “mundo” antes dos atentados de 11 setembro de 2001, sua cruzada era para cortar impostos. Mas desde aquela data, tudo para o qual se comprometeu deu errado.
Se propôs a prender aquele que consideraram o maior responsável pela série de atentados, Osama bin Laden, e para tanto não se furtou a mandar invadir o Afeganistão e mudar-lhe o regime político – o que até que não foi uma má idéia para um grande contingente de afegãos-, só que até onde se sabe bin Laden permanece livre, leve e solto.
Depois de feito o estrago no Afeganistão, e sem a cabeça de bin Laden, mudou-se o objetivo da empreitada; para a mudança do regime “terrorista” talebã para um outro mais “democrático”. E gostou-se tanto da idéia que Bush resolveu mudar um outro regime incomodo, o iraquiano.
Qual foi o resultado? Ontem a CIA soltou um comunicado dizendo que o território iraquiano tornou-se um centro de treinamento de terroristas. A instituição também vem relatando que, com o avanço da sofisticação dos insurgentes, corre-se o risco de que o possível fim da guerra seja um cenário ainda pior; com terroristas bem treinados nas artes do combate e de fabricação de bombas espalhados pelo mundo.
Em resumo, é outro presidente que pega um limão e planta um limoeiro.
Quem será o cruzado mais incompetente do momento? Tenho meu palpite, qual é o seu? Será o rei das bravatas do sul ou o príncipe das gafes do norte?
terça-feira, 21 de junho de 2005
Desmotivação?
O que você faria se um profissional que está em sua folha de pagamento lhe dissesse que não presta um bom serviço simplesmente por que está desmotivado?
E se este profissional fosse de um setor do qual depende o funcionamento de toda a sua empresa?
Mas do que isso, ele fosse parte do quadro das chamadas funções-fim, a razão de ser da sua empresa?
A maioria das pessoas diria que estes funcionários seriam demitidos imediatamente. Certo?
É, mas eles existem aos montes na sua folha de pagamento, são funcionários públicos. Comecemos do princípio. Qualquer um pode ficar desmotivado, vez ou outra, mas categorias?
Eles podem alegar que trabalham muito, que ganham pouco, que não são reconhecidos; alguns até que com muita razão, mas será que estes são motivos suficientes para prestar um mau serviço?
Os fatos são que apesar de tudo isto, os funcionários públicos ainda estão em situação média muito melhor do que a média dos funcionários da iniciativa privada.
Tomando o exemplo paulista, enquanto a renda média dos empregados da iniciativa privada é de cerca de mil reais, entre o funcionalismo público ela é de cerca de três vezes isso, e ainda há a estabilidade, que torna a incompetência um motivo muito brando para demissão.
Não é por outra razão que as greves entre estes servidores é tão impopular. É mais do que irônico, quase tragicômico, que os mesmo funcionários que estão parados a tanto tempo e deixando de prestar serviços aos segurados do INSS queiram reajustes que em valores brutos são maiores do que as pensões da grande maioria dos segurados. Como fazer com a grande massa aceite isto como justo?
A verdade é que a renda média de que nós, brasileiros, dispomos é ridícula, para ser brando. Mas não há como fazer com este valor deixe de ser ridículo apenas para os servidores públicos. Como em tudo, no serviço público há uma profusão de gargalos de eficiência. Fará muito mais para os seus futuros reajustes, o funcionário que comece a restringir estes gargalos. Alegar apenas que precisa de reajuste, pois não os recebeu como queria, apesar de perfeitamente coerente, não fará com que as sobras orçamentárias necessárias para os reajustes apareçam. Deixar de prestar os serviços essenciais para a população, que é na última instância quem assina o cheque, também não.
Só quando esta desculpa esfarrapada de desmotivação deixar de existir eles terão chances reais de verem seus pleitos atendidos. Quando o profissionalismo passar a ser enxergado como uma virtude do funcionalismo público e a população se sentir bem servida, e bom uso do dinheiro for uma marca de cada repartição, a simples menção de interrupção destes serviços fará com que os contribuintes apóiem as demandas do servidor.
Enquanto este for visto como um privilegiado que não trabalha como deveria, quando trabalha, poderá haver greves intermináveis. De nada adiantará. Só tornará a causa mais impopular.
E se este profissional fosse de um setor do qual depende o funcionamento de toda a sua empresa?
Mas do que isso, ele fosse parte do quadro das chamadas funções-fim, a razão de ser da sua empresa?
A maioria das pessoas diria que estes funcionários seriam demitidos imediatamente. Certo?
É, mas eles existem aos montes na sua folha de pagamento, são funcionários públicos. Comecemos do princípio. Qualquer um pode ficar desmotivado, vez ou outra, mas categorias?
Eles podem alegar que trabalham muito, que ganham pouco, que não são reconhecidos; alguns até que com muita razão, mas será que estes são motivos suficientes para prestar um mau serviço?
Os fatos são que apesar de tudo isto, os funcionários públicos ainda estão em situação média muito melhor do que a média dos funcionários da iniciativa privada.
Tomando o exemplo paulista, enquanto a renda média dos empregados da iniciativa privada é de cerca de mil reais, entre o funcionalismo público ela é de cerca de três vezes isso, e ainda há a estabilidade, que torna a incompetência um motivo muito brando para demissão.
Não é por outra razão que as greves entre estes servidores é tão impopular. É mais do que irônico, quase tragicômico, que os mesmo funcionários que estão parados a tanto tempo e deixando de prestar serviços aos segurados do INSS queiram reajustes que em valores brutos são maiores do que as pensões da grande maioria dos segurados. Como fazer com a grande massa aceite isto como justo?
A verdade é que a renda média de que nós, brasileiros, dispomos é ridícula, para ser brando. Mas não há como fazer com este valor deixe de ser ridículo apenas para os servidores públicos. Como em tudo, no serviço público há uma profusão de gargalos de eficiência. Fará muito mais para os seus futuros reajustes, o funcionário que comece a restringir estes gargalos. Alegar apenas que precisa de reajuste, pois não os recebeu como queria, apesar de perfeitamente coerente, não fará com que as sobras orçamentárias necessárias para os reajustes apareçam. Deixar de prestar os serviços essenciais para a população, que é na última instância quem assina o cheque, também não.
Só quando esta desculpa esfarrapada de desmotivação deixar de existir eles terão chances reais de verem seus pleitos atendidos. Quando o profissionalismo passar a ser enxergado como uma virtude do funcionalismo público e a população se sentir bem servida, e bom uso do dinheiro for uma marca de cada repartição, a simples menção de interrupção destes serviços fará com que os contribuintes apóiem as demandas do servidor.
Enquanto este for visto como um privilegiado que não trabalha como deveria, quando trabalha, poderá haver greves intermináveis. De nada adiantará. Só tornará a causa mais impopular.
segunda-feira, 20 de junho de 2005
Doença holandesa
Está sendo brandida uma nova ameaça por aqueles que querem um câmbio rígido e controlado: a doença holandesa.
Esta consiste da supervalorização da moeda local, devido a uma predominância avassaladora das exportações sobre as importações, em decorrência de super-oferta de recursos naturais; levaria a desindustrialização pelo encarecimento relativo dos produtos nacionais em relação aos possíveis produtos industrializados de outros países. Tem este nome porque foi verificada primeiramente naquele país, com o “boom” exportador provocado pela descoberta e exploração das reservas de gás natural do Mar do Norte.
Acredito que está ameaça é mais um daqueles pontos no qual se vê um paradoxo onde não existe nenhum.
Primeiramente, porque o Brasil, apesar de exportar uma grande gama de produtos primários, não está vivendo um “boom” na exploração destes recursos. Ele está exportando-os mais por escassez de mercado interno e pela fraqueza da moeda interna. Neste cenário, não estaria havendo uma supervalorização, mas apenas uma adequação da nossa moeda ao cenário externo.
Outro ponto que deve ser levado em conta é que nosso país é muito pouco aberto comercialmente. Apesar do crescimento acelerado do nosso comércio exterior, ele tem um peso relativo muito pequeno em nossa economia, se nos compararmos a economias de porte e grau de desenvolvimento semelhantes. Crescimento acelerado tende a trazer desequilíbrios momentâneos; não será a rigidez cambial que reequilibrará a balança cambial, mesmo porque nós precisamos de mais importações também, por mais que os industriais brasileiros digam o contrário.
E mais importante de tudo, a taxa de câmbio é apenas um dos fatores de competitividade de uma nação, e seguramente não é a mais importante. De nada adianta termos um câmbio ultra-competitivo se não acabarmos com os demais fatores limitantes que diminuem nossa competitividade. E o detalhe é que estes outros fatores são, ao contrário do cambial, oriundos de decisões internas e não da conjuntura internacional. São eles, entre outros, a qualidades de nossa educação, de nossa infra-estrutura, de nosso regime legal.
Enquanto se taxar a produção nacional com valores próximos de 50% e os produtos importados com algo em torno de 20%, será impossível fazer com que a industria nacional seja mais competitiva do que a estrangeira (e o erro obviamente não é na taxação do produto importado).
Se a única solução concebível é a demagógica desvalorização cambial, algo muito errado há com nossa economia com vistas as perspectivas para o futuro, mesmo porque desvalorização cambial rima com arrocho salarial, disfarçado, e faz dobradinha com concentração de renda.
Esta consiste da supervalorização da moeda local, devido a uma predominância avassaladora das exportações sobre as importações, em decorrência de super-oferta de recursos naturais; levaria a desindustrialização pelo encarecimento relativo dos produtos nacionais em relação aos possíveis produtos industrializados de outros países. Tem este nome porque foi verificada primeiramente naquele país, com o “boom” exportador provocado pela descoberta e exploração das reservas de gás natural do Mar do Norte.
Acredito que está ameaça é mais um daqueles pontos no qual se vê um paradoxo onde não existe nenhum.
Primeiramente, porque o Brasil, apesar de exportar uma grande gama de produtos primários, não está vivendo um “boom” na exploração destes recursos. Ele está exportando-os mais por escassez de mercado interno e pela fraqueza da moeda interna. Neste cenário, não estaria havendo uma supervalorização, mas apenas uma adequação da nossa moeda ao cenário externo.
Outro ponto que deve ser levado em conta é que nosso país é muito pouco aberto comercialmente. Apesar do crescimento acelerado do nosso comércio exterior, ele tem um peso relativo muito pequeno em nossa economia, se nos compararmos a economias de porte e grau de desenvolvimento semelhantes. Crescimento acelerado tende a trazer desequilíbrios momentâneos; não será a rigidez cambial que reequilibrará a balança cambial, mesmo porque nós precisamos de mais importações também, por mais que os industriais brasileiros digam o contrário.
E mais importante de tudo, a taxa de câmbio é apenas um dos fatores de competitividade de uma nação, e seguramente não é a mais importante. De nada adianta termos um câmbio ultra-competitivo se não acabarmos com os demais fatores limitantes que diminuem nossa competitividade. E o detalhe é que estes outros fatores são, ao contrário do cambial, oriundos de decisões internas e não da conjuntura internacional. São eles, entre outros, a qualidades de nossa educação, de nossa infra-estrutura, de nosso regime legal.
Enquanto se taxar a produção nacional com valores próximos de 50% e os produtos importados com algo em torno de 20%, será impossível fazer com que a industria nacional seja mais competitiva do que a estrangeira (e o erro obviamente não é na taxação do produto importado).
Se a única solução concebível é a demagógica desvalorização cambial, algo muito errado há com nossa economia com vistas as perspectivas para o futuro, mesmo porque desvalorização cambial rima com arrocho salarial, disfarçado, e faz dobradinha com concentração de renda.
domingo, 19 de junho de 2005
Escorrendo pelos dedos
Em continuação ao texto anterior, tentarei explicar as razões pelas quais, na minha opinião, como areia, a o controle do processo de globalização está escorrendo por entre os dedos dos países ricos.
Este controle corre riscos, primeiramente, por razões demográficas. A população dos países ricos é de aproximadamente um sétimo da população global, com tendência decrescente de importância, e a medida que vão se acrescentando mais elos nas correntes de cada agente de globalização )empresas, organismos internacionais, etc) mais os interesses de outrem devem ser avaliados.
Com peso demográfico crescente, e também todos os ônus e bônus que isto traz, os países pobres aumentam sua importância tanto como consumidores como produtores, deslocando outros como mercado e ganhando espaço nos aclamados corações e mentes de quem decide realmente, os dirigentes corporativos.
Outro fator é o de custos. Os padrões exigidos das empresas nos países de primeiro mundo: ambientais, salariais e quaisquer outros ais que possamos procurar; tornam a produção muito mais barata em outras localidades. Apesar destes custos tenderem a se equiparar com o passar do tempo, tanto por pressões internas quanto internas, a simples existência destas diferenças provoca um aumento de importância dos países detentores de custos menores. Tanto econômica quanto política.
Um outro fator, e talvez o mais importante e incompreendido deles, é que a globalização acaba com velhas estruturas clientelistas entre países, e não os reforça – como costumam dizer os partidos de esquerda -, em alguns casos invertendo as relações de dependência que ocorrem a séculos.
Países de renda aumentada pela globalização (os imensos exemplos são Índia e China) tornam-se concorrentes dos países de primeiro mundo pelas reservas naturais Terra afora. Isto fortalece os exportadores líquidos de produtos primários (países da Opep, Brasil, entre outros) e enfraquece os importadores (adivinhe quem).
Apesar de ainda terem meios de contra-atacar, principalmente diminuindo a demanda pelos mesmos, os países de primeiro mundo vêem sua influência se esvair. Pelo menos por algum tempo não poderão ser os clientes cheios de razão.
Estes fatores acabarão por gerar mudanças radicais na geopolítica mundial, cabe a cada governante se adiantar a elas e tentar prosperar nelas.
Quanto aos nossos, creio que estão no caminho correto. Estão ao menos lendo, aparentemente, o quadro conjuntural da mesma maneira que eu. Se estamos certos, o futuro irá mostrar, mas a diversificação de mercados, diminuindo o peso dos países ricos, em nada nos atrapalhou até agora.
Este controle corre riscos, primeiramente, por razões demográficas. A população dos países ricos é de aproximadamente um sétimo da população global, com tendência decrescente de importância, e a medida que vão se acrescentando mais elos nas correntes de cada agente de globalização )empresas, organismos internacionais, etc) mais os interesses de outrem devem ser avaliados.
Com peso demográfico crescente, e também todos os ônus e bônus que isto traz, os países pobres aumentam sua importância tanto como consumidores como produtores, deslocando outros como mercado e ganhando espaço nos aclamados corações e mentes de quem decide realmente, os dirigentes corporativos.
Outro fator é o de custos. Os padrões exigidos das empresas nos países de primeiro mundo: ambientais, salariais e quaisquer outros ais que possamos procurar; tornam a produção muito mais barata em outras localidades. Apesar destes custos tenderem a se equiparar com o passar do tempo, tanto por pressões internas quanto internas, a simples existência destas diferenças provoca um aumento de importância dos países detentores de custos menores. Tanto econômica quanto política.
Um outro fator, e talvez o mais importante e incompreendido deles, é que a globalização acaba com velhas estruturas clientelistas entre países, e não os reforça – como costumam dizer os partidos de esquerda -, em alguns casos invertendo as relações de dependência que ocorrem a séculos.
Países de renda aumentada pela globalização (os imensos exemplos são Índia e China) tornam-se concorrentes dos países de primeiro mundo pelas reservas naturais Terra afora. Isto fortalece os exportadores líquidos de produtos primários (países da Opep, Brasil, entre outros) e enfraquece os importadores (adivinhe quem).
Apesar de ainda terem meios de contra-atacar, principalmente diminuindo a demanda pelos mesmos, os países de primeiro mundo vêem sua influência se esvair. Pelo menos por algum tempo não poderão ser os clientes cheios de razão.
Estes fatores acabarão por gerar mudanças radicais na geopolítica mundial, cabe a cada governante se adiantar a elas e tentar prosperar nelas.
Quanto aos nossos, creio que estão no caminho correto. Estão ao menos lendo, aparentemente, o quadro conjuntural da mesma maneira que eu. Se estamos certos, o futuro irá mostrar, mas a diversificação de mercados, diminuindo o peso dos países ricos, em nada nos atrapalhou até agora.
segunda-feira, 13 de junho de 2005
Me expliquem, por favor
Tento, tento, mas não consigo entender qual é a urgência de propósitos que torna tão necessário que, governo após governo, o congresso tenha que ser comprado, de um jeito ou de outro, para que ocorra a tal governabilidade.
Como o próprio nome diz, o Congresso faz parte do poder legislativo, ou seja, tem que legislar. Legislar trata-se de fazer algo que não é transitório, trata-se de fazer algo que durará por longos períodos, trata-se de pensar mandatos ou gerações além.
Uma lei é, no campo das ciências, algo que já está provado após várias e exaustivas experimentações de validade. É algo praticamente imutável, e está lá para mostrar-se faça chuva amazônica ou sol saárico.
Bem, parece que aqui o Congresso não é feito para criar leis, é feito para dar sustentação ao Poder Executivo. Como não há nada de graça (o verbo dar foi erroneamente colocado, se pensarmos bem), esta governabilidade é conquistada a base de troca. Um favorzinho aqui, um carguinho ali, dizem até que um dinheirinho acolá.
Mas será que isto é realmente necessário?
Na minha opinião não seria se, e existem sempre os ses, cada um fizesse a sua parte. Se o executivo executasse, o judiciário julgasse, e o legislativo legislasse - em causa alheia – tudo estaria resolvido. Porém o óbvio é sempre muito difícil de ser encontrado quando se trata da administração pública brasileira.
A princípio seria possível que os prefeitos, governadores e presidentes cumprissem seus mandatos sem ao menos entrar nos congressos e câmaras de seus respectivos domínios, mas isto nunca acontece.
Cada novo eleito que chega ao poder executivo quer revolucionar. Esbarra em empecilhos legais e, claro, procura mudar as leis; não os projetos que são, afinal, perfeitos. Não que seja errado o poder executivo mandar projetos de leis para o poder legislativo, isto é um direito constitucional de todo o cidadão, por que não seria de um ente federado. Só que o que está errada é a mentalidade.
Os que exercem o poder executivo deveriam se preocupar primeiro em fazer o que primeiro lhes foi conferido como tarefa, criar e gerir as políticas públicas para o bem-estar da população, com as regras que lhes são apresentadas. A mudança de regra deveria ser uma excepcionalidade, um verdadeiro caso digno de nota.
Neste caso caberiam às câmaras, assembléias e afins montar as regras do jogo. O famoso arcabouço legal. Adequar as leis às mudanças pelas quais a sociedade passa. E também aprovar (reparem no verbo) ou não o orçamento que o executivo apresenta.
Como tudo isso é ficção aqui no Brasil, cada governo que entra no poder quer ser o marco fundador e os legisladores querem apenas se ocupar das questões do momento (e nas horas vagas interferir nos rumos do executivo), é crise atrás de crise. Medidas-provisórias atrás de medidas-provisórias.CPI atrás de CPI.
Algum dia políticos corajosos quebrarão este círculo e farão o dever para o qual foi eleito, só nos resta saber quando.
Como o próprio nome diz, o Congresso faz parte do poder legislativo, ou seja, tem que legislar. Legislar trata-se de fazer algo que não é transitório, trata-se de fazer algo que durará por longos períodos, trata-se de pensar mandatos ou gerações além.
Uma lei é, no campo das ciências, algo que já está provado após várias e exaustivas experimentações de validade. É algo praticamente imutável, e está lá para mostrar-se faça chuva amazônica ou sol saárico.
Bem, parece que aqui o Congresso não é feito para criar leis, é feito para dar sustentação ao Poder Executivo. Como não há nada de graça (o verbo dar foi erroneamente colocado, se pensarmos bem), esta governabilidade é conquistada a base de troca. Um favorzinho aqui, um carguinho ali, dizem até que um dinheirinho acolá.
Mas será que isto é realmente necessário?
Na minha opinião não seria se, e existem sempre os ses, cada um fizesse a sua parte. Se o executivo executasse, o judiciário julgasse, e o legislativo legislasse - em causa alheia – tudo estaria resolvido. Porém o óbvio é sempre muito difícil de ser encontrado quando se trata da administração pública brasileira.
A princípio seria possível que os prefeitos, governadores e presidentes cumprissem seus mandatos sem ao menos entrar nos congressos e câmaras de seus respectivos domínios, mas isto nunca acontece.
Cada novo eleito que chega ao poder executivo quer revolucionar. Esbarra em empecilhos legais e, claro, procura mudar as leis; não os projetos que são, afinal, perfeitos. Não que seja errado o poder executivo mandar projetos de leis para o poder legislativo, isto é um direito constitucional de todo o cidadão, por que não seria de um ente federado. Só que o que está errada é a mentalidade.
Os que exercem o poder executivo deveriam se preocupar primeiro em fazer o que primeiro lhes foi conferido como tarefa, criar e gerir as políticas públicas para o bem-estar da população, com as regras que lhes são apresentadas. A mudança de regra deveria ser uma excepcionalidade, um verdadeiro caso digno de nota.
Neste caso caberiam às câmaras, assembléias e afins montar as regras do jogo. O famoso arcabouço legal. Adequar as leis às mudanças pelas quais a sociedade passa. E também aprovar (reparem no verbo) ou não o orçamento que o executivo apresenta.
Como tudo isso é ficção aqui no Brasil, cada governo que entra no poder quer ser o marco fundador e os legisladores querem apenas se ocupar das questões do momento (e nas horas vagas interferir nos rumos do executivo), é crise atrás de crise. Medidas-provisórias atrás de medidas-provisórias.CPI atrás de CPI.
Algum dia políticos corajosos quebrarão este círculo e farão o dever para o qual foi eleito, só nos resta saber quando.
quinta-feira, 9 de junho de 2005
Também sou
Neste país de 180 milhões de técnicos também quero meter meu bedelho na opção tática de nosso time por um, dois, três ou quatro atacantes.
Temo que a derrota de ontem faça Parreira retroceder e voltar a seu velho esqueminha de sempre, recuado e voltado aos contra-ataques. E o pior, com a anuência da mídia e da torcida, já que ficou “provado” que nós ficamos muito vulneráveis com o que era até ontem chamado de “quarteto mágico”; mesmo que ele não estivesse, a rigor, em campo.
Vamos primeiro aos fatos consumados. O time argentino foi melhor do que o brasileiro, é verdade, mas não foi um massacre. Todos os gols foram resultantes de falhas defensivas, porém nenhum foi diretamente ligado ao funcionamento, ou não, dos meio-campistas.
Foram duas falhas grotescas da defesa e um chute de fora, com desvio, quando estavam todos os jogadores argentinos marcados.
Aliás, o jogo não foi muito diferente do que o que ocorreu em Belo Horizonte, com vitória do Brasil pelo mesmo placar. O Brasil sofreu uma grande pressão, e antes de abrir o placar passou por várias ameaças de gol.
A grande falha, na minha opinião, é de desajuste de alguns jogadores do meio-de-campo à função pedida por Parreira. Zé Roberto, por exemplo, é um jogador que sempre atuou ofensivamente e nunca primou pelo poder de marcação, mesmo nos tempos de lateral-esquerda na Portuguesa. Para fazer a função que o técnico espera dele, tem que praticamente renunciar ao ataque, sua principal qualidade. E esta é a principal questão a ser resolvida pela comissão técnica.
Ou ela se fia em preferências por pessoas, e tenta encaixar o esquema ao que melhor convêm a elas, ou escolhe um esquema e tenta achar as pessoas mais apropriadas. Penso que a comissão está em dúvida sobre qual é o melhor caminho no momento.
Por sorte dela, estamos falando de seleção brasileira e, devido a profusão de jogadores, qualquer um dos caminhos pode funcionar.
De minha parte, ainda acredito que a melhor solução é a manutenção do “quadrado mágico”. Essa formação ainda pode fazer história.
Temo que a derrota de ontem faça Parreira retroceder e voltar a seu velho esqueminha de sempre, recuado e voltado aos contra-ataques. E o pior, com a anuência da mídia e da torcida, já que ficou “provado” que nós ficamos muito vulneráveis com o que era até ontem chamado de “quarteto mágico”; mesmo que ele não estivesse, a rigor, em campo.
Vamos primeiro aos fatos consumados. O time argentino foi melhor do que o brasileiro, é verdade, mas não foi um massacre. Todos os gols foram resultantes de falhas defensivas, porém nenhum foi diretamente ligado ao funcionamento, ou não, dos meio-campistas.
Foram duas falhas grotescas da defesa e um chute de fora, com desvio, quando estavam todos os jogadores argentinos marcados.
Aliás, o jogo não foi muito diferente do que o que ocorreu em Belo Horizonte, com vitória do Brasil pelo mesmo placar. O Brasil sofreu uma grande pressão, e antes de abrir o placar passou por várias ameaças de gol.
A grande falha, na minha opinião, é de desajuste de alguns jogadores do meio-de-campo à função pedida por Parreira. Zé Roberto, por exemplo, é um jogador que sempre atuou ofensivamente e nunca primou pelo poder de marcação, mesmo nos tempos de lateral-esquerda na Portuguesa. Para fazer a função que o técnico espera dele, tem que praticamente renunciar ao ataque, sua principal qualidade. E esta é a principal questão a ser resolvida pela comissão técnica.
Ou ela se fia em preferências por pessoas, e tenta encaixar o esquema ao que melhor convêm a elas, ou escolhe um esquema e tenta achar as pessoas mais apropriadas. Penso que a comissão está em dúvida sobre qual é o melhor caminho no momento.
Por sorte dela, estamos falando de seleção brasileira e, devido a profusão de jogadores, qualquer um dos caminhos pode funcionar.
De minha parte, ainda acredito que a melhor solução é a manutenção do “quadrado mágico”. Essa formação ainda pode fazer história.
Nota- De que adianta
Alguém poderia me explicar qual seria a utilidade da quebra dos sigilos fiscal e bancário do tesoureiro do PT para desvendar se ouve ou não o tal mensalão.
Qualquer um que tivesse movimentação de 3 milhões mensais na sua conta pessoal estaria na lista de pessoas mais ricas da Forbes, não atuando incognitamente na política. Ou então deveria ser preso por estupidez, vulga burrice, por fazer algo escondido tão às claras.
Essa onda de sempre brandir com quebra de sigilos deve parar. Sempre que alguém pede para ser investigado, desde que seja apenas em determinado quesito, deixa dúvidas se tem ou não algo escondido em outros.
Qualquer um que tivesse movimentação de 3 milhões mensais na sua conta pessoal estaria na lista de pessoas mais ricas da Forbes, não atuando incognitamente na política. Ou então deveria ser preso por estupidez, vulga burrice, por fazer algo escondido tão às claras.
Essa onda de sempre brandir com quebra de sigilos deve parar. Sempre que alguém pede para ser investigado, desde que seja apenas em determinado quesito, deixa dúvidas se tem ou não algo escondido em outros.
quarta-feira, 8 de junho de 2005
Hora da colheita
Há algum tempo atrás, não me lembro bem por que razão, comecei a escrever um artigo que dizia que, ao contrário do que diz o conselho popular, o governo estava plantando limoeiros com os limões que apareciam e deixando-nos sedentos por sucos.
Bem, o artigo nem foi terminado e já chegou a época da colheita.
Dizem os analistas que a economia inverteu o sinal, mas isso ficou de lado nas coberturas midiáticas. Agora só se fala de Roberto Jefferson, Correios e IRB (vocês conheciam este instituto?). O chamado, pela Veja, “Homem-bomba” resolveu se detonar. Só não sabemos ainda se foi uma implosão controlada ou uma explosão que abalará tudo ao seu redor.
E a raiz de tudo isso não é nada menos que a incompetência do governo em transformar os problemas em oportunidades. Combate-se a doença simplesmente aumentando a dose de remédio (veneno?).
Quando do estouro da primeira crise do atual governo, Waldomirica, limitou-se a afastar o pivô e, imagino eu, aumentar os mimos para que congressistas deixassem estas coisas para lá. Estava plantada a primeira árvore.
E assim foi seguindo a conduta crise após crise. Prometia-se mundos e fundos. Algumas vezes se cumpria, outras não. Porém o mais importante; uma mudança sobre o modo de fazer política na nossa nação, nem pensar.
Agora temos o pior cenário possível se montando na nossa frente. As massas indignadas, um governo com culpa no cartório (ao menos de omissão) e um congresso totalmente desorientado. Por menos do que isso aprendemos, naquele passado que parece tão remoto, o significado da palavra impeachment.
Agora caberá aos mestres-cucas do planalto pesquisar todas as receitas possíveis com limões, pois apenas limonadas não darão conta da oferta. Da minha parte sugiro sobremesas: tortas, pavês, sorvetes...
Bem, o artigo nem foi terminado e já chegou a época da colheita.
Dizem os analistas que a economia inverteu o sinal, mas isso ficou de lado nas coberturas midiáticas. Agora só se fala de Roberto Jefferson, Correios e IRB (vocês conheciam este instituto?). O chamado, pela Veja, “Homem-bomba” resolveu se detonar. Só não sabemos ainda se foi uma implosão controlada ou uma explosão que abalará tudo ao seu redor.
E a raiz de tudo isso não é nada menos que a incompetência do governo em transformar os problemas em oportunidades. Combate-se a doença simplesmente aumentando a dose de remédio (veneno?).
Quando do estouro da primeira crise do atual governo, Waldomirica, limitou-se a afastar o pivô e, imagino eu, aumentar os mimos para que congressistas deixassem estas coisas para lá. Estava plantada a primeira árvore.
E assim foi seguindo a conduta crise após crise. Prometia-se mundos e fundos. Algumas vezes se cumpria, outras não. Porém o mais importante; uma mudança sobre o modo de fazer política na nossa nação, nem pensar.
Agora temos o pior cenário possível se montando na nossa frente. As massas indignadas, um governo com culpa no cartório (ao menos de omissão) e um congresso totalmente desorientado. Por menos do que isso aprendemos, naquele passado que parece tão remoto, o significado da palavra impeachment.
Agora caberá aos mestres-cucas do planalto pesquisar todas as receitas possíveis com limões, pois apenas limonadas não darão conta da oferta. Da minha parte sugiro sobremesas: tortas, pavês, sorvetes...
segunda-feira, 6 de junho de 2005
E o cheque foi descontado
Sabe aquele cheque em branco que o Lula daria para o deputado, foi descontado. Pelo menos metaforicamente, como é do agrado do presidente.
A CPI que o governo estava fazendo de tudo para sufocar, está mais viva do que nunca agora. E acho que ao será fácil matá-la, seja em comissão de constituição e justiça, seja em plenário.
E parece que o homem não está com medo de jogar nada no ventilador, começando pelos nomes que, segundo a Veja, José Dirceu temia ver incriminados em uma cpi “minimamente bem feita”.
Ou o Roberto Jefferson não é tão culpado assim ou ele está jogando muito alto para ter mais aliados no processo de abafa; do tipo, se tá ligado, não tenho nada a perder mano. Será que vão pagar para ver?
Creio que não, tanto é que antes da entrevista se falava que o “murrinha” Palocci estava liberando verbas. Era o famoso pagar para não ver. E, caso queiram continuar pagando agora, o preço vai subir, e muito.
E dá-lhe troca de favores, e dá-lhe verbas e dá-lhe cargos
Parodiando a personagem Professor Raimundo: E a ética, ohhhh!!!!
A CPI que o governo estava fazendo de tudo para sufocar, está mais viva do que nunca agora. E acho que ao será fácil matá-la, seja em comissão de constituição e justiça, seja em plenário.
E parece que o homem não está com medo de jogar nada no ventilador, começando pelos nomes que, segundo a Veja, José Dirceu temia ver incriminados em uma cpi “minimamente bem feita”.
Ou o Roberto Jefferson não é tão culpado assim ou ele está jogando muito alto para ter mais aliados no processo de abafa; do tipo, se tá ligado, não tenho nada a perder mano. Será que vão pagar para ver?
Creio que não, tanto é que antes da entrevista se falava que o “murrinha” Palocci estava liberando verbas. Era o famoso pagar para não ver. E, caso queiram continuar pagando agora, o preço vai subir, e muito.
E dá-lhe troca de favores, e dá-lhe verbas e dá-lhe cargos
Parodiando a personagem Professor Raimundo: E a ética, ohhhh!!!!
quinta-feira, 2 de junho de 2005
A pátria e outras péssimas invenções
Ontem, revendo Doutor Jivago (Doctor Zhivago, 1965), fiquei matutando sobre a essa invenção moderna que tanto maus-feitos trouxe para o mundo: a pátria. Para não pensarem que estou louco, ao associar um filme que fala de amores a este tema, o pano de fundo para os romances de Jivago é a Rússia do período revolucionário do começo do século passado.
Até bem pouco tempo, a espécie humana tinha apenas as relações culturais a definir quem era quem. Assim, se eu nascesse em uma família cigana, seria cigano, não importava onde ocorresse o parto. E teria o mundo como lar, livre para me mover enquanto meus meios me permitissem.
Mas em algum ponto da idade moderna surgiram os estados-nação e com eles o patriotismo, as guerras territoriais, o colonialismo, etc, etc, etc.
Não que estas coisas tenham nascido todas juntas e que antes não ocorressem guerras, dominações e sentimentos de posse e pertencimento a certas localidades, porém os estados-nação potencializaram muito todas estas coisas. Antigas fronteiras territoriais incertas e porosas passaram a ser motivo para disputas sangrentas. Locais de nascimento passaram a dizer muito sobre o caráter das pessoas, ao menos nas visões de não compatriotas. Terras sem monarcas, ou sem os mesmos “fortes”, passaram a ser vistas como terras-de-ninguém.
Ou seja, os estados-nação, apesar de serem vistos hoje como uma coisa natural como o ar - ou a maconha, segundo alguns cantores – foram uma das muitas invenções que trouxeram o desastre ao homem como espécie.
Sem ela, seguramente não haveríamos alcançado nunca este estágio de desenvolvimento no que menos é necessário: a industria armamentista. E provavelmente não teríamos estas injustiças regionais que nos assolam neste início de milênio.
O certo é que a naturalidade deles está apenas na cabeça de alguns. Na nossa, com certeza, uma vez que a nação brasileira e a pátria brasileira foram criadas juntas, evitando a dualidade das idéias, e para nós nacionalismo e patriotismo são sinônimos perfeitos e devem ambos ser incentivados.
Mas pergunte a um tuareg do Saara, ou a um czágo morador da Moldávia, ou ainda a um txucarramãe da Amazônia qual é sua pátria. Se ele conseguir entender a questão, e utilizar o nosso conceito de pátria, provavelmente a resposta não será a esperada.
Nestes tempos de globalização que, descontando-se a tecnologia, já foi muito maior no passado, o desmonte das pátrias deveria ser o projeto mais buscado por todas as pessoas. Os votos não contra a constituição européia da França e da Holanda mostram que esta é uma idéia que ainda não foi encampada pelas maiorias.
Se algo pequeno como a constituição da Europa não consegue ser implementada, imaginem uma globalização de fato.
Até bem pouco tempo, a espécie humana tinha apenas as relações culturais a definir quem era quem. Assim, se eu nascesse em uma família cigana, seria cigano, não importava onde ocorresse o parto. E teria o mundo como lar, livre para me mover enquanto meus meios me permitissem.
Mas em algum ponto da idade moderna surgiram os estados-nação e com eles o patriotismo, as guerras territoriais, o colonialismo, etc, etc, etc.
Não que estas coisas tenham nascido todas juntas e que antes não ocorressem guerras, dominações e sentimentos de posse e pertencimento a certas localidades, porém os estados-nação potencializaram muito todas estas coisas. Antigas fronteiras territoriais incertas e porosas passaram a ser motivo para disputas sangrentas. Locais de nascimento passaram a dizer muito sobre o caráter das pessoas, ao menos nas visões de não compatriotas. Terras sem monarcas, ou sem os mesmos “fortes”, passaram a ser vistas como terras-de-ninguém.
Ou seja, os estados-nação, apesar de serem vistos hoje como uma coisa natural como o ar - ou a maconha, segundo alguns cantores – foram uma das muitas invenções que trouxeram o desastre ao homem como espécie.
Sem ela, seguramente não haveríamos alcançado nunca este estágio de desenvolvimento no que menos é necessário: a industria armamentista. E provavelmente não teríamos estas injustiças regionais que nos assolam neste início de milênio.
O certo é que a naturalidade deles está apenas na cabeça de alguns. Na nossa, com certeza, uma vez que a nação brasileira e a pátria brasileira foram criadas juntas, evitando a dualidade das idéias, e para nós nacionalismo e patriotismo são sinônimos perfeitos e devem ambos ser incentivados.
Mas pergunte a um tuareg do Saara, ou a um czágo morador da Moldávia, ou ainda a um txucarramãe da Amazônia qual é sua pátria. Se ele conseguir entender a questão, e utilizar o nosso conceito de pátria, provavelmente a resposta não será a esperada.
Nestes tempos de globalização que, descontando-se a tecnologia, já foi muito maior no passado, o desmonte das pátrias deveria ser o projeto mais buscado por todas as pessoas. Os votos não contra a constituição européia da França e da Holanda mostram que esta é uma idéia que ainda não foi encampada pelas maiorias.
Se algo pequeno como a constituição da Europa não consegue ser implementada, imaginem uma globalização de fato.
sábado, 28 de maio de 2005
Pois é, a ética
E o Suplicy, sendo atacado porque resolveu seguir seus princípios?
A idéia era a seguinte, a bancado do PT votaria pelo sim, mas apenas se não houvesse mais jeito, aquele típico gesto para agradar a torcida. Depois que tudo estivesse resolvido, a CPI encaminhada, se estivesse, os senadores votariam em bloco pela abertura da mesma. Caso não fosse alcançado o número mínimo, ninguém assinava e ficava tudo por isso mesmo. Bonito, né?
E como Suplicy roeu a corda, os demais senadores ficaram contrariados. Ele não cumpriu o acordo com eles, coitadinhos.
Pois é, pessoal, nossos representantes têm uma opinião para a tarde e outra para a noite. Assinar a CPI quando nada está definido não pode, quando tudo está pode. E quando algum não é Maria-vai-com-as-outras os demais fazem birra, como em um grupo de adolescentes.
Até acredito que a fidelidade partidária é um bem para o sistema, mas a verdade é que não votamos nos partidos para nos representarem. Votamos em pessoas que estão, transitoriamente, filiadas a um partido. E se é assim, devemos crer que a consciência destes deve prevalecer aos desígnios da liderança do partido. Se não, que se mude o sistema político, a reforma não está aí a anos para ser votada e ninguém se mexe?
Evento após evento, discurso após discurso, bravata após bravata; os nossos políticos e partidos mostram que são sim, farinha do mesmo saco. E que gostam disto, pois na geléia geral, ou mar de lama como pensam alguns, podem fazer das suas sem ter que por a cabeça para fora da multidão e se destacar, para o bem ou para o mal.
Nosso imprensa sensacionalista não faz nada para diferenciá-los – no máximo diz que há bons e maus – e eles vão seguindo ou, citando Chico Buarque, “ ...a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa....”
A idéia era a seguinte, a bancado do PT votaria pelo sim, mas apenas se não houvesse mais jeito, aquele típico gesto para agradar a torcida. Depois que tudo estivesse resolvido, a CPI encaminhada, se estivesse, os senadores votariam em bloco pela abertura da mesma. Caso não fosse alcançado o número mínimo, ninguém assinava e ficava tudo por isso mesmo. Bonito, né?
E como Suplicy roeu a corda, os demais senadores ficaram contrariados. Ele não cumpriu o acordo com eles, coitadinhos.
Pois é, pessoal, nossos representantes têm uma opinião para a tarde e outra para a noite. Assinar a CPI quando nada está definido não pode, quando tudo está pode. E quando algum não é Maria-vai-com-as-outras os demais fazem birra, como em um grupo de adolescentes.
Até acredito que a fidelidade partidária é um bem para o sistema, mas a verdade é que não votamos nos partidos para nos representarem. Votamos em pessoas que estão, transitoriamente, filiadas a um partido. E se é assim, devemos crer que a consciência destes deve prevalecer aos desígnios da liderança do partido. Se não, que se mude o sistema político, a reforma não está aí a anos para ser votada e ninguém se mexe?
Evento após evento, discurso após discurso, bravata após bravata; os nossos políticos e partidos mostram que são sim, farinha do mesmo saco. E que gostam disto, pois na geléia geral, ou mar de lama como pensam alguns, podem fazer das suas sem ter que por a cabeça para fora da multidão e se destacar, para o bem ou para o mal.
Nosso imprensa sensacionalista não faz nada para diferenciá-los – no máximo diz que há bons e maus – e eles vão seguindo ou, citando Chico Buarque, “ ...a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando essa....”
quinta-feira, 26 de maio de 2005
E o vendaval?
Lula chamou o tsunami da Ásia de vendaval, Alckmin poderia chamar as chuvas de ontem disto também, pois elas podem ter arrasado uma de suas plataformas de campanha para a presidência da república.
Havia sido a três anos a última vez que o rui Tietê apresentou enchente, e não poderia ser em pior hora que veio acontecer novamente para Alckmin. Bem, pensando bem, poderia, caso fosse no ano que vem, que é o verdadeiramente importante para as pretensões dos presidenciáveis.
Se formos ver criteriosamente, a enchente não foi nada desastrosa comparando com o que poderia ter sido. Apesar das seis mortes que ocorreram no Estado, lembranças de tempos não tão remotos nos levam a crer que poderia ser bem pior. Primeiro pela intensidade da chuva, que dizem foi a mais forte das últimas quatro décadas. Depois pelo inusitado da época, dois meses depois da temporada de temporais, as famosas águas de março, pegando grande parte da população desprevenida.
Outro fato que deve ser levado em conta é o das marginais ficarem intransitáveis apenas após esta anomalia meteorológica. Mostra que as obras realizadas deram resultado.
Caberá a Alckmin tentar comunicar isto aos eleitores, mas o sonhado discurso de ter resolvido o problema de enchentes na marginal, esqueça, não poderá ser usado.
É mais uma arma que nosso governador perde apenas um ano antes da campanha.
Havia sido a três anos a última vez que o rui Tietê apresentou enchente, e não poderia ser em pior hora que veio acontecer novamente para Alckmin. Bem, pensando bem, poderia, caso fosse no ano que vem, que é o verdadeiramente importante para as pretensões dos presidenciáveis.
Se formos ver criteriosamente, a enchente não foi nada desastrosa comparando com o que poderia ter sido. Apesar das seis mortes que ocorreram no Estado, lembranças de tempos não tão remotos nos levam a crer que poderia ser bem pior. Primeiro pela intensidade da chuva, que dizem foi a mais forte das últimas quatro décadas. Depois pelo inusitado da época, dois meses depois da temporada de temporais, as famosas águas de março, pegando grande parte da população desprevenida.
Outro fato que deve ser levado em conta é o das marginais ficarem intransitáveis apenas após esta anomalia meteorológica. Mostra que as obras realizadas deram resultado.
Caberá a Alckmin tentar comunicar isto aos eleitores, mas o sonhado discurso de ter resolvido o problema de enchentes na marginal, esqueça, não poderá ser usado.
É mais uma arma que nosso governador perde apenas um ano antes da campanha.
Fiquem Robinho e outros mais
Como já escrevi em um texto anterior, não acredito que o êxodo de jogadores de futebol leve necessariamente ao enfraquecimento do nosso esporte, já que obriga a uma renovação constante de jogadores. Mas existe um porém.
Em um momento que o fenômeno esportivo move multidões e fortunas, ter pessoas com empatia com o público (possíveis consumidores) é uma mina de ouro, e é nisto que os clubes devem pensar antes de simplesmente vender, vender e vender.
Quando um time estrangeiro vem ao Brasil contratar uma de nossas promessas por milhares de dólares, não o faz por caridade, mas esperando obter lucro com a transação. Também não é por generosidade que jogadores dos times de ponta do futebol figuram entre os atletas mais bem pagos do mundo. Se estão nesta lista invejável é por que dão retorno financeiro, além do esportivo.
Foi amplamente noticiado que as contratações “galácticas” anuais do Real Madrid (Figo, Zidane, Ronaldinho, etc) deram retorno financeiro antes mesmo de pisarem no gramado, simplesmente com a venda de camiseta com o seu nome. Então, se o Real Madrid pode contratar estrelas anualmente e ainda obter retorno com isso, por que os times brasileiros não conseguem ao menos manter as que têm no elenco?
Será que único lugar onde o marketing funciona no mundo do futebol é o continente europeu? E de modo generalizado, para países como Ucrânia e Bélgica terem mais poder de atração para jogadores que o Brasil?
Mesmo levando-se em conta as desigualdades, nosso país tem uma economia muito maior do que estes dois, por exemplo ( como pode ser observado na seguinte página, http://www.nationmaster.com/graph-T/eco_gdp_ppp ).
Se não consegue segurar os jogadores, é muito mais uma questão de mal-gerenciamento do que falta de recursos. Senão, como explicar que jogadores que são ídolos aqui mias apenas desconhecidos lá, podem ter maior valor para os clubes europeus do que para os brasileiros?
Como entender que Robinho valha mais para o Real Madrid, que fica em uma cidade onde ninguém o conhece, do que para o Santos, situado em um estado no qual o movimento “Fica Robinho” já tomou as ruas?
Na verdade não vejo explicação. Muito do apelo que os times estrangeiros têm para nossos atletas é pelo deslumbramento do povo brasileiro por tudo que está lá (fora do Brasil), mas ninguém, ou quase ninguém, deixaria um local onde está adaptado e é ídolo, para ganhar menos em uma aventura no estrangeiro.
Se não conseguimos ao menos igualar as ofertas para que Robinho e companhia fiquem, não temos que culpar a situação geral do país, e sim a inoperância de nossos dirigentes esportivos que, perante o vasto arsenal de possibilidade de capitalizar os clubes com a imagem dos atletas, prefere usar apenas uma forma, a venda dos mesmos.
Em um momento que o fenômeno esportivo move multidões e fortunas, ter pessoas com empatia com o público (possíveis consumidores) é uma mina de ouro, e é nisto que os clubes devem pensar antes de simplesmente vender, vender e vender.
Quando um time estrangeiro vem ao Brasil contratar uma de nossas promessas por milhares de dólares, não o faz por caridade, mas esperando obter lucro com a transação. Também não é por generosidade que jogadores dos times de ponta do futebol figuram entre os atletas mais bem pagos do mundo. Se estão nesta lista invejável é por que dão retorno financeiro, além do esportivo.
Foi amplamente noticiado que as contratações “galácticas” anuais do Real Madrid (Figo, Zidane, Ronaldinho, etc) deram retorno financeiro antes mesmo de pisarem no gramado, simplesmente com a venda de camiseta com o seu nome. Então, se o Real Madrid pode contratar estrelas anualmente e ainda obter retorno com isso, por que os times brasileiros não conseguem ao menos manter as que têm no elenco?
Será que único lugar onde o marketing funciona no mundo do futebol é o continente europeu? E de modo generalizado, para países como Ucrânia e Bélgica terem mais poder de atração para jogadores que o Brasil?
Mesmo levando-se em conta as desigualdades, nosso país tem uma economia muito maior do que estes dois, por exemplo ( como pode ser observado na seguinte página, http://www.nationmaster.com/graph-T/eco_gdp_ppp ).
Se não consegue segurar os jogadores, é muito mais uma questão de mal-gerenciamento do que falta de recursos. Senão, como explicar que jogadores que são ídolos aqui mias apenas desconhecidos lá, podem ter maior valor para os clubes europeus do que para os brasileiros?
Como entender que Robinho valha mais para o Real Madrid, que fica em uma cidade onde ninguém o conhece, do que para o Santos, situado em um estado no qual o movimento “Fica Robinho” já tomou as ruas?
Na verdade não vejo explicação. Muito do apelo que os times estrangeiros têm para nossos atletas é pelo deslumbramento do povo brasileiro por tudo que está lá (fora do Brasil), mas ninguém, ou quase ninguém, deixaria um local onde está adaptado e é ídolo, para ganhar menos em uma aventura no estrangeiro.
Se não conseguimos ao menos igualar as ofertas para que Robinho e companhia fiquem, não temos que culpar a situação geral do país, e sim a inoperância de nossos dirigentes esportivos que, perante o vasto arsenal de possibilidade de capitalizar os clubes com a imagem dos atletas, prefere usar apenas uma forma, a venda dos mesmos.
terça-feira, 24 de maio de 2005
Quase
Estamos vivendo uma fase de quases na política nacional.
Primeiro foi o quase virgem Severino e agora é a quase saída do governo do P.T.B., para ajudar o presidente. Não que ele vai sair de fato; só, segundo a manchete da rede Bandnews, “colocará quase todos os cargos à disposição”.
O problema é que para certas coisas o quase não existe. Apesar do que disse o Severino, não há ninguém quase virgem, como não existem também os quase honestos ou quase independentes.
Então a questão é. O que o governo e o P.T.B. ganham com isso depois da porta arrombada?
O governo nada, seguramente. Se aceitar os cargos de volta, o que duvido, ou não, é a mesma coisa. Deixa a impressão que estava com um ninho de cobras em seu cerne e que nada fez, até as denúncias estourarem. No mínimo a imagem que fica é a de marido traído, no máximo de incentivador dos ofídios.
Como o estrago já está feito, resta tentar demonstrar que não era coisa generalizada, que foi apenas o erro de um funcionário do décimo escalão. Que a administração vai bem, obrigado e que as coisas só tendem a melhorar.
Já o P.T.B. tem muito a ganhar com a indignação e a jogada da saída. Ele - na verdade eles, já que um partido não tem vontade própria - demonstrará desapego ao poder. Mostrará que não necessita dos cargos para nada. Só os utilizava para ajudar o governo a fazer um serviço melhor. Pode até ser verdade, mas convenhamos, você acredita? E tudo isso apenas com a possibilidade, remota, de que Lula aceite os desligamentos.
De qualquer forma restará o quase. Severino era quase virgem ao casar, P.T.B. disponibiliza quase todos os cargos, o Atlético Paranaense foi quase campeão, o governo quase ...
Primeiro foi o quase virgem Severino e agora é a quase saída do governo do P.T.B., para ajudar o presidente. Não que ele vai sair de fato; só, segundo a manchete da rede Bandnews, “colocará quase todos os cargos à disposição”.
O problema é que para certas coisas o quase não existe. Apesar do que disse o Severino, não há ninguém quase virgem, como não existem também os quase honestos ou quase independentes.
Então a questão é. O que o governo e o P.T.B. ganham com isso depois da porta arrombada?
O governo nada, seguramente. Se aceitar os cargos de volta, o que duvido, ou não, é a mesma coisa. Deixa a impressão que estava com um ninho de cobras em seu cerne e que nada fez, até as denúncias estourarem. No mínimo a imagem que fica é a de marido traído, no máximo de incentivador dos ofídios.
Como o estrago já está feito, resta tentar demonstrar que não era coisa generalizada, que foi apenas o erro de um funcionário do décimo escalão. Que a administração vai bem, obrigado e que as coisas só tendem a melhorar.
Já o P.T.B. tem muito a ganhar com a indignação e a jogada da saída. Ele - na verdade eles, já que um partido não tem vontade própria - demonstrará desapego ao poder. Mostrará que não necessita dos cargos para nada. Só os utilizava para ajudar o governo a fazer um serviço melhor. Pode até ser verdade, mas convenhamos, você acredita? E tudo isso apenas com a possibilidade, remota, de que Lula aceite os desligamentos.
De qualquer forma restará o quase. Severino era quase virgem ao casar, P.T.B. disponibiliza quase todos os cargos, o Atlético Paranaense foi quase campeão, o governo quase ...
Uma verdadeira paixão nacional?
Capa das três revistas semanais de informação mais tradicionais que temos, a corrupção parece ser o tema do momento.
Veja e Época passeiam pelo assunto genericamente enquanto Istoé se concentra em uma denúncia de desvio de dinheiro da Igreja Universal para contas em paraíso fiscal, que teria a participação de senador Marcelo Crivella.
A profusão de reportagens sobre o assunto leva a crer que a corrupção está alcançando um novo estágio no Brasil; estaria muito mais aprofundada hoje do que já foi no passado.
Apesar das denúncias e comprovações quase diárias de falcatruas e malversações de verbas nos diversos níveis de governo e até da sociedade civil (como é o caso da denúncia envolvendo a Universal) não há nenhuma evidência concreta de que ela está crescendo.
A corrupção está incrustada na alma do nossa sociedade e aparece até em ocasiões acima de qualquer suspeita. Isto está na raiz de atos corriqueiros, como o oferecimento de cafezinho aos policiais em ronda pelas padarias e lanchonetes. Não é um ato de reconhecimento pelo bom serviço, mas um “incentivo” a permanecer mais tempo próximo ao estabelecimento em detrimento do resto da rota.
Para ilustrar melhor deixe-me contar três lembranças a respeito do tema.
Minha mãe tem um tio, hoje aposentado, que foi durante grande parte da vida fiscal da fazenda estadual. Não enricou, que era costume se falar pras bandas de Goiás, ao contrário de outros colegas do mesmo cargo. Entre os colegas e parentes, esta inaptidão para a corrupção não era vista como uma qualidade, muito pelo contrário. Se todos faziam, por que não ele?
Quando estava fazendo estágio obrigatório de curso técnico que freqüentei no segundo grau, o motor do carro do meu chefe fundiu. Somos a um desmanche para procurar um outro motor. Chegando lá, fomos atendidos pelo dono do estabelecimento que, se dizia policial, nos informou que o motor, e qualquer outra peça que quiséssemos poderia estar disponível no dia seguinte, sem ao menos consultar seu estoque e o de seus colegas de comércio de peças usadas. De se desconfiar, não?
É claro que fizemos a pesquisa em horário de serviço, que ninguém é de ferro.
Recentemente, voltando como caronista do nordeste, tive a possibilidade de verificar a atuação das polícias rodoviárias de nosso país. O caminhão em que estava foi parado em quase todos os postos que haviam no caminho. Rigor na fiscalização? Antes fosse.
Era apenas uma paradinha estratégica para que o caminhoneiro pudesse fazer sua contribuição “voluntária” aos policiais.
Com base nestas lembranças percebe-se que a corrupção está muito mais presente do que se parece, e não é de hoje.
Esta onda de visibilidade é apenas mais uma mostra de que a sociedade está aprendendo a vê-la menos como um fato da vida. Ela está assumindo uma outra face, a de um mal que deve ser combatido para o bem de toda a sociedade. Uma paixão nacional, no sentido de sofrimento que a palavra assume.
Veja e Época passeiam pelo assunto genericamente enquanto Istoé se concentra em uma denúncia de desvio de dinheiro da Igreja Universal para contas em paraíso fiscal, que teria a participação de senador Marcelo Crivella.
A profusão de reportagens sobre o assunto leva a crer que a corrupção está alcançando um novo estágio no Brasil; estaria muito mais aprofundada hoje do que já foi no passado.
Apesar das denúncias e comprovações quase diárias de falcatruas e malversações de verbas nos diversos níveis de governo e até da sociedade civil (como é o caso da denúncia envolvendo a Universal) não há nenhuma evidência concreta de que ela está crescendo.
A corrupção está incrustada na alma do nossa sociedade e aparece até em ocasiões acima de qualquer suspeita. Isto está na raiz de atos corriqueiros, como o oferecimento de cafezinho aos policiais em ronda pelas padarias e lanchonetes. Não é um ato de reconhecimento pelo bom serviço, mas um “incentivo” a permanecer mais tempo próximo ao estabelecimento em detrimento do resto da rota.
Para ilustrar melhor deixe-me contar três lembranças a respeito do tema.
Minha mãe tem um tio, hoje aposentado, que foi durante grande parte da vida fiscal da fazenda estadual. Não enricou, que era costume se falar pras bandas de Goiás, ao contrário de outros colegas do mesmo cargo. Entre os colegas e parentes, esta inaptidão para a corrupção não era vista como uma qualidade, muito pelo contrário. Se todos faziam, por que não ele?
Quando estava fazendo estágio obrigatório de curso técnico que freqüentei no segundo grau, o motor do carro do meu chefe fundiu. Somos a um desmanche para procurar um outro motor. Chegando lá, fomos atendidos pelo dono do estabelecimento que, se dizia policial, nos informou que o motor, e qualquer outra peça que quiséssemos poderia estar disponível no dia seguinte, sem ao menos consultar seu estoque e o de seus colegas de comércio de peças usadas. De se desconfiar, não?
É claro que fizemos a pesquisa em horário de serviço, que ninguém é de ferro.
Recentemente, voltando como caronista do nordeste, tive a possibilidade de verificar a atuação das polícias rodoviárias de nosso país. O caminhão em que estava foi parado em quase todos os postos que haviam no caminho. Rigor na fiscalização? Antes fosse.
Era apenas uma paradinha estratégica para que o caminhoneiro pudesse fazer sua contribuição “voluntária” aos policiais.
Com base nestas lembranças percebe-se que a corrupção está muito mais presente do que se parece, e não é de hoje.
Esta onda de visibilidade é apenas mais uma mostra de que a sociedade está aprendendo a vê-la menos como um fato da vida. Ela está assumindo uma outra face, a de um mal que deve ser combatido para o bem de toda a sociedade. Uma paixão nacional, no sentido de sofrimento que a palavra assume.
segunda-feira, 23 de maio de 2005
Energia alternativa
Na revista Istoé desta semana há uma reportagem sobre o Proinfa (Programa de incentivo às fontes alternativas de energia).
Segundo a revista, por uma série de erros dos gestores do programa, está se comprando mais do tipo de energia mais caro e menos do mais barato.
Só que há um porém. Caro e barato são critérios relativos, ou você nunca ouviu sua avó dizendo que o barato sai caro.
As três maneiras de se conseguir energia, da tarifa mais alta para a mais barata, citadas pelo texto são por meio de usinas eólicas, hidrelétricas de pequeno porte e de biomassa.
Se formos observar a tarifação, veremos que há um sentido ecológico. Elas estão na ordem inversa de impacto ambiental. Não sei se este foi um critério para a remuneraçã – desconfio que sim – mas caso tenha sido, acertou em cheio na tentativa de implementar formas menos predatórias de se conseguir gerar energia.
Só não acho correto julgar uma medida de fomento de mudança na matriz energética apenas pelos valores brutos das tarifas. Se esse fosse o caso nunca teríamos o Pró-alcool, que no início era profundamente subsidiado pelo governo federal.
Menos válido ainda é julgá-la por ações judiciais de empresas que se sentiram lesadas.
Quanto ao valor da tarifa deve-se levar em conta que o não-impacto ambiental, ou a redução do mesmo, também traz lucros sociais e econômicos para a comunidade em geral, que podem e devem ser precificados. Se esta precificação está correta ou não, cabe a estudos técnicos decidir e só aí sim julgar.
Quanto à ação judicial, o fato de ser ainda cabível de recurso não nos autoriza a acreditar que tudo está errado com relação ao Proinfa.
Mesmo porque um juizado de primeira instância pode ser adequado para dizer se as leis e regras foram cumpridas, mas do ponto de vista técnico o órgão a ser consultado é a Aneeel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A matriz energética é uma questão central para o progresso de uma nação. Discuti-la apenas com base na tarifa é uma simplificação perigosa.
Basta ver que a opção norte-americana pelas termoelétricas (de baixo custo de implantação e operação) leva a uma dependência exagerada do petróleo estrangeiro, e a todos os ônus que isto traz.
Segundo a revista, por uma série de erros dos gestores do programa, está se comprando mais do tipo de energia mais caro e menos do mais barato.
Só que há um porém. Caro e barato são critérios relativos, ou você nunca ouviu sua avó dizendo que o barato sai caro.
As três maneiras de se conseguir energia, da tarifa mais alta para a mais barata, citadas pelo texto são por meio de usinas eólicas, hidrelétricas de pequeno porte e de biomassa.
Se formos observar a tarifação, veremos que há um sentido ecológico. Elas estão na ordem inversa de impacto ambiental. Não sei se este foi um critério para a remuneraçã – desconfio que sim – mas caso tenha sido, acertou em cheio na tentativa de implementar formas menos predatórias de se conseguir gerar energia.
Só não acho correto julgar uma medida de fomento de mudança na matriz energética apenas pelos valores brutos das tarifas. Se esse fosse o caso nunca teríamos o Pró-alcool, que no início era profundamente subsidiado pelo governo federal.
Menos válido ainda é julgá-la por ações judiciais de empresas que se sentiram lesadas.
Quanto ao valor da tarifa deve-se levar em conta que o não-impacto ambiental, ou a redução do mesmo, também traz lucros sociais e econômicos para a comunidade em geral, que podem e devem ser precificados. Se esta precificação está correta ou não, cabe a estudos técnicos decidir e só aí sim julgar.
Quanto à ação judicial, o fato de ser ainda cabível de recurso não nos autoriza a acreditar que tudo está errado com relação ao Proinfa.
Mesmo porque um juizado de primeira instância pode ser adequado para dizer se as leis e regras foram cumpridas, mas do ponto de vista técnico o órgão a ser consultado é a Aneeel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
A matriz energética é uma questão central para o progresso de uma nação. Discuti-la apenas com base na tarifa é uma simplificação perigosa.
Basta ver que a opção norte-americana pelas termoelétricas (de baixo custo de implantação e operação) leva a uma dependência exagerada do petróleo estrangeiro, e a todos os ônus que isto traz.
quinta-feira, 19 de maio de 2005
É time no nacional
Existia uma velha máxima da política, nos tempos da ditadura, que dizia “onde a Arena vai mal, é time no nacional, e onde vai bem, bota um time também”. Hoje as coisas são diferentes, ninguém faz demagogia com times de futebol – se bem que se fomos matutar ainda existe a bancada da bola e vem aí a timemania - só que, pode ser apenas coincidência, sempre que estoura um escândalo no governo, a Polícia Federal estoura um esquema de corrupção. Se o governo vai mal, chama a Federal; se vai bem, chama ela também.
O bom de tudo isso é que, como escândalo é o que não falta aqui, a Polícia Federal está aparecendo mais do que nunca. Nem dá tempo de repercutir uma ação, ou operação (nome mais ao gosto do comando da instituição). Em um dia é a maior quadrilha de contrabandistas do Brasil, no outro um bando de fraudadores da previdência social que movimenta bilhões, e no seguinte um esquema milionário de desvio de verbas do programa de merenda escolar.
Apesar de, paradoxalmente, cada prisão dar àqueles que dizem ser a impunidade imensa no país mais munição, isto mostra que a chance dela estar diminuindo é muito grande.
Só resta pedir aos nossos políticos e gestores públicos que cessem um pouco a maré no chamado “mar de lama”. Os policiais federais também são gente e precisam de um tempinho para descansar. E as nossas cadeias, carceragens e prisões já estão superlotadas.
E talvez seja tempo dos jornalistas darem um tempo no uso de adjetivos quando o assunto for crimes, a quantidade de vezes que se ouve, ou lê, milionário, maior e outros nomes para dizer intensidade do delito, não para de aumentar. Podemos acabar cansando o público ou fazendo-os crer que quando o crime envolve menos que seis zeros, não vale a pena comentar.
O bom de tudo isso é que, como escândalo é o que não falta aqui, a Polícia Federal está aparecendo mais do que nunca. Nem dá tempo de repercutir uma ação, ou operação (nome mais ao gosto do comando da instituição). Em um dia é a maior quadrilha de contrabandistas do Brasil, no outro um bando de fraudadores da previdência social que movimenta bilhões, e no seguinte um esquema milionário de desvio de verbas do programa de merenda escolar.
Apesar de, paradoxalmente, cada prisão dar àqueles que dizem ser a impunidade imensa no país mais munição, isto mostra que a chance dela estar diminuindo é muito grande.
Só resta pedir aos nossos políticos e gestores públicos que cessem um pouco a maré no chamado “mar de lama”. Os policiais federais também são gente e precisam de um tempinho para descansar. E as nossas cadeias, carceragens e prisões já estão superlotadas.
E talvez seja tempo dos jornalistas darem um tempo no uso de adjetivos quando o assunto for crimes, a quantidade de vezes que se ouve, ou lê, milionário, maior e outros nomes para dizer intensidade do delito, não para de aumentar. Podemos acabar cansando o público ou fazendo-os crer que quando o crime envolve menos que seis zeros, não vale a pena comentar.
quarta-feira, 18 de maio de 2005
A grande marcha
No nosso país, marcha e parada não são coisas que remetem a guerra, mas a festa.
No Jornal Nacional de ontem, por exemplo, um operador de turismo relatou que a Parada Gay de São Paulo é um sucesso entre os turistas porque ao contrário das normais que existem mundo afora, nas quais o que vigora é o protesto, é muito festiva.
Porém não é a Parada Gay nosso assunto, nem mesmo uma marcha – embora há uma marcha na história. O assunto é o M.S.T. e suas idéias.
Ontem se encerrou a Marcha do Movimento dos Sem-Terra, que estava se portando mais como uma caminhada até que alguns quebra-quebras ocorreram, então foi uma marcha mesmo, beligerante. Entre as reivindicações que foram entregues às autoridades havia duas um tanto quanto inusitadas: a da proscrição dos transgênicos e a exigência, por parte do governo brasileiro, para que os norte-americanos retirem suas tropas do Iraque.
O inusitado da primeira não é tanto pela bandeira, uma vez que os transgênicos costumam ser cultivados por agricultores, mas sim pelo desconhecimento de caso. Em uma entrevista concedida à revista Época da semana passada, João Pedro Stedile, coordenador nacional do movimento afirmou que este é contra os transgênicos porque eles exterminam a biodiversidade.
Se formos examinar o discurso veremos que ele é duplamente errado. A transgenia é, por definição, um aumento de diversidade genética e o perigo para a biodiversidade não é oferecido por ela; é pela agricultura de modo geral, por menos agressiva que esta seja ao meio-ambiente. O ato de se fazer agricultura é o de escolher, entre determinadas variedades, aquelas que mais se adaptam as suas necessidades, excluindo as demais. A transgenia apenas acelera ou radicaliza o processo.
A segunda reivindicação é inusitada porque explicita o que o M.S.T. é. Um projeto político de tomada do poder, no qual a menor das preocupações é o assentamento de famílias.
Não que seja errado tentar a tomada de poder pela ideologia. O problema é quando isso é feito de forma escamoteada; só pode gerar conflito.
Querendo chegar ao poder, recrutando militância e se recusando a institucionalizar sua situação legal, como partido político ou mesmo uma O.S.C.I.P. (organização da social civil de interesse público), o M.S.T. mostra o desprezo pelas regras da sociedade em que está inserido.
Conflitos em que as partes não se respeitam podem descambar para a luta corporal ou armada. Isto já acontece nos rincões pela posse da terra. Espero que não se generalize pelo restante da sociedade.
No Jornal Nacional de ontem, por exemplo, um operador de turismo relatou que a Parada Gay de São Paulo é um sucesso entre os turistas porque ao contrário das normais que existem mundo afora, nas quais o que vigora é o protesto, é muito festiva.
Porém não é a Parada Gay nosso assunto, nem mesmo uma marcha – embora há uma marcha na história. O assunto é o M.S.T. e suas idéias.
Ontem se encerrou a Marcha do Movimento dos Sem-Terra, que estava se portando mais como uma caminhada até que alguns quebra-quebras ocorreram, então foi uma marcha mesmo, beligerante. Entre as reivindicações que foram entregues às autoridades havia duas um tanto quanto inusitadas: a da proscrição dos transgênicos e a exigência, por parte do governo brasileiro, para que os norte-americanos retirem suas tropas do Iraque.
O inusitado da primeira não é tanto pela bandeira, uma vez que os transgênicos costumam ser cultivados por agricultores, mas sim pelo desconhecimento de caso. Em uma entrevista concedida à revista Época da semana passada, João Pedro Stedile, coordenador nacional do movimento afirmou que este é contra os transgênicos porque eles exterminam a biodiversidade.
Se formos examinar o discurso veremos que ele é duplamente errado. A transgenia é, por definição, um aumento de diversidade genética e o perigo para a biodiversidade não é oferecido por ela; é pela agricultura de modo geral, por menos agressiva que esta seja ao meio-ambiente. O ato de se fazer agricultura é o de escolher, entre determinadas variedades, aquelas que mais se adaptam as suas necessidades, excluindo as demais. A transgenia apenas acelera ou radicaliza o processo.
A segunda reivindicação é inusitada porque explicita o que o M.S.T. é. Um projeto político de tomada do poder, no qual a menor das preocupações é o assentamento de famílias.
Não que seja errado tentar a tomada de poder pela ideologia. O problema é quando isso é feito de forma escamoteada; só pode gerar conflito.
Querendo chegar ao poder, recrutando militância e se recusando a institucionalizar sua situação legal, como partido político ou mesmo uma O.S.C.I.P. (organização da social civil de interesse público), o M.S.T. mostra o desprezo pelas regras da sociedade em que está inserido.
Conflitos em que as partes não se respeitam podem descambar para a luta corporal ou armada. Isto já acontece nos rincões pela posse da terra. Espero que não se generalize pelo restante da sociedade.
terça-feira, 17 de maio de 2005
Continuando
A respeito da coluna de ontem, não que as histórias tenham desaparecido completamente do cinema, nem que todos os filmes do passado tivessem roteiristas maravilhosos, mas temos que admitir que o enredo ficou em segundo plano por um bom tempo, principalmente no cinema norte-americano.
Se no passado existiam filmes que eram apenas veículos para a música e/ou dança, como os musicais, hoje temos alguns que são veículos para a venda de mercadorias, em uma inversão da lógica de mercado anterior.
Se antes se pensava em fazer um filme para depois se vender produtos relacionados, caso este fosse bem-sucedidos, hoje se pensa em uma linha de produtos para depois se construir um enredo e encaixá-la na história.
Algo que pode mostrar como são completamente diferentes os processos, é a da construção dos personagens da comédia “A pantera cor-de-rosa” (The pink panther, 1964), cuja abertura e o encerramento mostraram ao mundo um personagem que viria a ter lugar no mundo como um dos mais cultuados desenhos animados de todos os tempos, e da animação “Toy Story” (idem, 1995), que teve intricadas negociações contratuais que levaram os produtores a vetar este ou aquele personagem – Barbie foi cogitada como par romântico do vaqueiro Wooody.
Ambos os filmes conseguiram resultados além do esperado e são plenamente satisfatórios como entretenimento e legaram séries de animação posteriores, porém a visão de que uma personagem concebida apenas para a abertura de um filme se tornasse o sucesso que foi a pantera cor-de-rosa escancara algo que os marqueteiros (sic) de hoje chamariam de ingenuidade.
As diferentes propostas podem ser vistas também nas versões modernas de filmes antigos. Tomemos como exemplo os dois “Professor aloprado” (The nutty professor, 1963 e 1996), no primeiro, com Jerry Lewis como ator principal, o aloprado em questão é um professor de química nerd que utiliza seus conhecimento para inventar uma fórmula que lhe dá o que faltava para se tornar um garanhão – auto-confiança – enquanto que no segundo, com Eddy Murphy, a fórmula mudá-lhe completamente o corpo, abrindo flancos para uma infinidade de efeitos especiais e maquiagem. A comédia de situação passa a ser algo muito mais físico, ou até além disto.
Este predomínio da forma sobre o conteúdo, que dominou o cinema norte-americano com a chegada da geração de diretores que tem como expoentes George Lucas e Steven Spielberg e teve como ápice os anos noventa do século passado, parece estar declinando. Veremos o que emergirá no futuro.
Se no passado existiam filmes que eram apenas veículos para a música e/ou dança, como os musicais, hoje temos alguns que são veículos para a venda de mercadorias, em uma inversão da lógica de mercado anterior.
Se antes se pensava em fazer um filme para depois se vender produtos relacionados, caso este fosse bem-sucedidos, hoje se pensa em uma linha de produtos para depois se construir um enredo e encaixá-la na história.
Algo que pode mostrar como são completamente diferentes os processos, é a da construção dos personagens da comédia “A pantera cor-de-rosa” (The pink panther, 1964), cuja abertura e o encerramento mostraram ao mundo um personagem que viria a ter lugar no mundo como um dos mais cultuados desenhos animados de todos os tempos, e da animação “Toy Story” (idem, 1995), que teve intricadas negociações contratuais que levaram os produtores a vetar este ou aquele personagem – Barbie foi cogitada como par romântico do vaqueiro Wooody.
Ambos os filmes conseguiram resultados além do esperado e são plenamente satisfatórios como entretenimento e legaram séries de animação posteriores, porém a visão de que uma personagem concebida apenas para a abertura de um filme se tornasse o sucesso que foi a pantera cor-de-rosa escancara algo que os marqueteiros (sic) de hoje chamariam de ingenuidade.
As diferentes propostas podem ser vistas também nas versões modernas de filmes antigos. Tomemos como exemplo os dois “Professor aloprado” (The nutty professor, 1963 e 1996), no primeiro, com Jerry Lewis como ator principal, o aloprado em questão é um professor de química nerd que utiliza seus conhecimento para inventar uma fórmula que lhe dá o que faltava para se tornar um garanhão – auto-confiança – enquanto que no segundo, com Eddy Murphy, a fórmula mudá-lhe completamente o corpo, abrindo flancos para uma infinidade de efeitos especiais e maquiagem. A comédia de situação passa a ser algo muito mais físico, ou até além disto.
Este predomínio da forma sobre o conteúdo, que dominou o cinema norte-americano com a chegada da geração de diretores que tem como expoentes George Lucas e Steven Spielberg e teve como ápice os anos noventa do século passado, parece estar declinando. Veremos o que emergirá no futuro.
segunda-feira, 16 de maio de 2005
Nostalgia do que não vivi
Na semana daquele que será o maior lançamento cinematográfico do ano - o sexto (ou terceiro, depende de como se encara) “Guerra nas Estrelas”: “A vingança dos Sith” - assisti a um filme na tv que me fez refletir sobre o cinema ao qual temos acesso hoje.
Este filme foi “Ensina-me a viver” (Harold and Maude, 1971), rodado antes mesmo do meu nascimento. Uma certa nostalgia do que não vivi se passou porque o filme se baseia simplesmente na história; ao contrário das superproduções de hoje, que são mais veículos para mostrar as inovações tecnológicas da indústria do entretenimento e nos quais as histórias são quase acessórias.
Não que eu tenha gostado particularmente do filme. Os personagens não são simpáticos e não fiquei fascinado com a atuação de nenhum ator, mas chega a surpreender que um filme mais antigo do que eu ainda provoque em mim algum tipo de sentimento, mesmo estando completamente fora do contexto no qual foi filmado.
Isto se deve principalmente ao fato que o que realmente importa no filme é a temática universal. Trata de amor, relações familiares, conflito entre gerações, sentimento de pertinência, etc. Tudo tendo como pano de fundo a paixão de uma idosa pela vida e o fascínio de um jovem rapaz pela morte, que ao final da trama parecem se inverter.
Apenas o fato deste filme ter sido rodado já mostra o quanto o cinema mudou nestas pouco mais de três décadas que separam “Ensina-me a viver” de “A vingança dos Sith”. O primeiro só tinha a boa história a impulsioná-lo; nem a muleta definitiva para os chamados filmes sérios há, pois os atores do filme não são particularmente bonitos ou mesmo famosos. O segundo tem como principal atrativo os cerca de 90 minutos de efeitos especiais, além de elenco particularmente bonito e personagens muito, muito conhecidos.
Vivi durante toda a minha vida uma certa ditadura cinematográfica dos filmes para adolescentes, e não posso dizer que não aproveitei a fase quando era um (tendo inclusive Guerra nas Estrelas como um dos meus ícones), porém toda a ditadura cansa algum dia e não sei se é acaso minha saudade de filmes centrados na história, com os quais tive muito pouco contato.
Este filme foi “Ensina-me a viver” (Harold and Maude, 1971), rodado antes mesmo do meu nascimento. Uma certa nostalgia do que não vivi se passou porque o filme se baseia simplesmente na história; ao contrário das superproduções de hoje, que são mais veículos para mostrar as inovações tecnológicas da indústria do entretenimento e nos quais as histórias são quase acessórias.
Não que eu tenha gostado particularmente do filme. Os personagens não são simpáticos e não fiquei fascinado com a atuação de nenhum ator, mas chega a surpreender que um filme mais antigo do que eu ainda provoque em mim algum tipo de sentimento, mesmo estando completamente fora do contexto no qual foi filmado.
Isto se deve principalmente ao fato que o que realmente importa no filme é a temática universal. Trata de amor, relações familiares, conflito entre gerações, sentimento de pertinência, etc. Tudo tendo como pano de fundo a paixão de uma idosa pela vida e o fascínio de um jovem rapaz pela morte, que ao final da trama parecem se inverter.
Apenas o fato deste filme ter sido rodado já mostra o quanto o cinema mudou nestas pouco mais de três décadas que separam “Ensina-me a viver” de “A vingança dos Sith”. O primeiro só tinha a boa história a impulsioná-lo; nem a muleta definitiva para os chamados filmes sérios há, pois os atores do filme não são particularmente bonitos ou mesmo famosos. O segundo tem como principal atrativo os cerca de 90 minutos de efeitos especiais, além de elenco particularmente bonito e personagens muito, muito conhecidos.
Vivi durante toda a minha vida uma certa ditadura cinematográfica dos filmes para adolescentes, e não posso dizer que não aproveitei a fase quando era um (tendo inclusive Guerra nas Estrelas como um dos meus ícones), porém toda a ditadura cansa algum dia e não sei se é acaso minha saudade de filmes centrados na história, com os quais tive muito pouco contato.
sexta-feira, 13 de maio de 2005
E o casal Garotinho?
Bem, a justiça os declarou inelegíveis até o ano de 2007.
Isto cai como uma bomba nas pretensões de Antony de se candidatar como uma alternativa ao presidente Lula.
É verdade que isto é apenas uma decisão de primeira instância e muita água rolará ainda. Só que este fato pode acarretar em mais problemas para o governo no trâmite das leis no Congresso.
Visto como um opositor quase certo nas eleições do ano que vem ao atual presidente, sua saída pode facilitar as conversas para que o PMDB, que atualmente faz parte da base aliado do governo, se contente com o cargo de vice em uma coalizão com o PT. Só que a bancada peemedebista fluminense, que já é apontada como o grande empecilho para uma aliança, pode endurecer ainda mais as negociações.
Então ficamos com um quadro de melhoria para a reeleição de Lula e ainda maior instabilidade na suposta base aliada no Congresso.
O resultado? Será ver para crer.
Isto cai como uma bomba nas pretensões de Antony de se candidatar como uma alternativa ao presidente Lula.
É verdade que isto é apenas uma decisão de primeira instância e muita água rolará ainda. Só que este fato pode acarretar em mais problemas para o governo no trâmite das leis no Congresso.
Visto como um opositor quase certo nas eleições do ano que vem ao atual presidente, sua saída pode facilitar as conversas para que o PMDB, que atualmente faz parte da base aliado do governo, se contente com o cargo de vice em uma coalizão com o PT. Só que a bancada peemedebista fluminense, que já é apontada como o grande empecilho para uma aliança, pode endurecer ainda mais as negociações.
Então ficamos com um quadro de melhoria para a reeleição de Lula e ainda maior instabilidade na suposta base aliada no Congresso.
O resultado? Será ver para crer.
Relembrando a escravatura
Neste 13 de maio, celebraram-se, e se celebrarão ainda, de muitas e variadas formas o término oficial da escravatura no Brasil. Há exatos 117 anos a Lei Áurea era assinada.
Muito já se falou, explicou, intuiu a respeito da motivação que levou a assinatura da lei, o mesmo valendo para as conseqüências dela. O fato é que hoje, 2005, vivemos em um dos países mais desiguais do mundo.
E muitos creditam ao preconceito racial esta desigualdade e pedem ações afirmativas para corrigir isto. Sou, a princípio, contrário a toda e qualquer ação afirmativa no Brasil, principalmente nos meios de admissão aos postos de serviço e de educação públicos ( ver o texto sobre política de cotas em http://eudiscordomesmo.blogspot.com/2005/04/poltica-de-cotas-raciais.html ).
Não acredito que a discriminação é um bom caminho para combater a discriminação. Acho até que ela é uma forma de acentuá-la. E quem aponta os Estados Unidos, berço das ações afirmativas, como exemplo deve verificar que os únicos locais onde os negros e latinos, as minorias discriminadas de lá, estão sobre-representadas são na prisão e no exército. Será que este negócio realmente funciona mesmo?
Isto não significa, porém que nada deve ser feito. A luta por mais justiça social deve ser de toda a sociedade, desde o mais rico até o mais pobre. É um dos paradoxos do capitalismo que ele funcione melhor em sociedade com grande equilíbrio social e de renda (aí quanto mais alta melhor), mas que tenda a concentrar a renda. É um sistema que tende ao desequilíbrio social e econômico intrinsecamente.
Mas, já que não se encontrou nada melhor para ser aplicado ainda, é com este sistema que vamos, e devemos tentar encontrar meios de deter esta tendência. Todos sairão ganhando, pois em casos de maior equidade há reflexos positivos no mercado de trabalho e menor tensões sociais.
E os melhores meios para deter, e às vezes reverter, esta tendência de concentração de renda parecem ser a educação e a democracia. Artigos que faltam no Brasil, senão na quantidade, na qualidade.
Então, espero que nos futuros 13 de maio se pense menos nas diferenças de cor de pele e mais em políticas de melhoria das escolas públicas e de captação para o voto e a função pública.
Muito já se falou, explicou, intuiu a respeito da motivação que levou a assinatura da lei, o mesmo valendo para as conseqüências dela. O fato é que hoje, 2005, vivemos em um dos países mais desiguais do mundo.
E muitos creditam ao preconceito racial esta desigualdade e pedem ações afirmativas para corrigir isto. Sou, a princípio, contrário a toda e qualquer ação afirmativa no Brasil, principalmente nos meios de admissão aos postos de serviço e de educação públicos ( ver o texto sobre política de cotas em http://eudiscordomesmo.blogspot.com/2005/04/poltica-de-cotas-raciais.html ).
Não acredito que a discriminação é um bom caminho para combater a discriminação. Acho até que ela é uma forma de acentuá-la. E quem aponta os Estados Unidos, berço das ações afirmativas, como exemplo deve verificar que os únicos locais onde os negros e latinos, as minorias discriminadas de lá, estão sobre-representadas são na prisão e no exército. Será que este negócio realmente funciona mesmo?
Isto não significa, porém que nada deve ser feito. A luta por mais justiça social deve ser de toda a sociedade, desde o mais rico até o mais pobre. É um dos paradoxos do capitalismo que ele funcione melhor em sociedade com grande equilíbrio social e de renda (aí quanto mais alta melhor), mas que tenda a concentrar a renda. É um sistema que tende ao desequilíbrio social e econômico intrinsecamente.
Mas, já que não se encontrou nada melhor para ser aplicado ainda, é com este sistema que vamos, e devemos tentar encontrar meios de deter esta tendência. Todos sairão ganhando, pois em casos de maior equidade há reflexos positivos no mercado de trabalho e menor tensões sociais.
E os melhores meios para deter, e às vezes reverter, esta tendência de concentração de renda parecem ser a educação e a democracia. Artigos que faltam no Brasil, senão na quantidade, na qualidade.
Então, espero que nos futuros 13 de maio se pense menos nas diferenças de cor de pele e mais em políticas de melhoria das escolas públicas e de captação para o voto e a função pública.
quinta-feira, 12 de maio de 2005
E aqueles que devemos seguir
A imprensa e os analistas já decretaram, devemos seguir o modelo chinês se quisermos ser alguma coisa na vida.
A principal prova é o assombroso superávit comercial que o país (China) tem, já que eles exportam mias de 500 bilhões de dólares e baseiam sua economia na exportação. Se tivéssemos o “grande” superávit que eles têm poderíamos ser então menos vulneráveis externamente. Seria verdade, caso não houvesse um pequeno detalhe, nosso superávit fiscal é maior do que o deles.
Não muito maior, é verdade; poderíamos dizer até que eles estão mo mesmo patamar, por volta de 30 bilhões de dólares. Na verdade, se eles ganham no volume de comércio, não são mais internacionalizados do que nós. Se utilizássemos um índice de comércio, como o fluxo internacional de mercadorias pelo número de habitantes, veríamos que um brasileiro tem mais peso proporcional que um chinês.
O que mantêm os superávits na balança de pagamentos em patamares assustadores – atualmente por volta de 80 bilhões anuais - é a retenção de dólares pela entrada de capital externo para o investimento em fábricas sobre domínio estrangeiro ou “joint ventures” com empreendedores locais.
Então se há um segredo a ser procurado na China não é no montante de exportações, é na atração e manutenção de investidores externos. É em procurar ajudar os empreendedores. É em não dificultar absurdamente a abertura de empresas; o que é feito aqui.
Em quase todo o resto, das mazelas às vantagens, já somos muito parecidos.
A principal prova é o assombroso superávit comercial que o país (China) tem, já que eles exportam mias de 500 bilhões de dólares e baseiam sua economia na exportação. Se tivéssemos o “grande” superávit que eles têm poderíamos ser então menos vulneráveis externamente. Seria verdade, caso não houvesse um pequeno detalhe, nosso superávit fiscal é maior do que o deles.
Não muito maior, é verdade; poderíamos dizer até que eles estão mo mesmo patamar, por volta de 30 bilhões de dólares. Na verdade, se eles ganham no volume de comércio, não são mais internacionalizados do que nós. Se utilizássemos um índice de comércio, como o fluxo internacional de mercadorias pelo número de habitantes, veríamos que um brasileiro tem mais peso proporcional que um chinês.
O que mantêm os superávits na balança de pagamentos em patamares assustadores – atualmente por volta de 80 bilhões anuais - é a retenção de dólares pela entrada de capital externo para o investimento em fábricas sobre domínio estrangeiro ou “joint ventures” com empreendedores locais.
Então se há um segredo a ser procurado na China não é no montante de exportações, é na atração e manutenção de investidores externos. É em procurar ajudar os empreendedores. É em não dificultar absurdamente a abertura de empresas; o que é feito aqui.
Em quase todo o resto, das mazelas às vantagens, já somos muito parecidos.
Até que enfim
Passados mais de dois anos de mandato, parece que finalmente o governo petista resolveu por as mãos na massa e passar a governar o país.
O marco pode ser o veto presidencial para o aumento dos salários dos funcionários do Congresso, baseados em uma possível inconstitucionalidade do aumento.
Por mais que fosse merecido o aumento, e não farei juízo de valor neste ponto, ele não com certeza a maior prioridade no momento. Mesmo porque os funcionários do Senado e da Câmara estão entre os melhor remunerados no país.
Ao desafiar os congressistas e os funcionários subordinados a estes, o governo Lula pode estar retomando o comando do país. Como é dito a muito, governar e estabelecer prioridades e, se quer ser reconhecido como um governo progressista, este que agora está no Palácio da Alvorada precisa perseguir as metas que ele próprio traçou durante a campanha eleitoral.
A este ponto ele já deve ter percebido que entregar parcelas do comando incondicionalmente para grupos de pressão não vai tornar estas metas mais próximas. Se a necessidade de uma coalizão de forças é clara; isto tem que ser realmente isto, não um amontoado de panelinhas que não se comunicam sob um pretenso controle do presidente.
O primeiro passo foi barrar este reajuste prometido pelos congressistas (os membros das casas onde o Governo tem teoricamente maioria e, portanto, deveria controlar as decisões que de lá saem). Se o congresso não consegue ajudar a implementação de projeto nacional que o PT tem, que o PT pelo menos tente impedi-lo de atrapalhar.
O marco pode ser o veto presidencial para o aumento dos salários dos funcionários do Congresso, baseados em uma possível inconstitucionalidade do aumento.
Por mais que fosse merecido o aumento, e não farei juízo de valor neste ponto, ele não com certeza a maior prioridade no momento. Mesmo porque os funcionários do Senado e da Câmara estão entre os melhor remunerados no país.
Ao desafiar os congressistas e os funcionários subordinados a estes, o governo Lula pode estar retomando o comando do país. Como é dito a muito, governar e estabelecer prioridades e, se quer ser reconhecido como um governo progressista, este que agora está no Palácio da Alvorada precisa perseguir as metas que ele próprio traçou durante a campanha eleitoral.
A este ponto ele já deve ter percebido que entregar parcelas do comando incondicionalmente para grupos de pressão não vai tornar estas metas mais próximas. Se a necessidade de uma coalizão de forças é clara; isto tem que ser realmente isto, não um amontoado de panelinhas que não se comunicam sob um pretenso controle do presidente.
O primeiro passo foi barrar este reajuste prometido pelos congressistas (os membros das casas onde o Governo tem teoricamente maioria e, portanto, deveria controlar as decisões que de lá saem). Se o congresso não consegue ajudar a implementação de projeto nacional que o PT tem, que o PT pelo menos tente impedi-lo de atrapalhar.
quarta-feira, 11 de maio de 2005
Memórias seletivas
Está havendo uma onda de pedidos de desculpa por parte de governos para com povos ou etnias.
Lula pediu desculpas pelo tratamento que os negros africanos receberam aqui, porém não o fez para com os índios.
Ocorreram pedidos de desculpas de uma série de atos, sendo os alemães os campeões de retratações, tendo inaugurado recentemente um monumento aos judeus. Mas ciganos e poloneses que pereceram na II Guerra aos milhões também não foram citados.
Os japoneses estão sendo criticados pelos chineses pelas conseqüências de anos de guerra e ocupações em seus territórios, e estão se recusando a aceitar a culpa.
Muito bonito no campo simbólico, mas não vejo o mínimo sentido nisto.
Todas as nações atuais, das mais primitivas às mais avançadas, construíram sua cultura, economia e raízes étnicas sobre os escombros de outras. Mesmo internamente ocorreram bilhões de atos de massacre e de exploração.
Por quê deve ser mais culpado Hitler do que Stalin perante os soviéticos se o primeiro causou menos mortes do que o segundo para o seu próprio povo? O mesmo acontecendo com relação aos japoneses e a revolução cultural chinesa, que causou mortes aos milhões - para retirar do seio chinês aqueles que tivessem inclinação capitalista, que tanto o Partido Comunista de hoje incentiva-, mudou-se a ideologia os crimes do passado perderam as forças?
Reavivar os atos passados, mesmo que pela forma de um pedido de perdão, tem mais valor como ato demagógico para com as vítimas do que qualquer outro.
O pedido de desculpas de Lula é um bom exemplo. A nação brasileira teve de fato suas bases construídas na escravidão negra, mas hoje grande parte dela é formada por descendentes destes escravos. Ficam então no papel de vítima e algoz.
Existem também aqueles que chegaram muito tempo depois da abolição; como por exemplo, os orientais que começaram a chegar ao Brasil apenas no século passado. São eles também culpados pelos atos pelos quais Lula pediu perdão?
Podemos ser responsabilizados apenas pelos atos sobre os quais temos possibilidade de escolha. A atribuição de culpa intergeracionais foi o motivo usado pela maioria dos atos mais brutais dos quais a humanidade tem notícia. O holocausto dos judeus talvez seja o exemplo mais eloqüente. Foi baseado fortemente no martírio de Jesus.
Ao tentarmos fazer agrados às vítimas de outrora podemos estar municiando os algozes de amanhã. E tudo pelo passado, que como diz o próprio nome, já passou. Pode ser estudado, mas não mudado. Pedidos de perdão não trarão ninguém de volta e não redimiram ninguém; por mais que manifestantes clamem por eles.
Lula pediu desculpas pelo tratamento que os negros africanos receberam aqui, porém não o fez para com os índios.
Ocorreram pedidos de desculpas de uma série de atos, sendo os alemães os campeões de retratações, tendo inaugurado recentemente um monumento aos judeus. Mas ciganos e poloneses que pereceram na II Guerra aos milhões também não foram citados.
Os japoneses estão sendo criticados pelos chineses pelas conseqüências de anos de guerra e ocupações em seus territórios, e estão se recusando a aceitar a culpa.
Muito bonito no campo simbólico, mas não vejo o mínimo sentido nisto.
Todas as nações atuais, das mais primitivas às mais avançadas, construíram sua cultura, economia e raízes étnicas sobre os escombros de outras. Mesmo internamente ocorreram bilhões de atos de massacre e de exploração.
Por quê deve ser mais culpado Hitler do que Stalin perante os soviéticos se o primeiro causou menos mortes do que o segundo para o seu próprio povo? O mesmo acontecendo com relação aos japoneses e a revolução cultural chinesa, que causou mortes aos milhões - para retirar do seio chinês aqueles que tivessem inclinação capitalista, que tanto o Partido Comunista de hoje incentiva-, mudou-se a ideologia os crimes do passado perderam as forças?
Reavivar os atos passados, mesmo que pela forma de um pedido de perdão, tem mais valor como ato demagógico para com as vítimas do que qualquer outro.
O pedido de desculpas de Lula é um bom exemplo. A nação brasileira teve de fato suas bases construídas na escravidão negra, mas hoje grande parte dela é formada por descendentes destes escravos. Ficam então no papel de vítima e algoz.
Existem também aqueles que chegaram muito tempo depois da abolição; como por exemplo, os orientais que começaram a chegar ao Brasil apenas no século passado. São eles também culpados pelos atos pelos quais Lula pediu perdão?
Podemos ser responsabilizados apenas pelos atos sobre os quais temos possibilidade de escolha. A atribuição de culpa intergeracionais foi o motivo usado pela maioria dos atos mais brutais dos quais a humanidade tem notícia. O holocausto dos judeus talvez seja o exemplo mais eloqüente. Foi baseado fortemente no martírio de Jesus.
Ao tentarmos fazer agrados às vítimas de outrora podemos estar municiando os algozes de amanhã. E tudo pelo passado, que como diz o próprio nome, já passou. Pode ser estudado, mas não mudado. Pedidos de perdão não trarão ninguém de volta e não redimiram ninguém; por mais que manifestantes clamem por eles.
terça-feira, 10 de maio de 2005
Em vão
Ontem mais um aposentado morreu na fila de ambulatório. Não estava em atendimento. Estava apenas esperando sua vez para pegar uma senha e, quem sabe, receber atendimento médico. Certamente não foi o único aposentado a morrer ontem.
Semana passada trigêmeos morreram em um hospital em Marabá, em parte porque não havia UTI neonatal nele.Certamente não foram os únicos três bebês a morrer no Pará na semana passada.
O quê estes casos têm de especial então? Bem, nestes dois casos, além das mortes terem sido em vão, foi jogado dinheiro público pela janela também. Tudo pela lógica de poupar um pouco oferecendo um atendimento de má qualidade ou simplesmente omitindo o atendimento.
Antes de morrer na fila, o aposentado em questão havia, segundo foi noticiado, passado por dois atendimentos médicos em dois hospitais ou postos de saúde diferentes. Como não melhorou, resolveu tentar mais um. Não teve tempo, mas fica-se com a certeza de que algo errado havia no reino da Dinamarca.
Havia necessidade de passar por três diferentes atendimentos? Não sei, porém isto mostra que das duas uma: ou o serviço público de saúde estava desacreditado perante o aposentado ou os atendimentos haviam sido muito ruins.O fato é que ele está em vias de provocar a terceira consulta, o que acarretaria um custo de três vezes o que teria sido necessário para atendê-lo bem caso tivessem tomado este cuidado na primeira vez.
No caso dos trigêmeos, a mãe – uma adolescente, diga-se de passagem – foi surpreendida pelo tamanho da prole, pois não havia feito nenhum exame pré-natal. Caso tivesse feito todos os exames de praxe, que são obrigação legal do estado nacional prover, seria sabido que as crianças necessitariam de cuidados especiais, como a UTI neonatal. Como não haviam sido feitos, e a cidade onde foi feito o parto tríplice não possui uma única vaga deste tipo, as crianças faleceram.
É claro que em ambos os casos podemos dizer que ocorreu uma fatalidade e que os óbitos poderiam ter acontecido de qualquer forma, com ou sem atendimento médico adequado. Mas podemos certamente dizer que a omissão de um serviço público de qualidade causou gastos maiores do que o que teriam sido caso bem executados a priori.
Estes são casos isolados, porém certamente este desperdício é levado quase ao estado da arte aqui no Brasil.
Podemos citar as internações por desnutrição e doenças causadas por falta de saneamento. A tentativa de curá-las é provavelmente muito mais onerosa aos cofres públicos do que seria evitá-las pela via de acabar com a desnutrição e a contaminação. No caso do saneamento básico já li artigos nos quais os valores calculados são de quatro economizados para cada real investido.
Não precisamos nem falar que a qualidade de vida seria muito maior caso ocorressem estas práticas de se priorizar o primeiro atendimento bem feito e a prevenção.
Mas não precisamos nem falar também que muitas mortes em vão e muito desperdício de dinheiro acontecerão até que estas práticas sejam seriamente adotadas.
Semana passada trigêmeos morreram em um hospital em Marabá, em parte porque não havia UTI neonatal nele.Certamente não foram os únicos três bebês a morrer no Pará na semana passada.
O quê estes casos têm de especial então? Bem, nestes dois casos, além das mortes terem sido em vão, foi jogado dinheiro público pela janela também. Tudo pela lógica de poupar um pouco oferecendo um atendimento de má qualidade ou simplesmente omitindo o atendimento.
Antes de morrer na fila, o aposentado em questão havia, segundo foi noticiado, passado por dois atendimentos médicos em dois hospitais ou postos de saúde diferentes. Como não melhorou, resolveu tentar mais um. Não teve tempo, mas fica-se com a certeza de que algo errado havia no reino da Dinamarca.
Havia necessidade de passar por três diferentes atendimentos? Não sei, porém isto mostra que das duas uma: ou o serviço público de saúde estava desacreditado perante o aposentado ou os atendimentos haviam sido muito ruins.O fato é que ele está em vias de provocar a terceira consulta, o que acarretaria um custo de três vezes o que teria sido necessário para atendê-lo bem caso tivessem tomado este cuidado na primeira vez.
No caso dos trigêmeos, a mãe – uma adolescente, diga-se de passagem – foi surpreendida pelo tamanho da prole, pois não havia feito nenhum exame pré-natal. Caso tivesse feito todos os exames de praxe, que são obrigação legal do estado nacional prover, seria sabido que as crianças necessitariam de cuidados especiais, como a UTI neonatal. Como não haviam sido feitos, e a cidade onde foi feito o parto tríplice não possui uma única vaga deste tipo, as crianças faleceram.
É claro que em ambos os casos podemos dizer que ocorreu uma fatalidade e que os óbitos poderiam ter acontecido de qualquer forma, com ou sem atendimento médico adequado. Mas podemos certamente dizer que a omissão de um serviço público de qualidade causou gastos maiores do que o que teriam sido caso bem executados a priori.
Estes são casos isolados, porém certamente este desperdício é levado quase ao estado da arte aqui no Brasil.
Podemos citar as internações por desnutrição e doenças causadas por falta de saneamento. A tentativa de curá-las é provavelmente muito mais onerosa aos cofres públicos do que seria evitá-las pela via de acabar com a desnutrição e a contaminação. No caso do saneamento básico já li artigos nos quais os valores calculados são de quatro economizados para cada real investido.
Não precisamos nem falar que a qualidade de vida seria muito maior caso ocorressem estas práticas de se priorizar o primeiro atendimento bem feito e a prevenção.
Mas não precisamos nem falar também que muitas mortes em vão e muito desperdício de dinheiro acontecerão até que estas práticas sejam seriamente adotadas.
segunda-feira, 9 de maio de 2005
A semana da linguagem
Nossos governantes conseguiram esta semana que passou o que muitos acadêmicos das letras tentam há anos, colocar a língua portuguesa (ou seria brasileira?) no centro do debate jornalístico nacional.
Começou com Lula e o seu pedido de traseiros mais atuantes do que os que costumamos ver entre os correntistas de banco. Depois veio a cartilha de linguagem politicamente correta da Secretaria de Direitos Humanos. Seguiu-se do acidente horrível que escapou por entre os dentes de Severino Cavalcanti, sem falar da semivirgindade que ele acabou de inventar.
Mas ao contrário do que gostariam os acadêmicos, a coisa toda resvalou para a total galhofa. Daí a pessoas ficarem contrariadas por não se respeitar as autoridades. Outras indignadas por não se incorporar as “desenvolvidas” preocupações com a linguagem. Outras ainda felizes por ter mais uma piada pronta.
O colunista José Simão pôde finalmente ver impressa uma versão acabada da sua Cartilha do Lula (que já virou uma característica de sua coluna na Folha de São Paulo e de seu programa na TvUol). João Ubaldo Ribeiro teve amplo espaço para exercitar sua verve cômica com neologismos como gento e pessoo em sua coluna de O Estado de S. Paulo. Até colunistas estrangeiros meteram o bedelho.
Como se vê, a política nacional - e sua cobertura pelos meios de comunicação - chegou as raias da nonsense. Questões maiúsculas, como os trabalhos parlamentares suspensos na prática, são deixadas de lado para repercutir a uso de uma ou outra palavra mal-colocada.
No caso dos deslizes dos presidentes não há muito o que se falar. Mostra muito mais uma incapacidade de adequar a linguagem para uma grande diversidade de ouvintes do que qualquer outra coisa. Ambos falam como se estivessem em seus lares, não importando se para uma platéia de empresários, de sociólogos ou de sindicalizados. Vez ou outra escorregam termos que ferem ouvidos mais sensíveis. Os deslizes podem até ser utilizados pelos opositores, porém não passam de folclore.
No caso da cartilha é algo completamente diferente. Ela foi pensada por uma série de pessoas, durante um sem-número de horas e com uma profusão de dinheiro público. Foi lançada e rapidamente recolhida. O mínimo que se pode dizer a respeito dela é que se tratou de desperdício de verbas.
E o pior é que foi um desperdício baseado totalmente em idéias importadas dos Estados Unidos, que de grande inimigo externo da época de oposição passou a ser um modelo a ser seguido pelo governo Lula para suas políticas de inclusão social.
Vai lá, se os usos de palavras escolhidas a dedo tornassem os preconceitos sociais, raciais ou outrem qualquer menores, poderíamos até apoiar medidas como estas. Mas isso não ocorre, muito pelo contrário. Toda a palavra é carregada de um conceito anterior, logo um pré-conceito, senão não teria função alguma, sendo apenas um conjunto de sons. Ao querer forçar o uso de outras em lugar daquelas já consagradas pelo uso, só se conseguirá a explicitação dos conceitos negativos e a eliminação dos positivos.
Só quero saber pra quê?
Começou com Lula e o seu pedido de traseiros mais atuantes do que os que costumamos ver entre os correntistas de banco. Depois veio a cartilha de linguagem politicamente correta da Secretaria de Direitos Humanos. Seguiu-se do acidente horrível que escapou por entre os dentes de Severino Cavalcanti, sem falar da semivirgindade que ele acabou de inventar.
Mas ao contrário do que gostariam os acadêmicos, a coisa toda resvalou para a total galhofa. Daí a pessoas ficarem contrariadas por não se respeitar as autoridades. Outras indignadas por não se incorporar as “desenvolvidas” preocupações com a linguagem. Outras ainda felizes por ter mais uma piada pronta.
O colunista José Simão pôde finalmente ver impressa uma versão acabada da sua Cartilha do Lula (que já virou uma característica de sua coluna na Folha de São Paulo e de seu programa na TvUol). João Ubaldo Ribeiro teve amplo espaço para exercitar sua verve cômica com neologismos como gento e pessoo em sua coluna de O Estado de S. Paulo. Até colunistas estrangeiros meteram o bedelho.
Como se vê, a política nacional - e sua cobertura pelos meios de comunicação - chegou as raias da nonsense. Questões maiúsculas, como os trabalhos parlamentares suspensos na prática, são deixadas de lado para repercutir a uso de uma ou outra palavra mal-colocada.
No caso dos deslizes dos presidentes não há muito o que se falar. Mostra muito mais uma incapacidade de adequar a linguagem para uma grande diversidade de ouvintes do que qualquer outra coisa. Ambos falam como se estivessem em seus lares, não importando se para uma platéia de empresários, de sociólogos ou de sindicalizados. Vez ou outra escorregam termos que ferem ouvidos mais sensíveis. Os deslizes podem até ser utilizados pelos opositores, porém não passam de folclore.
No caso da cartilha é algo completamente diferente. Ela foi pensada por uma série de pessoas, durante um sem-número de horas e com uma profusão de dinheiro público. Foi lançada e rapidamente recolhida. O mínimo que se pode dizer a respeito dela é que se tratou de desperdício de verbas.
E o pior é que foi um desperdício baseado totalmente em idéias importadas dos Estados Unidos, que de grande inimigo externo da época de oposição passou a ser um modelo a ser seguido pelo governo Lula para suas políticas de inclusão social.
Vai lá, se os usos de palavras escolhidas a dedo tornassem os preconceitos sociais, raciais ou outrem qualquer menores, poderíamos até apoiar medidas como estas. Mas isso não ocorre, muito pelo contrário. Toda a palavra é carregada de um conceito anterior, logo um pré-conceito, senão não teria função alguma, sendo apenas um conjunto de sons. Ao querer forçar o uso de outras em lugar daquelas já consagradas pelo uso, só se conseguirá a explicitação dos conceitos negativos e a eliminação dos positivos.
Só quero saber pra quê?
sexta-feira, 6 de maio de 2005
Cruzada?
Hoje estreou mundialmente “Cruzada”, filme de Ridley Scott (“Kingdom of Heaven”, 2005). Não vi, mas uma coisa me intriga.
Pelo que tenho lido na imprensa, apesar de tratar de um embate entre as forças católicas e muçulmanas pelo controle de Jerusalém, o filme não trata de uma cruzada. Muito pelo contrário, seria no máximo uma anti-cruzada, pois os atacantes aí são as forças islâmicas comandadas por Saladino – que por coincidência nasceu na mesma Tikrit de Saddam Hussein. Até onde sei não foi motivada por motivos religiosos também, como era o caso das Cruzadas.
É verdade que o nome em inglês não faz menção ao termo, sendo que algum tradutor deve ter pensado que Reino do Céu não iria levar muitas pessoas para as salas de cinema. Porém o uso da palavra céu para descrever uma cidadezinha perdida no Oriente Médio já se faz pensar nas conotações religiosas envolvidas no filme.
No momento que se vive um embate entre parcelas fundamentalistas das duas religiões com mais adeptos no mundo, isto é ao mesmo tempo um chamariz fácil para vender ingressos e pode tornar-se mais uma fonte de atritos entre os “guerreiros” de fé. Como sabemos, quanto alguém quer brigar, uma olhada de lado é motivo suficiente.
Mesmo porque em um filme de duas horas e vinte e cinco minutos não se conseguirá mostrar as duas versões da história e, sendo um filme de guerra, alguém vai ser mostrado como o vilão. Sendo Orlando Bloom um reconhecido “mocinho” hollywoodiano, provavelmente o lado errado vai ser o vencedor; o muçulmano ou “de lá”.
Ridley Scott é um diretor já consagrado com sucessos como “Thelma e Louise”, “Blade runner” e “Gladiador” e não precisaria de um sucesso fácil movido pelo preconceito e sensacionalismo barato, mas se formos pensar logicamente, a guerra que exacerbou este conflito fundamentalista não teria acontecido também.
E $130 milhões (de dólares) podem fazer qualquer estúdio partir para a baixaria na tentativa de recuperá-los. Aproveitar as manchetes de uma guerra que está acontecendo neste momento com muçulmanos radicais tentando expulsar combatentes estrangeiros não seria a maior já cometida.
Ao apelar para um nome que expõe abertamente o conflito religioso da trama os tradutores brasileiros não dever ter sido francamente contra os estrategistas mundiais dos estúdios Fox. Ainda mais quando estão faltando com a precisão dos fatos históricos.
Quando estreou a 5 anos atrás, “Gladiador” trouxe de volta aos cinemas os épicos históricos que já haviam feito fortunas e construído carreiras dos estúdios americanos nos anos 50 e 60, como “Ben-hur”, que já renderam frutos com “Alexandre” e “Tróia” e neste “Cruzada”. “Paixão de Cristo” ressuscitou o cinema bíblico, que talvez teve seu melhor momento em “Os dez mandamentos”. Só espero que “Cruzada” não inicie uma onda anti-islâmica em uma indústria que é dada a modismos e simplificações.
Maniqueísmo é tudo que menos se precisa no mundo atual, já cheio de radicais para todas as matérias possíveis e imagináveis. As artes, que são a área onde isto menos vigora, não precisam de uma onda disso.
Pelo que tenho lido na imprensa, apesar de tratar de um embate entre as forças católicas e muçulmanas pelo controle de Jerusalém, o filme não trata de uma cruzada. Muito pelo contrário, seria no máximo uma anti-cruzada, pois os atacantes aí são as forças islâmicas comandadas por Saladino – que por coincidência nasceu na mesma Tikrit de Saddam Hussein. Até onde sei não foi motivada por motivos religiosos também, como era o caso das Cruzadas.
É verdade que o nome em inglês não faz menção ao termo, sendo que algum tradutor deve ter pensado que Reino do Céu não iria levar muitas pessoas para as salas de cinema. Porém o uso da palavra céu para descrever uma cidadezinha perdida no Oriente Médio já se faz pensar nas conotações religiosas envolvidas no filme.
No momento que se vive um embate entre parcelas fundamentalistas das duas religiões com mais adeptos no mundo, isto é ao mesmo tempo um chamariz fácil para vender ingressos e pode tornar-se mais uma fonte de atritos entre os “guerreiros” de fé. Como sabemos, quanto alguém quer brigar, uma olhada de lado é motivo suficiente.
Mesmo porque em um filme de duas horas e vinte e cinco minutos não se conseguirá mostrar as duas versões da história e, sendo um filme de guerra, alguém vai ser mostrado como o vilão. Sendo Orlando Bloom um reconhecido “mocinho” hollywoodiano, provavelmente o lado errado vai ser o vencedor; o muçulmano ou “de lá”.
Ridley Scott é um diretor já consagrado com sucessos como “Thelma e Louise”, “Blade runner” e “Gladiador” e não precisaria de um sucesso fácil movido pelo preconceito e sensacionalismo barato, mas se formos pensar logicamente, a guerra que exacerbou este conflito fundamentalista não teria acontecido também.
E $130 milhões (de dólares) podem fazer qualquer estúdio partir para a baixaria na tentativa de recuperá-los. Aproveitar as manchetes de uma guerra que está acontecendo neste momento com muçulmanos radicais tentando expulsar combatentes estrangeiros não seria a maior já cometida.
Ao apelar para um nome que expõe abertamente o conflito religioso da trama os tradutores brasileiros não dever ter sido francamente contra os estrategistas mundiais dos estúdios Fox. Ainda mais quando estão faltando com a precisão dos fatos históricos.
Quando estreou a 5 anos atrás, “Gladiador” trouxe de volta aos cinemas os épicos históricos que já haviam feito fortunas e construído carreiras dos estúdios americanos nos anos 50 e 60, como “Ben-hur”, que já renderam frutos com “Alexandre” e “Tróia” e neste “Cruzada”. “Paixão de Cristo” ressuscitou o cinema bíblico, que talvez teve seu melhor momento em “Os dez mandamentos”. Só espero que “Cruzada” não inicie uma onda anti-islâmica em uma indústria que é dada a modismos e simplificações.
Maniqueísmo é tudo que menos se precisa no mundo atual, já cheio de radicais para todas as matérias possíveis e imagináveis. As artes, que são a área onde isto menos vigora, não precisam de uma onda disso.
quinta-feira, 5 de maio de 2005
Caindo no bambu
Malandro é malandro e mané é mané, já dizia Bezerra da Silva, mas além de nascer de bigode o bom malandro sabe que não é em todo lugar que pode exercitar seus, assim digamos, dotes malandristícos. Para isso tem hora e lugar.
Meu amigo, o China, enunciou a Teoria da queda no bambu. Não há nenhuma conotação sexual aí, ele só demonstrou que a presunção, a inocência ou a ignorância – e certamente uma combinação delas – sempre leva ao desastre. O nome da teoria vem da experiência norte-americana na Guerra do Vietnã, na qual soldados equipados com o que de melhor havia na época (o que levava à presunção de vitória) e não-adaptados às condições da mata (inocência ou ignorância do que podiam encontrar) acabaram derrotados pelos nativos. É verdade que os nativos tinham um certo apoio logístico e de fornecimento de armas leves dos soviéticos, mas o que conta é que a nação norte-americana caiu no bambu, e alguns soldados também.
Voltando a malandragem, quanto mais malandra a pessoa - ou país - se acha, mais próxima está de cair no bambu. Vejamos, os países ricos criaram a OMC (Organização Mundial do Comércio) para regular o mundo, acreditando que por ter uma experiência maior em comércio exterior seria sempre vitoriosa dos contenciosos. Isso foi verdade por muito tempo, mas agora o jogo está começando a virar.
Ocorreu o contencioso do algodão. Estados Unidos contra uma série de países sub-desenvolvidos. Pela lógica os americanos iriam ganhar fácil. Não foi o que aconteceu, já perderam em última instância. Baaaammmmbu.
Daí veio o do açúcar. União Européia contra os grandes produtores mundiais que não utilizam o subsídio como forma de incrementar exportações (Brasil, Índia e Austrália principalmente). Europeus confiantes na vitória, mas... Outro baaaaaammmmbu.
Por que eu estou falando a respeito disso, você pode estar se perguntando? Bem, O Brasil está querendo por a as asinhas pra fora. Este governo está a cada momento tentando ser um protagonista maior da geopolítica internacional.
É a intervenção no Haiti, é a formação do grupo dos 20, é a organização do encontro de Cúpula Árabe-latino-ameircana, é, é, é ... é a tentativa de repentinamente abraçar o mundo.
Não que ser um protagonista seja ruim. Na maioria das vezes é muito bom. Todos os holofotes sobre você. É consultado sobre tudo. Tem mordomias. Mas, e há sempre os mas, tem também as responsabilidades, a diminuição da margem de erro, ser chamado a resolver os problemas alheios mesmo não tendo feito nada para criá-los.
É o se preocupar se também a política do Equador, como se a nossa já não fosse preocupante o suficiente.
E a cada momento estamos mais perto de ocupar a tão sonhada cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU (apesar de ainda estarmos bem distante). Já é hora de pensarmos o que faremos depois de sentar nela. Temos um plano para o depois? Será que estamos apenas correndo o mais rápido possível para tropeçar e acabarmos empalados em uma fossa com bambus?
Está na hora de provar que somos malandros e não manés.
Meu amigo, o China, enunciou a Teoria da queda no bambu. Não há nenhuma conotação sexual aí, ele só demonstrou que a presunção, a inocência ou a ignorância – e certamente uma combinação delas – sempre leva ao desastre. O nome da teoria vem da experiência norte-americana na Guerra do Vietnã, na qual soldados equipados com o que de melhor havia na época (o que levava à presunção de vitória) e não-adaptados às condições da mata (inocência ou ignorância do que podiam encontrar) acabaram derrotados pelos nativos. É verdade que os nativos tinham um certo apoio logístico e de fornecimento de armas leves dos soviéticos, mas o que conta é que a nação norte-americana caiu no bambu, e alguns soldados também.
Voltando a malandragem, quanto mais malandra a pessoa - ou país - se acha, mais próxima está de cair no bambu. Vejamos, os países ricos criaram a OMC (Organização Mundial do Comércio) para regular o mundo, acreditando que por ter uma experiência maior em comércio exterior seria sempre vitoriosa dos contenciosos. Isso foi verdade por muito tempo, mas agora o jogo está começando a virar.
Ocorreu o contencioso do algodão. Estados Unidos contra uma série de países sub-desenvolvidos. Pela lógica os americanos iriam ganhar fácil. Não foi o que aconteceu, já perderam em última instância. Baaaammmmbu.
Daí veio o do açúcar. União Européia contra os grandes produtores mundiais que não utilizam o subsídio como forma de incrementar exportações (Brasil, Índia e Austrália principalmente). Europeus confiantes na vitória, mas... Outro baaaaaammmmbu.
Por que eu estou falando a respeito disso, você pode estar se perguntando? Bem, O Brasil está querendo por a as asinhas pra fora. Este governo está a cada momento tentando ser um protagonista maior da geopolítica internacional.
É a intervenção no Haiti, é a formação do grupo dos 20, é a organização do encontro de Cúpula Árabe-latino-ameircana, é, é, é ... é a tentativa de repentinamente abraçar o mundo.
Não que ser um protagonista seja ruim. Na maioria das vezes é muito bom. Todos os holofotes sobre você. É consultado sobre tudo. Tem mordomias. Mas, e há sempre os mas, tem também as responsabilidades, a diminuição da margem de erro, ser chamado a resolver os problemas alheios mesmo não tendo feito nada para criá-los.
É o se preocupar se também a política do Equador, como se a nossa já não fosse preocupante o suficiente.
E a cada momento estamos mais perto de ocupar a tão sonhada cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU (apesar de ainda estarmos bem distante). Já é hora de pensarmos o que faremos depois de sentar nela. Temos um plano para o depois? Será que estamos apenas correndo o mais rápido possível para tropeçar e acabarmos empalados em uma fossa com bambus?
Está na hora de provar que somos malandros e não manés.
terça-feira, 3 de maio de 2005
O problema é de demanda
Donald Rumsfeld (Secretário de Defesa dos Estados Unidos), em uma entrevista coletiva concedida ontem, falou o óbvio. Disse que o problema das drogas ilícitas que circulam pelo mundo não é só de oferta, é também de demanda.
Em outras palavras, ele finalmente reconheceu o que todos sabem. Não adianta mandar fuzileiros para erradicar plantações de papoulas no Afeganistão ou a força aérea pulverizar plantações de coca na Colômbia. Se os dependentes continuarem demandando as drogas, o máximo que ocorrerá é a mudança dos locais de plantação ou a substituição do tipo de droga usada por uma mais fácil aquisição.
Sendo que a demanda por drogas, lícitas ou ilícitas, nunca refluiu na cultura humana – até onde eu sei, pelo menos -, isto equivale a uma confissão de que não se sabe o que fazer para resolver o problema.
Eu sou pela liberalização geral. Não consigo entender porquê uma droga como a cocaína não é liberada e o álcool é. Ambas são potencialmente danosas para os usuários, ambas causam dependência e ambas movimentam fortunas. Só que uma pode levar o comerciante para a cadeia e a outra não.
Sou da opinião que o que causa mais problemas no caso das drogas ilícitas é justamente o fato de que elas são ilegais. O que faz com que se crie um mundo totalmente paralelo em volta do comércio, circulação e fabricação dos entorpecentes.
Sendo ilícitas, todas as fases envolvidas acabam por gerar mais crimes, em um ciclo que acaba necessariamente terminando em violência. Nenhuma das partes tem a possibilidade de reclamar seu direito na justiça, o que faz que as desavenças sejam resolvidas todas na força; quer dizer, na bala.
Cada novo ilícito gera uma infinidade de outros. Por exemplo, o dinheiro ganho na venda de drogas não pode ir diretamente para um banco ou qualquer outra instituição financeira, então tem que ser “lavado” ou “reciclado” (uso para financiar outro tipo de crime, como contrabando ou roubo a bancos).
Sem contar a desagregação social que uma indústria que não tem como se integrar causa. Os doentes (dependentes) têm dificuldades para conseguir tratamento, os “comerciantes” não têm nenhum tipo de suporte para a melhoria de seus negócios e os “funcionários” não têm nenhum tipo de previdência social para ajudá-los e aos seus familiares. Suporte que talvez nem seja mesmo necessário, a maioria não sobrevive o tempo suficiente para precisar de aposentadoria ou algo parecido.
E o produto comercializado não tem nenhuma garantia de segurança para o usuário, nem dos componentes da mistura nem das proporções. Podendo ser desde um placebo inócuo – a melhor hipótese – até um verdadeiro veneno.
Por tudo isso, acredito que seria muito mais prático para a nossa sociedade tentar integrar o comércio e o uso de drogas que hoje são ilícitas ao lado “visível” e cumpridor das leis do que ficar brandindo justificativas morais para segregá-los, enquanto outras drogas são largamente utilizadas, contando até com o incentivo das propagandas em TV.
Quando se obriga alguém a viver como um marginal, ele se torna um. Aí Inês é morta.
Em outras palavras, ele finalmente reconheceu o que todos sabem. Não adianta mandar fuzileiros para erradicar plantações de papoulas no Afeganistão ou a força aérea pulverizar plantações de coca na Colômbia. Se os dependentes continuarem demandando as drogas, o máximo que ocorrerá é a mudança dos locais de plantação ou a substituição do tipo de droga usada por uma mais fácil aquisição.
Sendo que a demanda por drogas, lícitas ou ilícitas, nunca refluiu na cultura humana – até onde eu sei, pelo menos -, isto equivale a uma confissão de que não se sabe o que fazer para resolver o problema.
Eu sou pela liberalização geral. Não consigo entender porquê uma droga como a cocaína não é liberada e o álcool é. Ambas são potencialmente danosas para os usuários, ambas causam dependência e ambas movimentam fortunas. Só que uma pode levar o comerciante para a cadeia e a outra não.
Sou da opinião que o que causa mais problemas no caso das drogas ilícitas é justamente o fato de que elas são ilegais. O que faz com que se crie um mundo totalmente paralelo em volta do comércio, circulação e fabricação dos entorpecentes.
Sendo ilícitas, todas as fases envolvidas acabam por gerar mais crimes, em um ciclo que acaba necessariamente terminando em violência. Nenhuma das partes tem a possibilidade de reclamar seu direito na justiça, o que faz que as desavenças sejam resolvidas todas na força; quer dizer, na bala.
Cada novo ilícito gera uma infinidade de outros. Por exemplo, o dinheiro ganho na venda de drogas não pode ir diretamente para um banco ou qualquer outra instituição financeira, então tem que ser “lavado” ou “reciclado” (uso para financiar outro tipo de crime, como contrabando ou roubo a bancos).
Sem contar a desagregação social que uma indústria que não tem como se integrar causa. Os doentes (dependentes) têm dificuldades para conseguir tratamento, os “comerciantes” não têm nenhum tipo de suporte para a melhoria de seus negócios e os “funcionários” não têm nenhum tipo de previdência social para ajudá-los e aos seus familiares. Suporte que talvez nem seja mesmo necessário, a maioria não sobrevive o tempo suficiente para precisar de aposentadoria ou algo parecido.
E o produto comercializado não tem nenhuma garantia de segurança para o usuário, nem dos componentes da mistura nem das proporções. Podendo ser desde um placebo inócuo – a melhor hipótese – até um verdadeiro veneno.
Por tudo isso, acredito que seria muito mais prático para a nossa sociedade tentar integrar o comércio e o uso de drogas que hoje são ilícitas ao lado “visível” e cumpridor das leis do que ficar brandindo justificativas morais para segregá-los, enquanto outras drogas são largamente utilizadas, contando até com o incentivo das propagandas em TV.
Quando se obriga alguém a viver como um marginal, ele se torna um. Aí Inês é morta.
segunda-feira, 2 de maio de 2005
O salário de 100 dólares
Maio começou e com ele veio a realização de um sonho dos políticos, o salário-mínimo de mais de 100 dólares. Não vi ninguém pulando de alegria, nem chorando de tristeza, com a notícia. Talvez porque é muito cedo para fazer disto um assunto para palanque eleitoral. Se bem que certo como a chuva cai e o fogo sobe, isto será explorado no futuro.
Tão logo maio acabe, ou os ordenados do mês passem a ser debitados nas contas dos assalariados, veremos que uma das bandeiras dos economistas do governo passado não passavam de balela. A da desindexação da economia.
Apesar de ser muito menos do que foi no passado; a nossa economia é muito, mais muito mesmo, indexada ainda. Uma mudança do salário-mínimo causa uma onda de remarcações que abrange uma série de contratos, marcadamente os verbais, que regem a maioria das negociações nos rincões de nossa nação.
Em muitas partes do país, quase a totalidade dos assalariados é remunerada com derivados deste salário e também o são os aluguéis, as “penduras” nas vendas, as vacas, os bodes, etc. Isto ocorre devido ao salário-mínimo ser um índice que é entendido por todos, que está a disposição na grande imprensa e, mais importante, remunera a base econômica de uma parcela muito grande dos municípios brasileiros, os aposentados do INSS e os funcionários públicos.
Esta é a forma que a população menos abastada encontrou para negociar seus contratos e manter uma paridade de poder de compra estável durante o ano. Moldada na época de inflação explosiva que nos assolou até o início do plano real, a indexação automática de contratos foi, e ainda é, o grande inimigo do controle da inflação no Brasil. Não importavam quão duras fossem as medidas para combater as remarcações de preços, este fenômeno da indexação, que provocava o que os economistas chamam de inflação inercial, acabava por atenuar-lhes o efeito.
Os mais abastados utilizam o dólar, mesmo que esta prática tenha sido proibida por lei visando justamente diminuir o ímpeto da inflação inercial, o que compromete a economia como um todo. Por exemplo, o valor das mercadorias que o Brasil consegue exportar, como frango e soja, sofre grandes reajustes no mercado interno sempre o dólar se valoriza em relação ao real.
Hoje, além dos contratos indexados ao salário-mínimo, temos aqueles que se atrelam ao dólar, à IPCA, à TR e a um sem-número de outros índices Brasil afora.
E o mais estranho é que grande parte destes contratos são padrões da administração federal, que tem por obrigação tentar domar os reajustes de preços. Os preços administrados são, em sua maioria, calculados com bases em índices que levam não só a inflação, mas também o dólar como parâmetros dos reajustes aos quais as empresas têm direito de aplicar.
Os impostos têm também indexadores próprios que não variam apenas mensalmente, variam diariamente.
Com base nisto parece até piada que o governo central aplique taxas de juros cada vez maiores para tentar barrar a inflação, quando não terminou de aniquilar o item que mais interfere com a inflação em nosso país, a indexação. De muito mal-gosto, por sinal
Tão logo maio acabe, ou os ordenados do mês passem a ser debitados nas contas dos assalariados, veremos que uma das bandeiras dos economistas do governo passado não passavam de balela. A da desindexação da economia.
Apesar de ser muito menos do que foi no passado; a nossa economia é muito, mais muito mesmo, indexada ainda. Uma mudança do salário-mínimo causa uma onda de remarcações que abrange uma série de contratos, marcadamente os verbais, que regem a maioria das negociações nos rincões de nossa nação.
Em muitas partes do país, quase a totalidade dos assalariados é remunerada com derivados deste salário e também o são os aluguéis, as “penduras” nas vendas, as vacas, os bodes, etc. Isto ocorre devido ao salário-mínimo ser um índice que é entendido por todos, que está a disposição na grande imprensa e, mais importante, remunera a base econômica de uma parcela muito grande dos municípios brasileiros, os aposentados do INSS e os funcionários públicos.
Esta é a forma que a população menos abastada encontrou para negociar seus contratos e manter uma paridade de poder de compra estável durante o ano. Moldada na época de inflação explosiva que nos assolou até o início do plano real, a indexação automática de contratos foi, e ainda é, o grande inimigo do controle da inflação no Brasil. Não importavam quão duras fossem as medidas para combater as remarcações de preços, este fenômeno da indexação, que provocava o que os economistas chamam de inflação inercial, acabava por atenuar-lhes o efeito.
Os mais abastados utilizam o dólar, mesmo que esta prática tenha sido proibida por lei visando justamente diminuir o ímpeto da inflação inercial, o que compromete a economia como um todo. Por exemplo, o valor das mercadorias que o Brasil consegue exportar, como frango e soja, sofre grandes reajustes no mercado interno sempre o dólar se valoriza em relação ao real.
Hoje, além dos contratos indexados ao salário-mínimo, temos aqueles que se atrelam ao dólar, à IPCA, à TR e a um sem-número de outros índices Brasil afora.
E o mais estranho é que grande parte destes contratos são padrões da administração federal, que tem por obrigação tentar domar os reajustes de preços. Os preços administrados são, em sua maioria, calculados com bases em índices que levam não só a inflação, mas também o dólar como parâmetros dos reajustes aos quais as empresas têm direito de aplicar.
Os impostos têm também indexadores próprios que não variam apenas mensalmente, variam diariamente.
Com base nisto parece até piada que o governo central aplique taxas de juros cada vez maiores para tentar barrar a inflação, quando não terminou de aniquilar o item que mais interfere com a inflação em nosso país, a indexação. De muito mal-gosto, por sinal
Assinar:
Postagens (Atom)